
Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

Passada a euforia dos preços elevados do cacau, cresceu entre os produtores um sentimento de indignação diante da queda abrupta das cotações e do deságio em relação à Bolsa de Nova Iorque.
Um dos problemas é que o Brasil ainda não possui estatísticas públicas, transparentes e atualizadas sobre a cacauicultura. Enquanto outros países produtores divulgam semanalmente dados de recebimentos, estoques e exportações, o produtor brasileiro muitas vezes negocia praticamente no escuro.
Esse talvez seja o maior conflito invisível da cadeia do cacau: a assimetria de informação.
Assimetria de informação
A comunidade internacional do cacau — ICCO, consultorias, tradings, indústrias e fundos — trabalha diariamente com monitoramento climático, moagem, estoques certificados, exportações e recebimentos de cacau.
No Brasil, porém, ainda existem divergências entre números do IBGE, dados privados e a percepção prática dos produtores. Sem números confiáveis não existe política pública eficiente, transparência na formação de preços ou equilíbrio de mercado.
O que a Bahia poderia fazer
A Bahia possui condições de criar um sistema simples de acompanhamento da safra por meio das notas fiscais de entrada, com divulgação semanal ou mensal dos recebimentos de cacau. O próprio Estado do Pará já possui mecanismos semelhantes para monitoramento agrícola.
Mais do que uma ferramenta estatística, dados transparentes representam equilíbrio de mercado, redução de ruídos e fortalecimento da capacidade de negociação dos produtores.
Exemplos internacionais
Os exemplos internacionais mostram a importância dos dados públicos. Na Costa do Marfim, erros estatísticos nos recebimentos foram rapidamente identificados porque existiam números sendo acompanhados continuamente. O problema não é errar; o mais perigoso é simplesmente não possuir números.
Figura 1 — Recebimentos acumulados e semanais de cacau na Costa do Marfim.
Ao mesmo tempo, o mercado global monitora permanentemente clima, chuvas, umidade, doenças, exportações e estoques. O Equador, por exemplo, segue ampliando rapidamente sua participação na oferta mundial de cacau.
Figura 2 — Exportações mensais e acumuladas de cacau do Equador.
Inconsistências econômicas
Recentemente, ouvi a afirmação de que o Brasil possuiria praticamente uma safra inteira em estoque. Economicamente, isso parece improvável.
Uma safra de 200 mil toneladas a US$ 4.000 por tonelada representaria cerca de US$ 800 milhões imobilizados, com custo financeiro próximo de US$ 96 milhões ao ano.
Toda inconsistência estatística gera diagnósticos errados, discursos equivocados e políticas públicas distorcidas.
Conclusão
A cadeia do cacau precisa voltar a dialogar com números reais. Caso contrário, não teremos um debate produtivo. Teremos apenas um diálogo de surdos.






