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Pesquisa-ação fala da gastronomia regenerativa no cuidado da saúde, do ambiente e da comunidade

 

Heleno Nazário

A culinária local é um tradicional atrativo turístico. Afinal, na memória daquela viagem tão planejada, há espaço para registrar sabores e temperos daquele local. Mas será que aquele prato típico está mesmo seguindo a receita original? O ambiente, a cultura e a economia da localidade são respeitados na oferta gastronômica às pessoas visitantes? A resposta a essas perguntas pode estar em um cardápio pensado para unir qualidade culinária e atenção com o ambiente, a economia e as pessoas do território.

Esses foram alguns dos questionamentos que podem encontrar sua solução na pesquisa da acadêmica Thaís Livramento dos Santos. Ela pesquisou o tema da Gastronomia Regenerativa na conclusão do Bacharelado Interdisciplinar em Ciências do Centro de Formação em Ciências Ambientais (CFCAM) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). O trabalho de conclusão de curso intitulado Gastronomia Regenerativa: Ciência do Sensível e Banquete Interdisciplinar como Elo entre Território, Saberes, Sabores e Afetos foi orientado pela professora Tatiana Pinheiro Dadalto (CFCAm/UFSB). A defesa aconteceu no Campus Sosígenes Costa em março de 2026, diante da banca examinadora composta pela orientadora, o professor Álamo Pimentel Gonçalves da Silva (IHAC-SC/UFSB) e a professora Patrícia Aurelia Del Nero (CFCHS/UFSB).

Experiência, sensibilidade, ciência

Thaís é culinarista com experiência internacional. Ela trabalha sazonalmente na região do Cilento, na Itália, e no restaurante Cozinha Afetiva Locanda Ariramba, em Santa Cruz Cabrália, no Brasil. Dessa vivência profissional vieram as inquietações com a gastronomia e os efeitos do turismo no território. A autora do estudo conta que o interesse no assunto veio da ligação profunda entre o saber e o sentir. O período de estudos na UFSB e as experiências profissionais a levaram a desenhar uma proposta de culinária que ajuda a regenerar o território:

“Como culinarista, vi-me diante do desafio prático de nutrir o empreendimento da minha família, mas meu coração ainda ecoava as lições da UFSB. Eu carregava comigo um amor imenso pelo curso Bacharelado Interdisciplinar em Ciências do Centro de Formação em Ciências Ambientais (BIC/CFCAm) e uma promessa silenciosa de não permitir que as urgências da vida silenciassem o que a universidade me doou. O despertar veio quando compreendi que a gastronomia poderia ser o altar onde esses dois mundos se encontrariam. Minha jornada permitiu que eu navegasse entre o rigor e a tradição do Cilento, berço da Dieta Mediterrânea, e a força ancestral e biodiversa da minha Santa Cruz Cabrália. Percebi que não precisava escolher entre um e outro, mas sim permitir que confluíssem. Este trabalho nasceu, portanto, da missão de transformar o ato de cozinhar em uma ferramenta de cura territorial. O que era uma demanda cotidiana transbordou em um propósito maior: o de ressignificar a atividade culinária sob a ótica do pensamento regenerativo, honrando os saberes que cruzaram o oceano para florescer no solo do território que pulsa em mim.

Por isso, o seu TCC seguiu a metodologia de pesquisa-ação. Essa é uma forma de pesquisar vinda das Ciências Sociais, na qual quem pesquisa e quem participa colaboram para resolver problemas coletivos. A investigação feita por Thaís e orientada por Tatiana segue uma linha sensorial e biográfica e tem proposta para intervir no problema estudado. Como resultados, constam os relatos da ida de Thaís a campo, as análises territoriais, experiências gastronômicas e reflexões sobre território, identidade e alimentação.

