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O Chocolate sem cacauicultores

O preço de uma revolução tecnológica

Por Paulo Peixinho, cacauicultor

Paulo Peixinho

Durante séculos, produzir chocolate exigiu uma condição indispensável: cultivar cacau. Agora, a biotecnologia começa a questionar essa dependência. Grandes empresas investem no desenvolvimento de cacau cultivado em laboratório, utilizando células vegetais multiplicadas em ambientes controlados.

A inovação promete reduzir os riscos climáticos, a pressão sobre as florestas e a dependência da produção agrícola. Mas existe uma contradição: o que é conveniente para a indústria nem sempre é conveniente para quem produz sua matéria-prima.

A Fairtrade, organização internacional dedicada ao comércio justo, alerta que mais de cinco milhões de cacauicultores sustentam a produção mundial, recebendo, em média, apenas 6% do valor final de uma barra de chocolate.

Depois de décadas discutindo como melhorar a renda dos produtores, surge uma tecnologia que poderá simplesmente dispensar parte deles.

É uma maneira curiosa de enfrentar a pobreza rural: eliminar a necessidade econômica de quem vive da agricultura.

Naturalmente, a tecnologia ainda precisa demonstrar sua viabilidade comercial. Custos, consumo energético, escala industrial, qualidade sensorial e aceitação dos consumidores continuam sendo desafios importantes.

Entretanto, a história econômica demonstra que nenhuma atividade está imune às transformações tecnológicas.

Caso alcance competitividade, o cacau cultivado em laboratório poderá reduzir a demanda por amêndoas agrícolas, modificar a formação dos preços e enfraquecer o poder de negociação dos produtores.

O problema não será apenas produzir cacau. Será encontrar quem esteja disposto a comprá-lo por um preço economicamente sustentável.

O Brasil, especialmente o Sul da Bahia, deveria acompanhar essa transformação com atenção. Depois da crise provocada pela vassoura-de-bruxa, ainda enfrentamos dificuldades relacionadas à produtividade, aos custos, ao financiamento e à comercialização.

Enquanto isso, a indústria investe em tecnologias capazes de reduzir sua dependência das lavouras.

A resposta dos cacauicultores não pode se limitar à defesa da tradição ou à expectativa de políticas públicas. Precisamos investir em produtividade, pesquisa, qualidade, rastreabilidade, organização cooperativa e acesso direto aos mercados.

O cacau produzido em sistemas agroflorestais, como a cabruca, possui características ambientais e de origem que podem representar vantagens competitivas. Mas sustentabilidade e qualidade somente agregam valor econômico quando encontram compradores dispostos a remunerá-las.

Também não se pode afirmar antecipadamente que o cacau cultivado em laboratório será ambientalmente superior. Essa comparação exige avaliar energia, água, emissões, biodiversidade e impactos sociais.

A Fairtrade defende que a inovação não deve justificar o abandono dos compromissos com os agricultores. A preocupação é legítima, mas os produtores não podem depender exclusivamente da responsabilidade social das grandes indústrias.

O futuro provavelmente será marcado pela coexistência do cacau agrícola com novas tecnologias. A questão decisiva será como o valor econômico será distribuído entre os participantes dessa cadeia.

Não sabemos quando, nem em que proporção, o chocolate cultivado em laboratório poderá competir com o cacau tradicional.

Mas esperar passivamente não constitui uma estratégia.

A pergunta não é apenas se a indústria conseguirá produzir chocolate sem os cacauicultores. É se os cacauicultores conseguirão construir uma atividade economicamente viável em um mundo no qual a indústria poderá precisar cada vez menos deles.

E essa resposta não será encontrada nos laboratórios.

Terá de ser construída nas fazendas, nas cooperativas, na pesquisa, na gestão e nos mercados.

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