
Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

Conta-se que um psicólogo, visitando uma comunidade de pescadores no extremo norte do planeta, percebeu que todos acordavam muito cedo, enfrentavam o frio intenso e quebravam gelo para conservar os peixes durante a pescaria.
Ao perguntar qual era a parte mais cansativa do trabalho, ouviu que não era pescar, mas levantar tão cedo para quebrar e recolher o gelo.
Na manhã seguinte, resolveu fazer esse serviço antes que os pescadores acordassem. Surpresos e agradecidos, ofereceram-lhe peixes como recompensa.
O visitante, porém, perguntou:
— Quanto vale para vocês uma hora a mais de sono?
Os pescadores compreenderam que aquele homem não pretendia vender gelo onde ele existia em abundância. Estava oferecendo tempo, descanso e uma solução para um problema cotidiano.
A arte de encontrar soluções
A fábula ensina que muitas vezes nos acostumamos aos problemas e deixamos de questionar os métodos utilizados para enfrentá-los.
Nas empresas, buscamos aumentar as vendas quando a verdadeira dificuldade pode estar nos custos, nos processos ou na organização.
Na cacauicultura, o produtor pode concentrar seus esforços em aumentar a produção, quando sua maior dificuldade talvez esteja no custo de produzir, na comercialização, na falta de mão de obra, na organização do trabalho ou na falta de cooperação entre produtores.
A escassez de trabalhadores, especialmente na colheita, na quebra e na retirada das amêndoas, exige soluções que envolvam melhores ferramentas, tecnologias, organização das equipes e serviços compartilhados entre propriedades.
Assim como os pescadores não precisavam de mais gelo, mas de uma maneira menos penosa de obtê-lo, os cacauicultores precisam encontrar formas mais eficientes de trabalhar com os recursos disponíveis.
A grande lição é simples: antes de procurar uma solução, precisamos identificar corretamente o problema.
A inovação começa quando deixamos de perguntar apenas “Como produzir mais?” e passamos a questionar:
“Como produzir melhor, com menos esforço, menores custos e maior eficiência?”
Talvez a próxima grande transformação da cacauicultura não esteja apenas em produzir mais cacau, mas em descobrir uma maneira melhor de produzi-lo.
Nota de rodapé: Esta fábula foi inspirada em um caso real divulgado pelo The Christian Science Monitor, em 6 de junho de 1983. A Ice Machine Corporation of America, sediada em Beaverton, Oregon, vendeu uma máquina de fabricar gelo para cada uma das comunidades esquimós de Toksook Bay e Tununak, localizadas na Ilha Nelson, no Alasca. As máquinas produziam gelo a partir da água salgada, permitindo conservar o pescado por mais tempo. O episódio do psicólogo e dos pescadores constitui uma adaptação literária, não um relato documentado da reportagem.