O diferencial da pesquisa de Thaís está em unir a Gastronomia Regenerativa e as Ciências Ambientais e se mostra em quatro escolhas. A primeira está em estudar Santa Cruz Cabrália como território para implantação da Gastronomia Regenerativa, ao articular dados da ecologia, conhecimentos tradicionais e práticas da culinária local. A escolha dos métodos para essa pesquisa une métodos científicos e saberes ancestrais de modo complementar, seguindo a proposta do BI em Ciências. A pesquisadora também se colocou como instrumento da pesquisa, ao reunir o saber técnico de culinarista, a vivência em Cabrália e a identidade cultural para produzir conhecimento. No final do estudo, Thaís propôs estratégias para mudar a situação, como o Menu “Presente do Sol”, a Aliança da Soberania Alimentar e o Protocolo de Restituição. Essas ideias formam um plano de ação aplicável por produtores locais, restaurantes, a gestão pública e as comunidades do município.

 

Um problema visto a partir da mesa, da cozinha e da feira

distrito de santo andré

O cenário de múltiplas crises (climática, cultural, alimentar, social) que reforçam umas às outras está na base dessa pesquisa. O jeito como os seres humanos consomem afetou o ambiente a um ponto em que não adianta apenas conservar o que resta: é preciso reconstruir, refazer. O estudo realizado por Thaís parte do entendimento de que a sustentabilidade não pode só reduzir danos, tem de regenerar ambientes e comunidades. E essa é a ideia da chamada Gastronomia Regenerativa: uma prática em torno da culinária que focaliza o compartilhamento e o fortalecimento do território e de seus habitantes.

 

O estudo foi feito no município sul-baiano de Santa Cruz Cabrália, de alta importância histórica e biológica. É um dos casos de riqueza mal-aproveitada: a cidade é servida pelos rios João de Tiba, Yaya, Pedras e Camurugi, com muita presença de Mata Atlântica, mangues, restingas, recifes de corais e ecossistemas estuarinos (zonas de encontro entre rios e o mar). Tem uma economia popular movida por pescadores artesanais, marisqueiras, agricultores familiares e comunidades de povos originários. Mas sofre com a dependência de insumos de fora para a culinária, o avanço da especulação imobiliária sobre o ambiente e o fato de seus principais ativos não serem reconhecidos e vistos.

Para Thaís, aqueles três fatores são sintomas do colonialismo alimentar: o processo de troca ou dominação de sistemas alimentares locais por lógicas externas de produção e consumo.  Isso tende a apagar saberes e práticas ancestrais e mais sustentáveis. Na sua vivência familiar e nos estudos que realizou na UFSB, a pesquisadora via uma lógica diferente como base possível:

museu da dieta mediterrânea

“Meu contato com a Gastronomia Regenerativa começou muito antes de qualquer viagem ou título; a semente foi plantada na minha infância pelo meu pai. Foi com ele que aprendi a olhar para o mundo com os olhos da ciência e a sensibilidade de quem sente antes de explicar. Ele me ensinou que não apenas habitamos o mundo, mas somos parte intrínseca dele. A vivência sazonal no Cilento, na Itália, foi o momento em que essa semente germinou sob uma nova luz. Ao mergulhar no epicentro da Dieta Mediterrânea, não descobri algo novo, mas reconheci tudo aquilo que meu pai já havia me ensinado a ver. Lá, vi o respeito à sazonalidade e as técnicas de preservação sendo vividos como ritos de amor e sobrevivência. Como uma mulher curiosa e amante da natureza, percebi que o afeto que eles dedicavam a um buquê de aspargos selvagens ou a uma flor de abóbora era o mesmo sentipensar que eu trazia na minha bagagem.”

