
por Paulo Peixinho

A cada eleição acontece um fenômeno curioso: milhões de pessoas entram sozinhas numa cabine para fazer uma escolha que passarão meses explicando aos outros.
Antes disso haverá comícios, entrevistas, pesquisas, discussões em família, vídeos de poucos segundos, discursos de muitas horas, promessas, acusações e aquela categoria humana particularmente abundante em períodos eleitorais: a pessoa absolutamente certa de que compreendeu tudo.
No dia da votação, porém, resta um indivíduo diante de uma máquina.
É um instante solitário.
Talvez mais psicológico do que político.
Porque votar não é apenas escolher alguém. É também revelar, ainda que parcialmente, aquilo que desejamos, aquilo que tememos, o que admiramos, o que rejeitamos e a espécie de autoridade que estamos dispostos a reconhecer.
A urna registra o voto.
Não registra tudo o que foi colocado dentro dele.
É nesse espaço invisível que a Psicologia do Espírito pode oferecer uma pergunta diferente. Em vez de perguntar apenas em quem uma pessoa vota, talvez seja interessante perguntar: que parte de si mesma ela está procurando naquele em quem vota?
A política costuma ser apresentada como disputa entre projetos, interesses e visões de sociedade. É tudo isso. Mas seria ingênuo imaginar que o ser humano deixa sua psicologia na porta do comitê eleitoral.
Levamos conosco medos antigos, ressentimentos, esperanças, necessidades de pertencimento, desejo de proteção, admiração pela força, desconfiança da autoridade e até conflitos que começaram muito antes de ouvirmos falar em esquerda, direita ou centro.
A Psicologia do Espírito, na formulação de Adenáuer Novaes, amplia o indivíduo para além da personalidade circunstancial de uma existência. O ser humano deixa de ser apenas o personagem social que adquiriu um nome, uma profissão e uma história e passa a ser compreendido como uma individualidade em processo de evolução.
Isso muda a pergunta sobre política.
O eleitor não é somente consumidor de propostas.
É também uma consciência em desenvolvimento.
E consciências em desenvolvimento projetam.
Jung chamou atenção para um mecanismo conhecido: enxergamos nos outros conteúdos que nem sempre reconhecemos em nós mesmos.
Na política isso ganha escala industrial.
O candidato pode transformar-se em tela.
Nele projetamos o pai forte que gostaríamos de ter tido, o protetor capaz de colocar ordem no mundo, o rebelde que diz aquilo que não ousamos dizer, o empresário bem-sucedido que representa nossa ambição, o homem simples que confirma nossa identidade ou o salvador que resolverá aquilo que não conseguimos resolver.
Também projetamos a sombra.
O adversário político deixa de ser simplesmente alguém com ideias diferentes e se converte em recipiente de tudo aquilo que julgamos ameaçador.
Ele não está apenas errado.
Passa a ser mau.
E, quando alguém é definido como essencialmente mau, escutá-lo começa a parecer uma concessão moral.
Está aberta a porta para uma das tentações mais antigas da política: dividir o mundo entre os absolutamente bons e os irremediavelmente maus.
É uma organização psicologicamente confortável.
O problema é que raramente corresponde à complexidade humana.
A sombra tem uma característica desagradável: prefere morar no vizinho.
É sempre mais fácil identificar o autoritarismo no outro grupo, a intolerância no adversário, a mentira na campanha alheia, a vaidade no candidato de quem não gostamos.
Nosso lado possui convicções.
O outro possui fanatismo.
Nosso candidato tem firmeza.
O adversário é arrogante.
Quando alguém do nosso grupo muda de posição, amadureceu. Quando alguém do outro faz o mesmo, é oportunista.
A psicologia humana possui enorme criatividade semântica quando precisa proteger uma preferência.
Conhecer a própria sombra politicamente talvez seja começar a perguntar se usamos o mesmo critério para julgar aqueles de quem gostamos e aqueles de quem não gostamos.
É uma pergunta desagradável.
Justamente por isso pode ser útil.
Existe também a persona.
Na Psicologia Analítica, a persona é a face que apresentamos ao mundo. Na política, poucos ambientes produzem personas com tamanha eficiência.
O candidato precisa parecer confiável, próximo, competente, decidido, sensível, simples e, se possível, fotografável comendo pastel.
Poucos seres humanos conseguem reunir todas essas virtudes simultaneamente, mas campanhas eleitorais não foram inventadas para demonstrar os limites da espécie.
Foram inventadas para apresentar personagens.
Isso não significa necessariamente falsidade. Todos nós temos personas. O médico possui uma, o empresário outra, o professor outra. O problema começa quando confundimos personagem com totalidade.
Talvez o eleitor espiritualmente mais consciente não seja aquele que encontrou um candidato sem persona.
Esse candidato provavelmente não existe.
É aquele que consegue olhar além dela.
Há ainda outro personagem frequente nas eleições: o salvador.
Ele atravessa culturas, épocas e regimes.
Surge quando uma sociedade deposita numa pessoa expectativas que dificilmente poderiam ser satisfeitas por qualquer ser humano.
O salvador resolverá a economia, corrigirá a moral, derrotará os inimigos, pacificará a sociedade, reorganizará o Estado e, se ainda houver tempo antes do jantar, restaurará a esperança nacional.
Há algo infantil nessa expectativa.
A criança imagina que os adultos podem resolver tudo.
O adulto descobre, com alguma decepção, que os adultos são apenas pessoas que chegaram antes.
