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O que a economia do cacau pode esperar depois das eleições?

Perspectivas para o Sul da Bahia | 2027–2030

Paulo Peixinho 

 

“Cave o poço antes de sentir sede.”

— Provérbio chinês

O cenário pós-eleitoral

Paulo Peixinho

A eleição poderá alterar as políticas de crédito, tributação, comércio exterior, pesquisa e investimento público. Mas o preço internacional do cacau continuará dependente principalmente da oferta e demanda mundiais, do clima e dos estoques. O desafio do Sul da Bahia é converter produção em renda sustentável, independentemente do vencedor.

Para 2027, as expectativas econômicas consultadas em outubro de 2026 apontavam PIB de 1,32%, inflação de 4,32%, Selic de 12% ao ano e dólar de R$ 5,22. São projeções, não resultados garantidos. Juros altos e restrições fiscais podem limitar a renovação das lavouras e a assistência técnica.

Mercado: oferta, indústria e risco de preços

A moagem brasileira de janeiro a setembro de 2026 foi estimada em 155.169 toneladas: alta de 7,7% ante 2025, mas 18,5% abaixo de 2023. A recuperação da oferta sem igual avanço da demanda industrial pode pressionar margens e diferenciais comerciais. Uma estimativa privada apontou possível superávit mundial de 111 mil toneladas em 2026/27, sujeito a revisão.

ExpoCacau estimula a cadeia produtiva do fruto em Ilhéus até quinta-feira, 27. Crédito: Ascom BNB Bahia.

Quanto receberia o produtor?

Simulação com câmbio de R$ 5,22/US$, deságio comercial fixo de US$ 1.200/t e arroba de 15 kg. Fórmula: (cotação em US$/t − 1.200) × 5,22 × 0,015.

Cacau internacional Deságio Produtor (R$/@)
US$ 2.000/t US$ 1.200/t R$ 62,64
US$ 3.000/t US$ 1.200/t R$ 140,94
US$ 4.000/t US$ 1.200/t R$ 219,24
US$ 5.000/t US$ 1.200/t R$ 297,54
US$ 6.000/t US$ 1.200/t R$ 375,84

 

Se a cotação recuar de US$ 6.000 para US$ 3.000/t, o preço simulado ao produtor cai 62,5%. Com cacau a US$ 2.000/t, o deságio equivale a 60% da cotação: seu peso relativo aumenta muito nos cenários de baixa.

Produtividade e receita bruta por hectare

A receita depende tanto do preço quanto da produtividade. A tabela abaixo destaca três cenários de cotação internacional, sempre com o mesmo deságio e câmbio.

Produtividade US$ 3.000/t US$ 4.000/t US$ 6.000/t
20 @/ha R$ 2.818,80 R$ 4.384,80 R$ 7.516,80
40 @/ha R$ 5.637,60 R$ 8.769,60 R$ 15.033,60
60 @/ha R$ 8.456,40 R$ 13.154,40 R$ 22.550,40
80 @/ha R$ 11.275,20 R$ 17.539,20 R$ 30.067,20

 

Os valores são receitas brutas, não lucros: não incluem custos de produção, tributos, frete, despesas financeiras ou outros descontos. A viabilidade econômica exige comparar cada receita com o custo efetivo por hectare.

O que o Sul da Bahia deve priorizar

A agenda regional para 2027–2040 deve concentrar-se em: (1) produtividade e renovação de lavouras; (2) crédito de longo prazo; (3) pesquisa e assistência técnica, inclusive pela CEPLAC; (4) transparência dos diferenciais comerciais; (5) cooperativas e maior poder de negociação; e (6) agregação de valor com cacau de qualidade, rastreabilidade e industrialização regional.

Conclusão

A política econômica do próximo governo poderá aliviar ou agravar os desafios do setor, mas não eliminará a exposição ao ciclo internacional. Com preços entre US$ 2.000 e US$ 3.000/t, a simulação aponta remuneração de apenas R$ 62,64 a R$ 140,94/@. A questão central é quantas propriedades resistiriam a esse nível de receita sem consumir seu patrimônio.

O futuro do cacau baiano dependerá menos de esperar novos ciclos de alta e mais de construir produtividade, organização comercial e capacidade de investimento para atravessar os ciclos de baixa.

Enquanto terminava este texto, tomei conhecimento da lista de participantes do concurso de cacau de qualidade previsto para 5 de dezembro de 2026. Vejo nessa iniciativa um caminho que cada produtor pode seguir: cavar seu próprio poço e buscar água abundante, investindo em qualidade, produtividade e organização. Esperar apenas pelas eleições e pelas ações do governo poderá agravar a sede de soluções. Se vierem políticas públicas efetivas para o setor, serão muito bem-vindas — mas não devemos depender delas para começar.

Nota: análise prospectiva de 23/10/2026. Projeções e hipóteses não representam preços garantidos. Fontes de referência: Boletim Focus/Banco Central, AIPC e estimativas de mercado da Hedgepoint.

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