A comparação que a pesquisadora faz é com a experiência que viveu no Cilento, sub-região do Parque Nacional do Cilento e Vallo di Diano (Itália). Esse território é reconhecido como Reserva da Biosfera pela UNESCO e é considerado o berço da Dieta Mediterrânea. Thaís não se refere ao Cilento como modelo a ser importado, e sim como experiência inspiradora da visão do potencial ainda maior de Cabrália.

cilento entrega do mar

“O Cilento me mostrou que era possível colocar a natureza como parte de nós, e não fora. Isso me deu a certeza de que meu território, Santa Cruz Cabrália, possui uma potência ainda mais profunda que precisava ser revelada. Ao caminhar por Santa Cruz Cabrália, aprendi a ‘ciência do sensível’ com os pescadores, as marisqueiras e os povos tradicionais. Foi na sabedoria das marés e no tempo da roça que entendi que o alimento é um elo sagrado. O Cilento, na Itália, foi o lugar do reconhecimento: lá, encontrei pessoas que, assim como no meu território, guardam a sabedoria da terra em palavras afetuosas, sorrisos generosos e respeito profundo pelo que o dia entrega. A entrada na UFSB trouxe o rigor técnico para organizar esse sentir. Conceitos como Design para a SustentabilidadeBem ViverBiointeração e Contracolonização foram as ferramentas que me permitiram traduzir essa experiência em uma prática situada. A universidade me deu o mapa e o Cilento me deu a lente, mas foram os saberes ancestrais e populares desses dois mundos que me ensinaram a cozinhar com a alma, entendendo a alimentação como um sistema vivo e interconectado”.

Para argumentar sobre esse potencial e sua proposta para desenvolvê-lo, a pesquisadora articulou aquelas e outras noções teóricas que se ligam ao tema de recuperação. Um deles é o Pensamento Regenerativo de Daniel Christian Wahl (2017), que propõe criar condições para que a vida prospere em vez de apenas mitigar danos. Thaís também combinou a visão sistêmica de Fritjof Capra (2003) e o conceito de autopoiese (capacidade que os sistemas vivos possuem de se autoproduzir e autorregular continuamente) de Maturana e Varela (1980). O trabalho leva em conta ainda os limites planetários de Rockström et al. (2009), atualizados em 2023. Conforme essa atualização, seis dos nove limites já foram ultrapassados, e o sistema alimentar global é o maior fator isolado que causa a degradação ambiental.

Thaís foi analisar o potencial de Santa Cruz Cabrália para implementar a Gastronomia Regenerativa como prática produtiva. Em termos gerais, isso significou pesquisar como a prática da biointeração e a sensibilização do olhar sobre o alimento mudam o ato de comer. A ideia é que a comensalidade, isso é, partilhar o mesmo espaço e os mesmos alimentos, pode ajudar a regenerar o ambiente, a comunidade e a pessoa, num ato de cura holística, isto é, em vários âmbitos.

 

Como a pesquisa foi feita

Para organizar, analisar e propor, Thaís e sua orientadora Tatiana dividiram as atividades em quatro etapas, baseadas nas metodologias de pesquisa-ação e de mediação biográfica. Cada atividade foi planejada para ser interdependente da outra, com os resultados de uma apoiando as escolhas da fase seguinte.

 

A primeira das etapas foi a do Diagnóstico Visual. Nela, Thaís foi a campo observar as estruturas e atrativos de mercados, feiras, restaurantes, praças, cais e pontos turísticos de Cabrália. Ela também anotou dados sobre como moradores e turistas circulam e usam esses espaços. Ela queria perceber se a identidade cultural e os saberes tradicionais estavam presentes nesses espaços. O que ela percebeu foi um território com riqueza e muitas contradições. Processos de colonialidade silenciosa vêm substituindo espaços de identidade local (como o mercado de peixe fresco direto do pescador) por comércios genéricos sem vínculo territorial. A construção da praça “Coração de Cabrália” implicou a degradação de extensas áreas de restinga. A dependência de insumos importados de outros estados é expressiva, mesmo com a riqueza natural local.

Depois, Thaís preparou os relatos de experiência e mediação autobiográfica. Nessa fase, ela registrou a própria trajetória profissional em dois restaurantes de temporada. O primeiro, o Geco Beach, na Itália, no qual ela já havia atuado por quatro temporadas. Ali, ela trabalhou com os princípios da sazonalidade radical: usava nas receitas os alimentos de cada época do ano. Era a lógica da natureza ditando o cardápio: acordava às seis e meia da manhã para comprar o que o mercado e as hortas locais ofereciam naquele dia.

