
“… tua será a terra e tudo o que mais existe.
E, mais que isso, serás um Homem, meu filho!”
SE, Rudyard Kipling (1910)
Paulo Peixinho, cacauicultor
Talvez tenha sido em 1975 que ouvi falar, pela primeira vez, do doutor Ângelo Calmon de Sá. Eu tinha 14 anos, vivia no universo das fazendas de cacau do Sul da Bahia e ainda não imaginava os caminhos que a vida me reservaria.
Ele seria paraninfo de uma turma de Economia da antiga FESPI, na sede da CEPLAC.
Naquela época, eu não poderia imaginar que ele voltaria a cruzar minha vida, não apenas como uma figura influente, mas como alguém cujas palavras e atitudes permaneceriam comigo por décadas.
Em 1982, já trabalhava no comércio de cacau. Foi quando tomei conhecimento, pela Reuters, de uma oferta de crédito de US$ 150 milhões para garantir preços ao cacauicultor baiano no mercado internacional. Comecei a compreender a dimensão de sua atuação.
Pouco depois, passei a encontrá-lo nas reuniões do setor cacaueiro. Sua presença despertava respeito e expectativa. Em uma dessas reuniões, falou do poema Se (If), de Rudyard Kipling, sobre a serenidade diante das adversidades, a capacidade de recomeçar e a sabedoria de tratar o Triunfo e o Desastre como dois impostores.
Eu tinha 21 anos. Não compreendi inteiramente a profundidade daquela mensagem. A vida e o mercado do cacau se encarregariam de explicá-la. Vi preços dispararem e desabarem, fortunas surgirem e desaparecerem, empresas poderosas sucumbirem às crises e produtores obrigados a recomeçar. Vi o Triunfo. Vi o Desastre. Os dois passam.
Anos depois, após a morte precoce de meu pai, procurei-o para resolver um problema que se arrastava havia dois meses. Ouviu-me, pensou por alguns minutos e resolveu. Depois, convidou-me para uma conversa que voltou ao nosso universo comum: o cacau. Ali conheci sua capacidade de decidir.
Em 1991, minha mãe precisava de uma cirurgia urgente. Um crédito previamente acertado não estava disponível. Enviei-lhe um fax. Três dias depois, em São Paulo, o problema estava resolvido.
Foi assim que conheci, aos poucos, não apenas sua autoridade e capacidade de decidir, mas, sobretudo, seu empreendedorismo e sua humanidade.
A cada aniversário, envio-lhe uma mensagem privada e minhas orações. Desta vez, transformo minha gratidão pessoal em homenagem pública.
Hoje, 1º de novembro de 2026, o doutor Ângelo completa 91 anos. Sua trajetória na cacauicultura começou em 1963, com a Agrícola Cantagalo, empreendimento que se tornou referência em produtividade e inovação.
Reconhecido pela CEPLAC como Cacauicultor do Ano em 1980, viu a produtividade de suas lavouras crescer de 36 para 88 arrobas por hectare entre 1975 e 1980.
Durante a crise da vassoura-de-bruxa, apoiou pesquisas e a difusão de materiais genéticos, entre eles o PS-1319, associado à Fazenda Porto Seguro.
Cada produtor que cultiva um PS-1319 carrega, simbolicamente, um pouco do DNA empreendedor do doutor Ângelo.
Seu legado permanece na Agrícola Cantagalo, hoje conduzida por sua filha, Cláudia Calmon de Sá, e nas contribuições que ajudaram outros produtores a renovar suas lavouras.
Esta homenagem representa também o reconhecimento dos cacauicultores de diferentes gerações à sua contribuição para a agricultura brasileira.
O verdadeiro legado de um cacauicultor não está apenas nas árvores que plantou, mas também naquelas que ajudou outros agricultores a cultivar.
Não guardei apenas suas palavras. Guardei seus gestos, seu exemplo e, sobretudo, a gratidão.
Parabenizo-lhe pela passagem do seu aniversário.
Que Deus, Senhor do Bonfim, e Irmã Dulce lhe permitam viver, no mínimo, até os cem anos, com o vigor de quem ama o cacau e a cacauicultura.






