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Produzir não basta: sem organização e agregação de valor, o país seguirá exportando riqueza e importando desenvolvimento

 

Antonio Maia

A cacauicultura brasileira chegou a um ponto de inflexão. O país precisa decidir se quer assumir protagonismo na cadeia global do chocolate ou permanecer como fornecedor de matéria-prima, enquanto o maior valor econômico é capturado no exterior.

Ao longo do século 20, o cacau foi um importante vetor de desenvolvimento regional. Gerou riqueza, estruturou cidades e integrou o Brasil ao mercado internacional. Esse processo resultou de uma estratégia que articulou ciência, formação e produção.

Sob a liderança de Inácio Tosta Filho, formou-se um modelo institucional consistente. A CEPLAC organizou a base científica e a assistência técnica. A EMARC contribuiu na formação profissional. Houve também iniciativas de cooperativismo e agroindustrialização voltadas a ampliar a participação dos produtores na cadeia.

Esse sistema sustentou o dinamismo do setor por décadas.

A partir do final do século 20, porém, a crise da vassoura-de-bruxa, combinada com preços internacionais baixos, desorganizou parte desse modelo. Instituições foram enfraquecidas, produtores se fragmentaram e estruturas coletivas perderam força.

Ao mesmo tempo, a cadeia global do cacau e do chocolate se concentrou nas mãos de grandes grupos internacionais.

O resultado é conhecido: o produtor permanece na base, enquanto a maior parte do valor é apropriada fora da origem.

Não há exceção histórica relevante: nenhum setor agrícola alcança autonomia sem organização coletiva e estratégia de longo prazo.

Hoje, graças à CEPLAC, a cacauicultura brasileira tem outra configuração. A produção se expandiu para novas regiões, especialmente a Amazônia, onde o cacau vem sendo utilizado em sistemas agroflorestais e na recuperação de áreas degradadas.

O país reúne condições favoráveis para um novo ciclo: base científica consolidada, experiência produtiva, sustentabilidade reconhecida e mercado interno relevante.

O contexto internacional também mudou. Guerras, tensões geopolíticas, reorganização de cadeias produtivas e preocupações com segurança alimentar recolocam a produção de alimentos como ativo estratégico.

Nesse cenário, o cacau ganha importância adicional. Além do valor econômico, é um alimento associado à saúde e ao bem-estar. Fortalecer sua produção é também uma questão de posicionamento estratégico.

Mas esse movimento não ocorrerá por inércia.

Depende da capacidade de reorganização nacional do setor — e isso começa pelos produtores. Nesse processo, entidades como a Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) desempenham papel central na articulação, representação e fortalecimento institucional da cacauicultura.

Sem organização, não há escala de influência. Sem escala, não há poder de negociação. E, sem ele, o produtor seguirá capturando apenas uma parcela reduzida do valor que ajuda a gerar.

O Brasil precisa tratar a cacauicultura como política de Estado. Isso implica continuidade, coordenação e foco em agregação de valor.

Produzir mais não é suficiente. É necessário produzir melhor, avançar na industrialização, fortalecer marcas nacionais e ampliar a presença nas etapas mais rentáveis da cadeia.

O cacau não é apenas uma atividade econômica. É saúde, tradição e patrimônio científico, e instrumento de desenvolvimento sustentável. Representa um legado e uma oportunidade.

Preservá-lo e fortalecê-lo é uma decisão estratégica.

A soberania da cacauicultura brasileira começa pela organização de seus produtores — e essa organização passa, necessariamente, pelo fortalecimento de entidades nacionais representativas, como a ANPC.

Produtores de cacau do Brasil, UNI-VOS!

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