A Psicologia do Espírito talvez introduza aqui uma ideia de maturidade: ninguém deveria transferir integralmente a responsabilidade pela própria vida ou pela comunidade a outro indivíduo.
O governante tem responsabilidades reais.
O cidadão também.
Democracia não é a contratação periódica de alguém para cuidar da sociedade enquanto voltamos aos nossos assuntos particulares.
É responsabilidade compartilhada.
A relação com o poder talvez seja um dos grandes testes psicológicos do ser humano.
É relativamente fácil defender humildade quando ninguém obedece às nossas ordens.
O poder cria condições experimentais interessantes.
De repente pessoas esperam.
Portas se abrem.
Telefonemas são atendidos.
Piadas ficam mais engraçadas.
Opiniões se tornam mais inteligentes.
Alguns amigos antigos descobrem inesperadamente que sempre fomos extraordinários.
O poder não necessariamente transforma uma pessoa em outra.
Às vezes apenas aumenta o volume daquilo que já estava presente.
Por isso a Psicologia do Espírito permite olhar para o poder não apenas como conquista, mas como prova.
O problema deixa de ser simplesmente chegar.
Passa a ser saber o que acontece interiormente depois da chegada.
Há um princípio evangélico que, aplicado à política, dispensa boa parte da propaganda: pelos frutos os conhecereis.
Não pelo discurso.
Não pelo slogan.
Não pela fotografia.
Pelos frutos.
A ideia possui uma simplicidade quase ofensiva.
Significa observar aquilo que alguém produz quando recebe responsabilidade.
Mas o mesmo princípio serve ao eleitor.
Quais frutos nossa participação política produz em nós?
Depois de meses acompanhando política, tornamo-nos mais lúcidos ou mais agressivos?
Mais atentos aos fatos ou mais interessados em confirmar aquilo em que já acreditávamos?
Aprendemos a discordar ou apenas aumentamos a coleção de pessoas que desprezamos?
Se uma convicção política nos torna incapazes de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente, talvez haja algo dentro de nós que mereça atenção antes da próxima discussão.
A política oferece uma tentação particularmente sedutora: transformar identidade em opinião.
Eu não apenas defendo uma ideia.
Eu sou aquela ideia.
A partir daí, qualquer crítica à posição política é experimentada como agressão pessoal.
Mudar de opinião passa a significar trair a si mesmo.
E admitir que o adversário acertou alguma coisa se torna quase uma experiência de dissolução do ego.
O Espírito, porém, não pode ser reduzido a partido, candidato ou ideologia.
Tudo isso pertence às circunstâncias históricas de uma existência.
Um homem pode atravessar décadas mudando de opinião sem deixar de ser ele mesmo.
Talvez amadurecer politicamente seja justamente adquirir liberdade suficiente para dizer: Eu pensava assim. Hoje penso diferente.
Há coragem nessa frase.
Muito mais, às vezes, do que na certeza.
Também existe uma forma política de reencarnação, embora não seja necessário tomá-la literalmente para compreender a metáfora.
Os problemas voltam.
Mudam os candidatos, mudam as siglas, mudam os slogans e algumas discussões reaparecem com roupas novas.
A sociedade também parece ter suas repetições.
Talvez grupos, como indivíduos, precisem encontrar várias vezes determinados conflitos até aprender alguma coisa com eles.
A perspectiva espírita acrescenta algo ainda mais amplo: se somos espíritos em diferentes estágios de desenvolvimento, a sociedade inevitavelmente reunirá pessoas com graus distintos de consciência moral, intelectual e afetiva.
A democracia não elimina essa diferença.
Cria um método de convivência entre ela.
Isso talvez explique por que tolerância é muito mais difícil do que parece.
Tolerar não é concordar.
É reconhecer que alguém continua possuindo dignidade mesmo quando está profundamente equivocado aos nossos olhos.
Existe, por fim, o voto.
Depois de todas as propagandas, pesquisas, debates e discussões, sobra um cidadão diante de sua consciência.
A Psicologia do Espírito não forneceria uma lista de candidatos.
Talvez oferecesse perguntas.
Estou escolhendo por medo?
Por raiva?
Por gratidão?
Por interesse?
Por identificação?
Por ressentimento?
Porque todos à minha volta pensam assim?
Porque tenho informações suficientes?
Estou escolhendo uma pessoa real ou a personagem que construí em minha cabeça?
Consigo reconhecer defeitos em quem apoio?
Consigo reconhecer qualidades em quem rejeito?
Talvez nenhuma escolha humana seja completamente livre de afetos, interesses ou projeções.
Consciência não significa ausência dessas forças.
Significa perceber que elas existem.
Votar é um ato político.
Pode ser também um exercício de autoconhecimento.
A cabine eleitoral possui uma característica interessante: ninguém entra conosco.
Podemos levar a opinião da família, as pesquisas, os vídeos recebidos durante a madrugada, a lembrança de uma conversa, os medos, os interesses, as simpatias e as antipatias.
Mas, no instante final, há apenas uma pessoa diante da escolha.
Talvez seja esse um dos raros momentos em que a democracia e a psicologia se encontram de maneira quase literal.
O cidadão escolhe alguém para exercer poder.
E, sem perceber, revela alguma coisa sobre o poder que existe dentro dele.
A urna contará os votos.
A história julgará os governos.
Mas há uma pergunta que nenhuma apuração consegue responder: quem estamos nos tornando enquanto escolhemos aqueles que irão nos representar?
Talvez essa seja a eleição mais longa de todas.
Não acontece a cada quatro anos.
Acontece todos os dias.






