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O Brasil está preparado para o novo mundo do cacau?

Por Antônio Carlos Magnavita Maia
Médico e cacauicultor

Nas últimas décadas, aprendemos a interpretar o mercado mundial do cacau quase exclusivamente pela ótica da produção africana.

Essa análise continua importante, mas já não basta.

A verdadeira pergunta é:

O Brasil está preparado para o novo mundo do cacau?

Tudo indica que estamos diante de uma mudança estrutural.

A África Ocidental, responsável pela maior parte da produção mundial, enfrenta dificuldades crescentes para manter e ampliar sua oferta. O envelhecimento dos cacaueiros, a baixa renovação das lavouras, as doenças, as limitações de investimento e a crescente instabilidade climática reduzem sua capacidade de responder ao aumento da demanda mundial.

Ao mesmo tempo, a Ásia consolida-se como o principal vetor de crescimento do consumo de cacau. A melhoria da qualidade de vida, a expansão da renda e o fortalecimento da classe média incorporam centenas de milhões de novos consumidores ao mercado de chocolates e derivados do cacau.

Pela dimensão de sua população e pelo enorme potencial de crescimento do consumo per capita, a demanda asiática poderá compensar, com vantagem, qualquer eventual desaceleração dos mercados maduros da Europa e dos Estados Unidos.

Essa convergência entre uma oferta estruturalmente mais limitada e uma demanda em expansão aponta para um horizonte menos sombrio para os preços do cacau.

Se, além disso, ocorrerem eventos contingenciais, como um novo episódio intenso de El Niño ou outras anomalias climáticas capazes de comprometer a produção africana, os efeitos sobre o mercado poderão ser ainda mais expressivos.

É importante recordar a história.

No final da década de 1970, o cacau alcançou preços que, corrigidos pela inflação do dólar, corresponderiam hoje a cerca de US$ 30 mil por tonelada — muito acima dos aproximadamente US$ 13 mil registrados em 2024.

Naquele período, entretanto, o mundo era outro.

A demanda mundial era significativamente menor. O Brasil praticamente não possuía um mercado interno relevante para chocolates e derivados; a maior parte da produção destinava-se à exportação.

Além disso, havia uma indústria moageira nacional forte e dezenas de empresas brasileiras exportadoras competindo pela compra do nosso cacau. Esse ambiente concorrencial valorizava a produção e ampliava o poder de negociação dos produtores.

Hoje, embora o Brasil tenha se transformado em um dos maiores mercados consumidores de chocolate do mundo, a estrutura de compra tornou-se muito mais concentrada.

É por isso que compreender o mercado atual exige reconhecer um quarto fator, além da bolsa, do câmbio e do diferencial: o ambiente regulatório interno.

As regras de concorrência, a política comercial, os mecanismos de formação de preços, o financiamento, a industrialização, a agregação de valor e as decisões do Estado influenciam diretamente a remuneração do produtor.

O novo mundo do cacau exigirá mais do que produzir.

Exigirá visão estratégica.

O Brasil reúne condições naturais privilegiadas, ciência, tecnologia, produtores experientes e um patrimônio ambiental singular, representado pelo cacau florestal cultivado nos sistemas de cabruca da Mata Atlântica e pelos sistemas agroflorestais da Amazônia.

Tem todas as condições para tornar-se uma das grandes referências mundiais na produção sustentável de cacau.

Mas essa oportunidade não será conquistada espontaneamente.

Ela dependerá de uma verdadeira política de Estado, capaz de estimular a produção, fortalecer a concorrência, ampliar a industrialização, agregar valor na origem e assegurar que a riqueza gerada pelo mercado internacional seja compartilhada de forma mais justa com quem produz.

O Brasil não pode continuar apenas reagindo aos acontecimentos.

Precisa antecipar-se a eles.

Se a África encontrar dificuldades crescentes para ampliar sua produção e a Ásia continuar liderando a expansão da demanda mundial, estaremos diante de uma oportunidade histórica que talvez não se repita nesta geração.

O mundo do cacau está mudando.

A África enfrenta limites estruturais.

A Ásia amplia sua demanda.

O Brasil possui as condições naturais, científicas e ambientais para assumir um novo protagonismo.

O futuro do cacau não será decidido apenas nas lavouras da África.

Também será definido pelas mesas dos consumidores asiáticos e, sobretudo, pelas decisões que o Brasil tomar a partir de agora.

A pergunta que permanece é simples:

Estaremos preparados para aproveitar a maior oportunidade da história da cacauicultura brasileira ou continuaremos sendo levados pelas marés do oligopsônio, como peixes presos e reféns nas redes dos pescadores cartelizados que, além-mar, controlam o mercado mundial como donos?

A resposta não será dada pelo mercado.

Será dada pelo planejamento, pela coragem e decisões que o Brasil tiver a capacidade de tomar a partir de agora.

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