Outras práticas que Thaís aplicou foram aproveitar o máximo dos ingredientes, sem desperdício; valorizar as pessoas da produção local de alimentos; e preparar todos os pratos, do onívoro ao vegano, com cuidado e técnica.

A experiência revelou que o cerne da Dieta Mediterrânea não é uma dieta, mas uma diaita (palavra que vem do idioma grego e significa “modo de viver”) – um estilo de vida ético baseado na escuta dos ritmos sazonais e na comensalidade como ato político e afetivo.

Um procedimento similar ao que Thaís adota no restaurante Locanda Ariramba, que ela chama de sua “cozinha afetiva” em Santa Cruz Cabrália. Ali, ela combina o cuidado técnico da alta cozinha com os sabores e saberes do território, com atenção para o ambiente e a economia local. Assim, ela prepara e serve receitas como bobó de camarão com leite de coco do quintal, gnocchi de aipim, pratos com polvo fresco e vôngoles que ela mesma coletou.

diversidade humana cabralia

A etapa seguinte da pesquisa foi entrevistar pessoas essenciais no ecossistema alimentar de Cabrália: pescadores, marisqueiras (trabalhadoras que coletam mariscos, como vôngoles e sururus, nos mangues e praias) e profissionais da manutenção de embarcações. Nessa fase, Thaís buscou saber as práticas de biointeração que essas pessoas já adotavam e o potencial para novas ideias. Foi ali que ela conheceu trajetórias, cotidiano e práticas de trabalhadoras e trabalhadores importantes para o setor da gastronomia local.

Ela entrevistou seis personagens em uma lógica de encontro de saberes, em que cada pessoa entrevistada é uma parte essencial da teia regenerativa de Cabrália. A própria Thaís apresenta os participantes dessa fase da pesquisa:

Aline Santos Bonfim: Ex-marisqueira e hoje chef de cozinha, Aline representa a transição entre quem coleta e quem alimenta. Ela afirma que só se pode mariscar quando a natureza permite. A tábua das marés é, para ela, uma “pedagoga”. Como chef, defende o aproveitamento dos peixes de arrasto (descartados pelo mercado), reconhecendo neles valor nutricional e espiritual. Sua prática é de reciprocidade: respeitar o ciclo natural é uma responsabilidade tanto de quem pesca quanto de quem consome. 

Maria José Conceição (Nilza): Atuando no setor hoteleiro, Nilza enfrenta a tensão entre a expectativa do consumo imediato e o tempo de reposição da natureza, especialmente durante o período do defeso. Reconhece o medo de que o cliente “não entenda” a sazonalidade, mas compensa com o aproveitamento integral dos ingredientes — usando cada parte da lagosta, por exemplo, como forma de honrar o que a natureza oferece e evitar o desperdício. 

Fábio Calafate: Mestre calafate (especialista em vedar barcos), Fábio aprendeu o ofício com o avô desde os 10 anos. Descreve técnicas ancestrais com materiais orgânicos: estopa de biriba, óleo de dendê, cal e até óleo de fígado de cação. Para ele, a regeneração está no respeito ao tempo da maré: só trabalha quando a maré seca. Mesmo em outras atividades (movelaria, construção), Fábio evita desperdícios: madeira que sobra vira moldura. O barco, para Fábio, é um elo social e alimentar das famílias de Cabrália. 

Maria Madalena Palma: Mulher indígena, mãe de quatro filhos e agricultora na zona rural de Cabrália, Madalena defende sua roça como espaço de soberania alimentar. Denuncia a falta de apoio estatal e a lentidão dos recursos para a agroecologia, além da invisibilidade indígena nas políticas públicas. Para ela, o Bem Viver não é conceito utópico; é uma construção diária feita com garra, apesar das dificuldades. Representa a esperança política de quem recusa que a ancestralidade seja apenas passado. 

