A Pedagogia da presença na gestão empresarial
Da barriga de balcão à administração das fazendas de cacau

Paulo Peixinho, produtor de cacau.
“Para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve.” — Paráfrase inspirada em Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas (1865).
Inspirado ao ouvir a expressão “barriga de

balcão”, utilizada pelo amigo Roberto Lessa nas redes sociais, na Villa Opa.
A sabedoria do balcão
Nas antigas vilas do Sul da Bahia, a mercearia era mais que um lugar de compra e venda. Era espaço de convivência, confiança e aprendizagem. O proprietário conhecia os fregueses, acompanhava o movimento das mercadorias, negociava com fornecedores e observava diariamente a circulação do dinheiro. Era o personagem que podemos chamar de “barriga de balcão”. Sua característica essencial não era a barriga, mas a presença. O balcão funcionava como uma escola de administração.
A presença como aprendizagem
A pedagogia da presença, associada ao educador Antônio Carlos Gomes da Costa, valoriza a convivência, a escuta e o exemplo na formação humana. Por analogia, seus princípios ajudam a compreender a gestão empresarial: o administrador presente observa, escuta, participa, aprende e decide. A presença cotidiana permite reconhecer sinais que nem sempre aparecem imediatamente nos relatórios. Entretanto, estar fisicamente no estabelecimento não basta. A presença só se torna pedagógica quando a observação gera reflexão e a reflexão orienta decisões.
O conhecimento que não está nos livros
O comerciante experiente percebe alterações nos hábitos dos clientes, identifica riscos e constrói relações de confiança. Desenvolve um conhecimento prático, muitas vezes difícil de traduzir em regras. Essa percepção aproxima-se do conceito de conhecimento tácito estudado por Michael Polanyi. Mas experiência não é sinônimo de sabedoria: repetir a mesma rotina durante décadas pode significar apenas acumular tempo. O aprendizado surge quando se examinam erros, se corrigem práticas e se reconhecem novas possibilidades.
Da mercearia à fazenda de cacau
Na cacauicultura, a mesma lógica se aplica. O produtor que percorre a propriedade, conversa com os trabalhadores, acompanha a colheita, observa a sanidade das plantas e conhece seus custos forma uma visão concreta do empreendimento. Pode antecipar desperdícios, problemas fitossanitários e falhas de organização. Essa proximidade, contudo, precisa dialogar com indicadores, planejamento e controle financeiro. A presença não substitui a técnica; dá contexto aos números e ajuda a interpretá-los.
Presença não é controle absoluto
Delegar tarefas é indispensável para o crescimento de qualquer empresa. O risco aparece quando o proprietário confunde delegação com desconhecimento. Também há perigo no extremo oposto: a fiscalização permanente, que impede a autonomia da equipe. Uma gestão madura combina presença, confiança, responsabilidade e critérios objetivos de avaliação. O administrador deve conhecer o negócio sem precisar executar pessoalmente cada atividade.
O patrimônio invisível
A presença também participa da sucessão. Nas antigas mercearias, filhos aprendiam o ofício observando os pais; nas fazendas, o conhecimento do manejo e das pessoas podia passar de geração em geração. Mas herdar bens não significa herdar competências. O patrimônio material pode ser transmitido por documentos; o patrimônio intelectual exige convivência, prática e reflexão. A barriga de balcão simboliza essa riqueza invisível: a capacidade de conhecer profundamente aquilo pelo qual se é responsável.
Administrar não é apenas possuir, mandar ou controlar. É transformar presença em conhecimento, conhecimento em decisões e decisões em patrimônio duradouro.
Nota: a aplicação da pedagogia da presença à gestão empresarial é uma interpretação analógica, não a formulação educacional original de Gomes da Costa.






