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A cabrucas como estratégia climaticamente inteligentes para o cacau no Sul da Bahia

Estudo da Uesc mostra impactos de mudanças climáticas na lavoura cacaueira

O cacau, principal produto agrícola o Sul da Bahia, é uma planta bastante sensível a limiares de temperatura e precipitação. Esta exigência climática explica em parte o sucesso da lavoura nesta região, que por quase dois séculos tem sido a principal produtora desta comoditie no Brasil.

 

Mas esta bonança climática não deverá ser mantida a longo prazo, pelo menos é isso que mostra a modelagem feita pela equipe do Laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação (LEAC), da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) . Em um artigo publicado nesta semana na prestigiada revista científica “Agronomy for Sustainable Development” os pesquisadores elaboraram modelos climáticos com dois  cenários distintos para o ano de 2050, um mais ameno e outro mais pessimista.

Em ambos haverá uma mudança grande no regime de precipitação e de temperaturas extremas que devem comprometer a adequabilidade climática da região ao cultivo do cacau. Isso ocorre porque os cacaueiros são particularmente sensíveis à deficiência hídrica e temperaturas extremas e, portanto, exceder estes limites de tolerância leva à mortalidade de árvores jovens e a perda de rendimento.

Deborah Faria,

“Em ambos os modelos prevemos mudanças significativas que reduzirão muito a qualidade climática desta região ao cultivo do cacau” diz Deborah Faria, uma das autoras do estudo e coordenadora do LEAC. O estudo analisa o impacto destas mudanças climáticas, que  seria alterado a depender do tipo de sistema de cultivo, especificamente, o cacau produzido em agroflorestas tradicionais, as chamadas cabrucas, ou através do sistema de monocultivo a pleno sol, uma tendência em outras regiões devido a maior produtividade em curto prazo.

 

O estudo prevê que, independentemente do sistema de cultivo, haverá uma perda da área climaticamente adequada para a produção de cacau nos dois cenários climáticos. Porém, esta perda será muito maior caso o cacau a pleno sol predomine. Especificamente, o estudo prevê que que apenas 26% da área atual seja climaticamente viável para produzir cacau a pelno sol, enquanto se as plantações se mantiverem no sistema cabruca, 63% da área ainda terá adequabilidade climática para o cacau. Isso se dá pelo importante papel do sombreamento em manter a estabilidade climática da plantação para o cacau.

 

 

Neander Heming

Segundo Neander Heming, autor principal do estudo “a presença de árvores sombreadoras no sistema cabruca pode manter a temperatura até 6° C mais baixa do que em plantações a pleno sol, amenizando os extremos de temperatura experimentados pelo cacaueiro”. O estudo indica, portanto, que o cultivo tradicional de cacau-cabruca, além de vários outros benefícios já estudados pela equipe do LEAC, também diminui os efeitos negativos das mudanças climáticas para as plantações de cacau da região.

O cacau-cabruca, portanto, pode ser chamado de cultivo climate-smart (ou agricultura inteligente em matéria de clima), sendo uma estratégia fundamental na adaptação climática da região.

Leia o estudo na íntegra:

https://doi.org/10.1007/s13593-022-00780-w

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