Flavito: pescador artesanal. Ele critica a monocultura do consumo: a fixação dos clientes em um único tipo de peixe força o descarte de espécies igualmente nutritivas, gerando violência contra a biodiversidade. Propõe que se coma o “peixe da vez”, respeitando o ciclo natural. Defende que a verdadeira fartura não está em estoques de uma única espécie, mas em aceitar o que o mar oferece em sua sazonalidade. A pesca artesanal, para ele, é uma cadeia que “prefere salvar a natureza”.

Seu Nando: Pescador aposentado e morador nativo, Seu Nando é apresentado como guardião de um saber que vai além da técnica: ele “sente” o cheiro da chuva antes de cair e lê a cor da água. Alerta que a tecnologia (GPS, redes de nylon), quando usada como muleta, apaga o “sentir” e a humildade necessários à sustentabilidade. Denuncia as “redes fantasmas” de nylon que continuam matando décadas depois de abandonadas. Valoriza a tradição de repartir o peixe com quem ajudou a puxar a rede como base da segurança alimentar comunitária. Para ele, regeneração é paciência: saber esperar o momento certo, ouvir os sinais do mar. 

 

Um banquete para falar de sabores, resultados e planos

banquete comensais

A fase final da pesquisa-ação de Thaís para agir no problema foi uma oficina na Locanda Ariramba. Intitulada Banquete de sabores, saberes e afetos, e reunindo 15 adultos e mais algumas crianças, a atividade incluiu 12 capítulos sensoriais e incentivou as pessoas a se apresentar e a conversar enquanto compartilhavam o almoço. Thaís preparou um peixe dentão assado na brasa, sem temperos nem papel alumínio, apenas com a armadura de suas próprias escamas. A ideia era mostrar que a natureza é a melhor designer de proteção e de que o “chic” na Gastronomia Regenerativa é comer o que o território oferece naquele dia. Outra proposta foi o bobó de camarão com aipim de agricultura familiar, leite de coco do quintal e dendê da feira local. Nessa receita, a pesquisadora e anfitriã recusou incluir a lagosta porque essa espécie estava em período de defeso (período legalmente protegido de proibição de captura de espécies para garantir sua reprodução).

Além de saborear as receitas, os convivas também falaram sobre o que esperam para essa relação de alimento e território. As reações incluíram surpresa com o sabor “puro” do peixe sem temperos industrializados e sentimento de reconexão com memórias territoriais. Ao final, os participantes fizeram uma devolução simbólica de conchas ao ecossistema, na Pracinha da Bicicleta, e registraram por escrito as impressões, memórias e vontades para o futuro, com três relatos registrados como documentação da oficina.

A experiência de articular a metodologia e criar uma apresentação inovadora para os resultados é descrita como “um exercício de paciência e escuta ao tempo, esse senhor que dá as cartas”. Thaís afirma que por muito tempo separou a vivência de culinarista e a de acadêmica, cada uma em uma mão, como se não fossem partes do mesmo corpo. A orientadora a ajudou a perceber que o diálogo entre as duas experiências era mais que possível, desejável.

dentão na brasa

“O despertar aconteceu através das palavras da minha orientadora, Tatiana Dadalto, a qual não vou cansar de agradecer pela sua grande sabedoria e sensibilidade. Ao me dizer ‘Você já está fazendo um TCC; sua ideia de levar a natureza à mesa é linda e tem nome: pensamento regenerativo’, ela permitiu que minhas duas mãos finalmente se tocassem. Foi neste toque que o ‘impossível’ se tornou real. Se o curso não fosse tão interdisciplinar, nós não estaríamos aqui falando de tantos assuntos que a natureza nos permite dizer. Foi essa abertura que me permitiu compreender que somos parte de tudo. Compreendi que o saber ancestral do meu território, a técnica lapidada em terras estrangeiras e o rigor acadêmico interdisciplinar não eram fios soltos, mas uma confluência.”

