
Cleber Isaac Filho
A cabruca gosta de dizer que foi vítima.
Vítima da vassoura, do governo, do preço, do clima, do dólar, de Marte, de Mercúrio retrógrado… de tudo.
Mas a verdade é bem mais simples — e bem mais feia:
a cabruca quebrou porque parou no tempo.
A culpa não é da praga, nem da chuva, nem da seca.
A culpa é da zona de conforto.
Enquanto o mundo corre, a cabruca caminha devagar, olhando pro chão, procurando uma desculpa nova para o mesmo problema velho.
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O Cerrado produz. A cabruca filosofa.
No Cerrado, cada hectare é uma fábrica.
Na cabruca, cada hectare é uma conversa.
Lá se discute produtividade.
Aqui se discute “como era bom na época do IBC”.
O agricultor do Cerrado planta, colhe, investe, melhora.
O produtor de cabruca faz reunião, tira foto, publica nota oficial e… continua produzindo nada.
Cabruca virou isso:
um museu agrícola com livreto de justificativas na entrada.
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A cabruca ainda não entendeu que o mercado está nem aí para nostalgia
O comprador quer cacau.
Quer qualidade.
Quer constância.
Quer volume.
Mas o que a cabruca oferece?
– cacau verde,
– cacau mal fermentado,
– cacau misturado,
– cacau atrasado,
– cacau romantizado.
Aí, quando o preço cai, vem o espanto:
“Mas por quê?”
Porque o mundo não paga história bonita.
Paga produtividade.
—

O mito do cacau fino — a anestesia preferida da região
Quando a produtividade não existe, a solução mágica apareceu:
“Vamos virar cacau fino!”
É o equivalente agrícola do “vou ganhar dinheiro vendendo artesanato na praia”.
O cacau fino é glorioso…
Mas é menos de 10% do consumo mundial.
A Bahia pode virar o terroir mais perfeito da galáxia —
e mesmo assim não sustenta a região.
Viver de cacau fino é como viver de poesia:
bonito, mas não paga boletos.
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A verdade que ninguém gosta de ouvir
Grande parte da cabruca não quer mudança.
Quer um salvador.
Quer:
subsídio,
projeto,
ONG,
governo,
aposta milagrosa,
decreto mágico,
reunião extraordinária,
coletiva de imprensa.
E sabe o que o Cerrado quer?
Trator.
Adubo.
Tecnologia.
Produtividade.
Resultado.
Por isso ele cresce.
E por isso a cabruca encolhe.
—

A pergunta final — que dói, mas precisa ser feita
A cabruca quer ser agricultura
ou quer ser patrimônio histórico para turista tirar foto?
Porque se continuar assim, vai virar cenário de novela de época: bonito, nostálgico… e totalmente irrelevante.
A escolha é simples:
virar agricultura moderna — ou virar lembrança.
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Cleber Isaac Filho é hoteleiro, ambientalista, empreendedor e coordenador do Programa Economia Verde






