
Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

Em um mercado cada vez mais volátil, o sucesso do cacauicultor dependerá menos da cotação e mais da capacidade de administrar a fazenda, produzir com qualidade, diversificar receitas e criar valor.
Durante décadas, o produtor aprendeu a conviver com uma variável que nunca controlou: o preço. Depois do boom de 1977, quando o cacau chegou a US$ 5 mil por tonelada, a expansão da produção levou a um longo período de excesso de oferta. Em 1982, a tonelada rondava US$ 1.200 e, nos períodos mais críticos, chegou à faixa de US$ 900. Nas quatro décadas anteriores a 2023, a referência ficou próxima de US$ 2.500 por tonelada.
Esse mundo relativamente previsível terminou em 2023. Problemas climáticos e produtivos, sobretudo na África Ocidental, provocaram uma escalada que levou o cacau à região dos US$ 13 mil por tonelada. O choque trouxe consequências: chocolate mais caro, redução de embalagens, reformulação de produtos e destruição de parte da demanda.
A indústria também intensificou pesquisas com novas formulações, ingredientes alternativos e tecnologias. O cacauicultor precisa observar esse movimento: no futuro, seu concorrente poderá não ser apenas outro produtor, mas também a tecnologia.
O que está dentro da porteira
O produtor não controla Nova York, Londres, fundos, algoritmos, guerras, moedas, a produção africana nem as decisões das grandes chocolateiras. Controla, entretanto, sua propriedade. É aí que começa sua independência: produtividade, custo e qualidade.
Antes de discutir bolsa, prêmio ou deságio, é necessário responder a uma pergunta elementar: quanto custa produzir uma arroba de cacau? Isso exige conhecer a fazenda numericamente: área produtiva, número de árvores, produtividade, custos e perdas na lavoura, colheita, fermentação e secagem. Gestão começa pela medição.
De commodity a alimento
Existe outra questão decisiva: o produtor quer apenas vender commodity ou produzir alimento? Quem depende exclusivamente da commodity aceita o preço determinado pelo mercado internacional. Quando a cotação sobe, prospera; quando cai, sofre.
Mas cacau é também fruta e alimento. E alimento pode carregar qualidade, origem, história, sabor, território e marca. Com rastreabilidade, boa fermentação, controle de acidez, secagem adequada e identidade territorial, surgem outros mercados: cacau fino, exportação direta, chocolateiros, chocolate bean-to-bar, nibs, licor, polpa, mel de cacau e outros derivados.
Não significa abandonar a commodity nem transformar todo produtor em fabricante de chocolate. Significa criar opções. Quanto maior o número de compradores e fontes de receita, menor a dependência de um único mercado.
A fazenda como negócio
A própria terra também precisa ser enxergada como ativo econômico. Nos sistemas agroflorestais, especialmente na cabruca do Sul da Bahia, outras atividades podem coexistir com o cacau: frutas, produtos florestais, turismo rural, gastronomia e serviços ambientais. A fazenda deixa de ser apenas uma fábrica de amêndoas e passa a funcionar como uma plataforma produtiva.
O Sul da Bahia possui uma vantagem importante. O cacau está associado à Mata Atlântica, à gastronomia, à literatura e à história econômica e cultural da região. Origem também é valor.
A mudança fundamental talvez esteja na pergunta feita pelo produtor. Em vez de perguntar “quem vai comprar meu cacau?”, deveria perguntar “para quem quero produzir?”. O primeiro espera o comprador. O segundo procura o consumidor.
O sucesso do cacauicultor
O maior patrimônio do produtor não é a cotação de Nova York. É sua fazenda: suas árvores, genética, conhecimento, produtividade e qualidade — e sua capacidade de transformar esses ativos em renda. Preço alto ajuda, mas pode esconder uma propriedade ineficiente. Preço baixo simplesmente revela seus problemas.
O futuro não exige abandonar a commodity, fundamental para dar escala e liquidez ao mercado. Exige deixar de ser apenas commodity: produzir mais por hectare, produzir melhor, conhecer custos, diversificar receitas, transformar quando fizer sentido, criar mercados e valorizar a origem.
O cacau não nasce numa tela de negociação. Nasce numa árvore. Antes de ser contrato futuro, cotação, prêmio ou deságio, é fruta e alimento.
O cacauicultor precisa conhecer toda a cadeia — cacau, chocolate e floresta — para encontrar seu posicionamento.
Talvez, portanto, a pergunta fundamental não seja quanto Nova York pagará amanhã pela tonelada de cacau, mas quanto valor o cacauicultor será capaz de criar, dentro e fora da porteira, com aquilo que já possui?






