
Por Paulo Peixinho, cacauicultor
paulo@cacaupeixinho.com

Recém-chegado de Salvador, voltei a morar em Itabuna. Aos vinte e cinco anos, já diretor de uma exportadora de cacau, o retorno não foi escolha — foi destino. Tudo era novo, embora cheirasse a velho conhecido.
Certo dia, entrou na filial de compras um sujeito de rosto duro e presença pesada, desses que lembram segurança ou pistoleiro à moda antiga. Falou alto, sem rodeios:
— Não pago juros.
O gerente, meu compadre, homem de bom trato, tentou contemporizar. Havia outros cacauicultores no escritório — gente acostumada a negociar, não a ouvir bravatas.
Aproximei-me e perguntei o ocorrido. A explicação veio direta: Bibi vendera cacau dez meses antes, assinara a nota promissória, mas nunca o contrato. Nem entregara a mercadoria.
Ele confirmou tudo. Apenas reforçou a tese:
— Juros, não pago. É minha lei.
Concordei com a cabeça e o convidei para conversarmos em outro ambiente. Subimos a escada de vinhático, sem corrimão, ladeada por esculturas de madeira representando a colheita do cacau — obra de um artista nativo.
No andar de cima, Bibi pousou uma capanga sobre a mesa de granito. O som seco do couro na pedra sugeria aço. Imaginei uma arma. Mantive a calma.
Expliquei: não haveria juros. Consultei o preço do cacau à época do adiantamento, refiz as contas. O valor correspondia a cerca de cem arrobas. Sem juros. Apenas mercadoria.
Ele concordou. Número não admite ameaça.
Tentou então outro caminho:
— Você sabe de onde eu sou?
— Não.
— Santa Rosa.
— Sou de Jussari.

Insistiu. Disse que Santa Rosa era terra de gente braba, que lá se expulsavam índios e se resolviam pendências à bala. Citou nomes. Um deles, famoso por enriquecer com o sofrimento alheio.
Quando terminou, perguntei com naturalidade:
— O senhor conheceu Pedro Santa Rosa?
— Meu amigo. Meu protetor — respondeu, confiante. — Para uns, portas abertas. Para outros, valas.
Foi aí que disse, baixo e tranquilo:
— Meu tio.
O silêncio se impôs. Ainda protegido pela memória do próprio São Pedro, Bibi perguntou:
— Como faço para te pagar?
— Com dinheiro ou cacau.
— Não tenho nenhum dos dois.
Notei o talão de cheques vermelhos no bolso do paletó.
— Então metade em quinze dias, metade em trinta.
Aceitou. Prometi devolver a nota promissória após o cumprimento do acordo. Descemos a escada como velhos conhecidos. No escritório, ninguém entendeu nada.
Os cheques foram lançados. Pagos.
O gerente quis explicações. Disse apenas que tinha um caboclo protetor, que me ajudava a enxergar a verdade.
A história correu. Virei espírita. O caboclo me protegia dos trambiqueiros.
Não protegeu de tudo. Anos depois, um empregado clonou cheques, sacava FGTS dos funcionários, valendo-se da permissividade do gerente do banco — que nutria desejos pelo empregado e pastor.
Histórias do tempo em que crédito era farto e controle, raro.
Hoje sei: Bibi cumpriu o contrato por causa da própria língua.
Naquele tempo, chamávamos isso de história do cacau.
Agora entendo melhor: era só crédito demais.
A vassoura-de-bruxa varreu muita coisa.
Entre elas, o crédito fácil.
Hoje, cacau só se vende à vista.
Pelo menos, ainda há liquidez imediata.







Belo texto, é um relato autêntico que preserva a memória da cacauicultura não como um dado estatístico, mas como um emaranhado de relações humanas, honra e sobrevivência. Parabéns