Com isso, Thaís percorreu uma jornada de prática e estudo que mostrou que a ciência pode e deve dialogar com outros saberes. E a forma de apresentar os resultados teria de ser diferente, agregadora e viva. Veio aí a ideia de criar o Banquete de Sabores, Saberes e Afetos. Ela menciona o momento da devolução das conchas ao mar como importante para concluir o trabalho. “Foi ali, entre as ondas e o sal nas escadas da pracinha da bicicleta de Cabrália na praia, que as palavras do professor Álamo Pimentel ressoaram como um farol: “Existe uma metodologia chamada Mediações Biográficas; ela poderia te ajudar”. Naquele momento, o novo me causou estranhamento; eu ainda não sabia como acolher aquele conceito desconhecido. No entanto, era essa a chave que faria desmoronar toda a angústia da escrita. Descobri, enfim, que o rigor acadêmico não precisa ser gélido: eu poderia descrever ciência com o coração e tecer teoria com os fios da alma.”

Essa experiência marcou o relato da pesquisa de Thaís, bem como o apoio que percebeu da universidade a cada passo: “A UFSB revelou-se uma presença constante, aquela que segura nossas mãos e sussurra com mansidão: ‘Vocês nunca estarão sós’. Em cada pequeno degrau desta jornada, senti o amparo dessa instituição. Sou profundamente grata à professora Carolina Bessa Ferreira de Oliveira (CFCHS), que com paciência e luz, dissolveu minhas dúvidas sobre ética e temas sensíveis relacionados à pesquisa que envolve entrevistas. Dessa forma foi um ato político e poético: foi convidar a academia a ‘sentar-se à mesa’ para validar a gastronomia como uma ciência sensível. No banquete, a teoria foi mastigada, o território foi sentido e os afetos foram partilhados, transformando dados em experiência e o conhecimento em celebração coletiva”.

 

Anticolonialidade e regeneração no menu

A proposta da gastronomia regenerativa bate de frente com as práticas mais comuns do turismo, como esgotamento de recursos, alto custo econômico e ambiental e descaracterização do que é próprio do território. Para Thaís, a função dessa forma de organizar a culinária é curar o que chama de “cegueira” de um sistema que vê o território como cenário e o alimento como mercadoria:”O turismo convencional costuma consumir a paisagem até o esgotamento, mas nossa proposta é o envolvimento: é entender que a natureza não é um pano de fundo, mas o corpo vivo do qual fazemos parte.”

 

Ela descreve uma mudança de postura em três frentes para que a regeneração floresça em Cabrália. A primeira é o Respeito ao Ritmo da Terra: através de cardápios como o “Menu Presente do Sol”, o comércio e o turista aprendem a respeitar o tempo biológico. “Não é a demanda comercial que dita o prato, é a maré, é o solo, é a estação. É forçar uma pausa na pressa do capital para ouvir o que a natureza pode entregar hoje”, explica Thaís.

A segunda ela chama de Aliança da Proximidade: “Substituímos a dependência de insumos que viajam quilômetros pela valorização real da marisqueira, do pescador e do agricultor local. Fortalecer quem é da terra é garantir que a riqueza circule no território, transformando a economia em um laço de soberania e dignidade.

A terceira é entender o Comércio como Guardião: “Restaurantes e barracas deixam de ser apenas pontos de venda e tornam-se portais de sensibilização. O turista descobre que “a natureza começa no prato” e que cuidar dela é a nova elegância.” Thaís entende que essas práticas redirecionam a atenção para o futuro: “É mostrar que a relação entre nós e a terra é uma “vasilha de dar e receber”: ela nos oferta a abundância e pede em troca o cuidado. A boa nova para Cabrália é ser reconhecida como uma cidade que se alimenta de si mesma, que conhece seus detalhes e que se orgulha de ser um exemplo de vitalidade. A vez agora é de ser exemplo, celebrando uma cidade que sabe que, ao cuidar de cada parte, está garantindo a saúde do todo”.

Seguindo a ideia da Gastronomia Regenerativa, Thaís propôs três diretrizes estratégicas para atuação na mudança do cenário em Santa Cruz Cabrália. A primeira é o menu chamado “Presente do Sol”, que é definido a partir dos ingredientes que estão acessíveis no território naquele dia. A ideia é que isso convide quem prepara a refeição e quem a consome a sair da lógica de mercado e a experimentar o que é único do local naquele dado momento. Isso porque o princípio da Gastronomia Regenerativa é combater o extrativismo que degrada o ambiente e oferece tudo o tempo todo, a qualquer custo.

