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Ilhéus precisa avançar na defesa da causa animal

O abandono não mata apenas animais; ele revela o quanto ainda precisamos evoluir como sociedade

Há momentos em que o silêncio se transforma em conivência. Diante da realidade vivida diariamente pelos animais abandonados em Ilhéus, permanecer indiferente significa aceitar uma tragédia que se agrava diante dos nossos olhos.

Em poucos dias, dois cavalos morreram em nossa cidade. Não se tratou de fatalidades inevitáveis, mas de consequências previsíveis do abandono, da negligência e da ausência de responsabilidade. Enquanto isso, centenas de cães circulam pelas ruas em busca de alimento e abrigo. Cadelas dão à luz em terrenos baldios, calçadas e construções abandonadas, perpetuando um ciclo de sofrimento que parece não ter fim. Em muitos casos, famílias mudam de endereço e simplesmente deixam seus animais para trás, como se vidas pudessem ser descartadas junto com objetos sem utilidade.

Cavalo na Zona Norte, sofrendo, abandonado. Morreu

Essa realidade revela um problema muito maior do que o abandono de animais. Ela evidencia uma crise de valores. Falta empatia. Falta compaixão. Falta compreender que um animal não é um bem de consumo, mas um ser vivo, capaz de sentir medo, fome, dor, frio, solidão e angústia.

O abandono não se encerra quando o tutor fecha o portão e vai embora. É justamente nesse instante que o sofrimento do animal começa. Muitos permanecem dias aguardando o retorno de quem jamais voltará. Outros adoecem, são atropelados, vítimas de maus-tratos ou morrem lentamente em decorrência da fome e da sede. O abandono fere o corpo, mas também compromete emocionalmente um ser que confiava plenamente em quem deveria protegê-lo.

Enquanto isso, protetores independentes e organizações da sociedade civil seguem tentando suprir uma lacuna que não lhes cabe exclusivamente. Resgatam, alimentam, medicam, castram, arrecadam doações, buscam adoções e enfrentam diariamente cenas de extrema crueldade. O custo é elevado. O desgaste físico soma-se ao esgotamento emocional. A sensação de impotência, a frustração e a tristeza tornam-se constantes diante da impossibilidade de atender a todos os pedidos de socorro.

Cadela abandonada junto a um cachorro morto, já em decomposição. Zona Sul.

Nenhuma cidade pode esperar que voluntários resolvam, sozinhos, um problema construído por toda a sociedade. A solução exige responsabilidade compartilhada. É indispensável fortalecer políticas públicas de castração, educação para a guarda responsável, fiscalização de maus-tratos, identificação dos animais e responsabilização efetiva daqueles que abandonam. Ainda assim, nenhuma política será suficiente sem uma mudança profunda na consciência coletiva.

A verdadeira transformação começa dentro de cada lar. Antes de adquirir ou adotar um animal, é preciso compreender que ele dependerá de cuidados, proteção, alimentação, assistência veterinária e afeto durante toda a sua vida. Responsabilidade não pode ser temporária. Amor não pode ter prazo de validade.

Zona Central de Ilhéus. Cavalo muito machucado, abandonado, sem água e sem comida. Foi a óbito

A forma como uma sociedade trata seus animais revela, inevitavelmente, o nível de humanidade que ela alcançou. Não existe desenvolvimento verdadeiro quando vidas continuam sendo tratadas com desprezo. Não existe progresso onde a indiferença se torna rotina.

Ilhéus precisa amadurecer em relação à causa animal. Precisa compreender que o abandono não é apenas um problema dos protetores, das ONGs ou do poder público. É um reflexo da sociedade que estamos construindo.

Que possamos escolher um caminho diferente: o do respeito à vida, da empatia, da responsabilidade e da compaixão. Porque uma cidade só pode ser considerada verdadeiramente humana quando protege aqueles que não têm voz para pedir socorro, mas sentem, sofrem e esperam, todos os dias, por alguém que finalmente escolha não abandoná-los.

Texto:
Cristiano Jesus
Patrícia Mendes
Uallessong Santos
Voluntários – Ong PlanetadosBichos- Ilhéus

@planetadosbichosios

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