WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia
DestaquesGeral

O cavaleiro sumiu e a esperança caiu do cavalo

Daniel Thame

Screenshot

Ele desembarcou no aeroporto de Ilhéus numa radiante manhã. O sol forte e o céu sem nuvens em nada refletiam o estado de espírito de uma região mergulhada nas trevas, vivendo o auge da crise provocada pela vassoura-de-bruxa. E foi logo anunciando sua intenção de investir no Sul da Bahia, no que um fazendeiro falido comentou com um comerciante igualmente falido:

-Esse aí só pode ser doido ou ter vindo de outro planeta pra não saber da situação em que isso aqui se encontra, disse o fazendeiro.

-É mais um golpista, que vai tomar o que resta de dinheiro de alguns otários que se deixam enganar pelo primeiro esperto que chega aqui falando bonito, respondeu o comerciante.

O fato é que, doido ou extraterrestre (golpista não devia ser, porque não se associou nem pediu dinheiro a ninguém), três anos e alguns milhões de reais depois, o homem já havia  construído um complexo hoteleiro em Ilhéus, um hospital em Itabuna, implantado faculdades nas duas cidades e financiado a instalação de cooperativas de pequenos produtores de doces, licores e chocolates artesanais em dezenas de municípios.

Os empregos diretos e indiretos gerados por suas iniciativas passavam dos cinco mil. Cálculos exagerados falavam em 10 mil empregos.

 

Além disso, contribuía para a manutenção de creches, escolas e patrocinava os dois times profissionais de Itabuna e Ilhéus, rivais na tradição e iguais na rudeza com que tratavam a bola. E abastecia, com generosos anúncios, os veículos de comunicação, então vivendo uma fase de penúria e transformados em veículos semioficiais, quando não oficiais, das prefeituras.

Da desconfiança inicial, passou-se à admiração pela forma com que os projetos viravam realidade em tão pouco tempo e, num processo natural, para a mais deslavada bajulação. Clubes de serviço o incluíram como sócio, entidades de classe o indicaram para diretor e mesmo para a presidência, formandos, de olho na gorda contribuição, lhe proporcionaram incontáveis homenagens como patrono de suas turmas.

As Câmaras Municipais de Itabuna e Ilhéus protagonizaram uma cena de pastelão, ao disputar quem primeiro lhe concederia o título de Cidadão.  A disputa estava descambando para uma inacreditável guerra verbal quando ele, salomonicamente, sugeriu que as homenagens fossem concedidas numa única data. E assim foi feito, com a dupla cidadania entregue na Uesc, na presença de prefeitos, deputados, vereadores, lideranças de todos os tipos e bajuladores em geral. Até o governador mandou um secretário de primeira linha para representá-lo.

Um vereador ilheense, dado aos gracejos, lembrou a um colega itabunense, tido como sisudo, que a Uesc fica em Ilhéus. Ouviu um retumbante “vá tomar no cu”, que em nada condizia com a solenidade do momento.

Dirigentes partidários faziam fila para que ele se filiasse e disputasse um cargo público. “É de um prefeito desses que Ilhéus precisa para voltar a ser a grande cidade de antigamente, a Princesinha do Sul”, dizia o presidente de um partido que fora de centro, flertara com a direita e agora era com quem estava no poder. “Com ele na prefeitura, Itabuna voltará a ser a Capital do  Cacau, se transformará numa metrópole”, bradava o igualmente fisiológico colega partidário.

A todas essas investidas, ele respondia com a fleuma de um inglês:

-Não me envolvo com política. Sou um empreendedor e é assim que contribuo para o desenvolvimento dessa região que aprendi a amar como se fosse a minha terra.

A frase, tantas vezes repetida e reverberada, provocava suspiros de admiração, que beiravam o endeusamento.

Era uma meia verdade. Embora não aceitasse disputar cargos públicos, era generoso em financiar candidatos de todas as ideologias, em doações em que não pedia recibo e – inacreditável – não solicitava favores dos eventualmente eleitos.

E, se essa    agora era a sua terra, qual seria a sua terra original? E de onde vinha tanto dinheiro? Eram coisas que ninguém se deu ao trabalho, ou se atreveu a perguntar, talvez pelo hábito de que essa foi uma região construída por forasteiros e edificada sobre princípios não necessariamente cristãos.

Que o digam os coronéis do cacau, com seus jagunços e seus métodos nada ortodoxos de conquistar terras cultivadas com o suor e, não raro, o sangue dos outros.

O fato é que, em meio a esse idílio, ninguém se deu conta quando viaturas e helicópteros de Polícia Federal sobrevoaram uma fazenda na rodovia Ilhéus-Itabuna e pousaram suas atenções na luxuosa e, soube-se depois, espetacularmente bem protegida casa-sede.

Quando se deram conta, pelas tevês, rádios e jornais locais (que só faltaram lamentar ter que dar a notícia), se viu que o Grande Benfeitor, o Benemérito, o Cidadão Honorário, o Amigo das Crianças Carentes, o Patrono dos Times Pernas de Pau, o Protetor das Velhinhas Desamparadas, o Empreendedor do Século, entre outros títulos igualmente bajulatórios, era um agente da Máfia russa e do Narcotráfico colombiano, lavando no Sul da Bahia o dinheiro arrecadado com a venda de armas, drogas e outros negócios do gênero.

Um homem procurado pela polícia de vários países que, a bordo de uma certidão de identidade falsa e de uma  pequena cirurgia plástica, no Sul da Bahia se estabeleceu e foi guindado à condição de semideus.

Em pouco tempo, o complexo hoteleiro e o hospital estavam abandonados, as cooperativas, fechadas, as faculdades, com o registro de funcionamento cassado e as entidades beneficentes passando o pires diante de doadores mais modestos. Os empregados voltaram à condição de desempregados.

Não se sabe se os inúmeros títulos, incluindo as célebres cidadanias ilheense e itabunense, foram cancelados.

Em um pouco mais de tempo, aquele homem mítico seria incluído na condição de lenda, feito um lobisomem, um saci-pererê ou uma mula sem cabeça. Alguns empresários e políticos, de memória mais seletiva, chegaram a duvidar se ele havia realmente existido.

Nas terras das histórias e estórias sem fim, o Cavaleiro da Esperança se revelara a Besta do Apocalipse.

–

Conto extraido do livro ´Jorge100anosAmado-Tributo a um Eterno Menino Grapiuna`. Editora Via Litterarum

 

 

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Botão Voltar ao topo