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Eco-Nomia das Cabrucas valoriza sustentabilidade no Sul da Bahia

Pesquisa da Uesc identifica sinergias entre produção de cacau e manutenção de serviços ambientais

Profa. Deborah Faria

Debora Faria

A lavoura cacaueira do Sul da Bahia passou por ciclos de grande prosperidade, mas também de grandes crises. O setor e a região toda ainda tentam se recuperar da última conjuntura negativa provocada pelo decréscimo dos preços da commodity e da introdução da vassoura-de-bruxa, principal responsável pela queda vertiginosa na produção regional. Como qualquer sistema produtivo, a manutenção desta lavoura depende de sua viabilidade econômica que hoje, entre outras coisas, parece estar atrelada a um esforço de modernização destas plantações. Parte deste esforço envolve um manejo mais intensivo, caracterizado pelo maior adensamento dos pés de cacau e uma redução substancial do nível de sombreamento, afetando especialmente as agroflorestas tradicionais, as nossas cabrucas.

Porém, pesquisas recentes conduzidas pelo Laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação da Universidade Estadual de Santa Cruz, contestam esta estreita relação entre a remoção de árvores de sombra e o aumento da produção. Sim, plantações muito sombreadas tendem a ter menor produção, porém os resultados dos nossos estudos mostram que é possível produzir acima da média regional em fazendas com um razoável nível de sombreamento. Desde o ano passado estamos ampliando esta pesquisa, incluindo maior número de fazendas e investigando outros efeitos deste raleamento na densidade de árvores que sombreiam os cacaueiros.

Nesta nova fase do projeto “Eco-Nomia das Cabrucas” buscamos verificar como conciliar bons níveis de produtividade com graus intermediários de sombreamento. Mas o projeto vai além disso. Na verdade, investigamos de que forma a biodiversidade, os animais e plantas presente nas áreas de cacau, ou nas florestas em volta delas, podem ajudar no aumento da produção. Nos referimos aqui aos chamados serviços ambientais, ou seja, todos os benefícios que a natureza promove, gratuitamente, e que garantem a sobrevivência e o bem-estar da humanidade.

Nosso grupo de pesquisa já revelou, por exemplo, que morcegos e aves são alguns dos animais com grande capacidade de predar invertebrados que podem se tornar pestes por reduzirem a área total de folhas dos cacaueiros. A própria polinização do cacau, feita por pequenas mosquinhas, pode aumentar a partir de certo nível de sombreamento local e proximidade de florestas. A importância da biodiversidade, portanto, vai além da conservação de bichos e plantas.

Cada vez mais estamos desvendando a importância econômica deste capital natural. E estas informações são ainda mais relevantes em um contexto de mudanças climáticas. Um relatório técnico recente, financiado por agências internacionais como a “World Cocoa Foundation”, aponta que ainda sabemos pouco sobre o efeito das mudanças climáticas no cacau, mas o documento mostra que todos as simulações indicam um decréscimo significativo da área com aptidão climática disponível para a lavoura do cacau. Esta redução se dá, principalmente, devido ao aumento das máximas de temperatura e queda na disponibilidade hídrica.

Os autores deste relatório sustentam que o desenvolvimento de clones geneticamente adaptados a estas novas condições climáticas é certamente uma condição importante para mitigar este impacto, mas sugerem ainda que o uso de sombra também deve ser empregado para reduzir a demanda evaporativa do cultivar. No entanto, como em outras partes do mundo, a tendência é a redução, não manutenção de sombra. E este desbaste não é pequeno.

Na escala regional, nós estimamos que caso toda a área de cacau no sul da Bahia for intensificada com a retirada parcial destas árvores sombreadoras teremos uma perda de ~21 mil toneladas de carbono para a atmosfera. Este montante equivale a 2/3 de todo carbono estocado nas florestas nativas que hoje existem na região. Precisamos, portanto, avaliar se a redução da sombra para ganhos mais imediatos pode levar a perdas na produção em médio e longo prazo. O projeto Eco-nomia das Cabrucas, formado por um time de biólogos, agrônomos e economistas, vai ajudar a responder questões como estas, e disponibilizar resultados e conclusões a todos os interessados e envolvidos na atividade produtiva agrícola da nossa região.

Deborah Faria é coordenadora do Laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação da Universidade Estadual de Santa Cruz-Uesc

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