Marco Lessa
Moro há sete anos em Portugal. Hoje acordei para trabalhar e pedi um Uber. O motorista era brasileiro. Antes de chegar ao escritório para encontrar os demais brasileiros da equipa, fui a um café: garçom brasileiro, caixa brasileiro e a cozinha com pelo menos dois brasileiros.
Durante a manhã recebi um consolidado grupo de investidores brasileiros que estão construindo aqui. Fui almoçar numa típica tasca portuguesa e fui atendido por um simpático brasileiro. Voltei ao trabalho ouvindo, numa rádio portuguesa, um programa com um comentarista brasileiro. Saí mais cedo para uma consulta médica e fui recebido por uma brasileira; o médico, de sotaque português, nasceu no Brasil, veio com 4 anos de idade, hoje vive cá e é casado com uma cearense. Voltei para casa sentindo-me em casa: num Portugal inclusivo, diverso, constituindo-se como um país plural, que tem o seu futuro passando pelo Brasil sem precisar atravessar o Atlântico.
Nada disso é anedota. É estatística – e é história.
Comecemos pelo começo. Durante três séculos, o Brasil foi o que sustentou financeiramente o reino. O pau-brasil, o açúcar, o tabaco, o algodão, os diamantes. E o ouro: as estimativas historiográficas mais consistentes apontam entre 800 e 1.000 toneladas extraídas do solo brasileiro no século XVIII, talvez um quinto de todo o ouro que entrou na Europa naquele período. Foi esse metal que ergueu o Convento de Mafra, que reconstruiu Lisboa depois do terramoto de 1755 e que, pelo Tratado de Methuen, escoou para Inglaterra e ajudou a financiar a Revolução Industrial de outra gente. Quando Napoleão avançou sobre a península, em 1807, foi para o Brasil que a Corte fugiu – e o Rio de Janeiro tornou-se, caso único na história do colonialismo, a capital de um império europeu. Portugal não apenas explorou o Brasil: durante treze anos, Portugal foi governado a partir do Brasil.
Duzentos anos depois, a relação inverteu-se sem deixar de ser essencial. E os números são de fontes que ninguém acusará de propaganda.
Segundo o INE, Portugal fechou 2025 com 11,42 milhões de residentes, dos quais 1,6 milhão de nacionalidade estrangeira – 14% da população. A comunidade brasileira é, de longe, a maior: 574.195 pessoas, 35,9% de todos os estrangeiros, número que mais do que duplicou desde 2021. A estes há que somar as dezenas de milhares que já adquiriram nacionalidade portuguesa – cerca de um quarto de todas as aquisições de cidadania – e os filhos nascidos cá, que as estatísticas de estrangeiros deixaram de contar. Dados do Ministério do Trabalho apontam que os brasileiros representam já perto de 10% dos trabalhadores formais do país.
E onde estão? Em toda a parte. Na agricultura, onde os estrangeiros já passam de metade da mão de obra – 53,3% em 2025, segundo os dados mais recentes da Segurança Social, um peso que quadruplicou numa década. No alojamento e restauração, o setor que mais emprega imigrantes – a Associação da Hotelaria de Portugal estima 50 mil brasileiros num universo de 500 mil trabalhadores do turismo. Na construção civil, nos cuidados a idosos, nos hospitais, nas universidades, nas redações, nos palcos, nos escritórios de advocacia e de arquitetura.
Agora, o que interessa a quem faz contas.
Em 2025, os trabalhadores estrangeiros descontaram 4.149 milhões de euros para a Segurança Social – 14% de tudo o que o sistema arrecadou, contra 3,4% há dez anos. Receberam em prestações 822 milhões. O saldo líquido positivo foi de 3.327 milhões de euros num único ano, segundo o Observatório das Migrações.
O Conselho de Finanças Públicas foi mais longe: os estrangeiros são hoje 19,7% dos contribuintes do sistema, contra 5,1% em 2015, e o saldo acumulado entre 2015 e 2025 chega a 16,3 mil milhões de euros. No ano passado, a Segurança Social portuguesa fechou com o maior excedente da sua história — 6.657 milhões de euros – e o CFP é explícito ao dizer que mais de metade do crescimento de contribuintes se deve a população estrangeira. Um estudo académico calculou o cenário contrário: sem os imigrantes, a receita da Segurança Social cairia 12,4%.
Há ainda o dado demográfico, que é o mais silencioso e o mais decisivo. Segundo o retrato mais recente do Banco de Portugal, a idade mediana do trabalhador imigrante no país é de 33 anos; a do trabalhador português, 42. Portugal registou em 2025 um saldo natural de menos 34 mil pessoas – morre-se muito mais do que se nasce. E, no entanto, os nascimentos subiram 3,7%, para perto de 88 mil, o melhor número da década: 28,8% dos partos foram de mães estrangeiras, com o Brasil no topo da lista. Traduzindo: as creches, as escolas e a folha de descontos de 2045 estão a ser preenchidas, agora, por gente que chegou de avião.
Nem tudo é trabalho por conta de outrem. Em 2025, os brasileiros lideraram as compras de casa por estrangeiros, com 9.808 aquisições – mais 27,5% do que no ano anterior – e já representam quase metade dos créditos à habitação concedidos a estrangeiros: 44%, segundo o Banco de Portugal, contra 35% em 2021. Segundo o Banco Central do Brasil, o património imobiliário brasileiro em Portugal já vale 18,7% de tudo o que os brasileiros detêm em imóveis no exterior, à frente dos 15,7% aplicados nos Estados Unidos, onde a comunidade brasileira é várias vezes maior. Somam-se a isso as empresas, as indústrias, os restaurantes, as marcas e os eventos que aqui se criaram e que dão emprego a portugueses.
Então respondo à pergunta do título. Sem o Brasil, Portugal teria menos 4 mil milhões de euros por ano na Segurança Social, menos um quinto dos seus contribuintes, menos um terço dos seus bebés, campos por colher, hotéis por abrir, hospitais com menos mãos e uma pirâmide etária ainda mais invertida. Teria, sobretudo, menos futuro.
Não escrevo isto em tom de cobrança. Escrevo em tom de pertença. O que a minha rotina de uma terça-feira comum mostra é que já não há duas histórias – há uma só, contada em dois sotaques. Portugal deu ao Brasil a língua; o Brasil devolveu-lhe o mundo. E devolve-lhe, agora, aquilo de que um país envelhecido mais precisa: gente jovem, que trabalha, desconta, consome, investe, tem filhos e fica.
O futuro de Portugal passa pelo Brasil. E, felizmente, já não é preciso atravessar o Atlântico para construí-lo.
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Marco Lessa é empresário brasileiro, CEO do Grupo M21, criador do Chocolat Festival e do Brasil Origem Week, e vive em Portugal.
Texto publicado em www.publico.pt