Outra proposta é a Aliança da Soberania Alimentar, pela qual o saber dos povos tradicionais é fortalecido e reconhecido. Um ponto dessa aliança é a valorização do vôngole como “ativo sagrado” a ser consumido de acordo com critérios e ritualização. Com isso, a pesquisadora Thaís quer evitar que ocorra erro similar ao que ela notou nas temporadas no Cilento, em que um recurso foi esgotado pelo excesso de demanda turística.

vôngole

A noção de “ativo sagrado”, conforme Thaís, retira o alimento da prateleira das mercadorias e o coloca no altar dos Bens Comuns bioculturais. “Quando olhamos para um recurso como o nosso vôngole nativo e o reconhecemos como sagrado, mudamos nossa relação com ele: deixamos de ser consumidores para nos tornarmos guardiões”, define ela. Assim, o vôngole passa a ser consumido de forma ritualizada. Isso evita que as populações desse molusco sejam destruídas pelo consumo sem medidas. “Tratar o alimento como um ativo sagrado é entender que ele é um elo vital entre o que a terra nos doa e o que nossa cultura preserva. É uma prática de amor político, onde o uso responsável se torna o único caminho possível para manter viva a alma do nosso território.”

Essa “sacralização” cria uma ética de cuidado que se apresenta em três formas fundamentais, que a autora explica de forma prática e poética.

 

  • O Respeito aos Ciclos da Vida: “Ao entender o alimento como sagrado, o respeito aos períodos de defeso e aos ritmos da natureza deixa de ser uma obrigação legal e passa a ser um ato de reverência. Não se fere aquilo que se considera sagrado; espera-se o tempo da terra”.
  • O Saber Ancestral como Bússola: “É a sabedoria de quem veio antes que passa a ditar o ritmo da mesa. Isso evita o esgotamento provocado pela ganância da extração desenfreada, garantindo que a colheita seja sempre um ato de gratidão, e não de exploração.”
  • O Elo de Identidade e Memória: “O recurso é compreendido como um fio que tece a nossa história. Usá-lo de forma responsável é garantir que as futuras gerações também possam se nutrir dessa mesma memória.”

O terceiro caminho proposto, o Protocolo de Restituição, foi pensado para devolver ao ambiente as conchas, a matéria orgânica e resíduos por reciclagem e compostagem. O intuito é fechar o ciclo mineral e evitar descarte inadequado, para ajudar na recuperação do solo e dos cursos d’água de Santa Cruz Cabrália.

São medidas que buscam proteger o ambiente e as atividades econômicas tradicionais por meio de uma lógica de valorizar e sacralizar o que é vivo, em contraponto com a transformação da terra em mercadoria e o alimento em produto. Essa proposta se choca contra a tendência do avanço da especulação imobiliária sobre áreas de alto valor ambiental, fato que se pode notar em muitos locais do Nordeste.

“Contra a lógica que tenta transformar vida em cimento, a sacralização e a comensalidade surgem como escudos. Elas fortalecem o pertencimento, transformando a comunidade em sentinela de seus mangues e restingas. Promovem a soberania territorial, educando todos sobre a importância dos ecossistemas como fontes de dignidade, tornando o território “inegociável”. Ao dar protagonismo ao pescador e à marisqueira, combatemos o silenciamento que precede o avanço imobiliário”, aponta Thaís. Como ela aponta em seu trabalho, a ideia é que ritualizar o consumo do vôngole ajuda a preservar as populações do molusco e ao mesmo tempo cria um evento recorrente de comensalidade e de retorno de matéria orgânica ao ambiente: “Sacralizar e comungar é dizer ao mundo que Cabrália não é um cenário à espera de ocupação, mas um corpo vivo feito de memória e natureza, onde cada fim é apenas o preparo para um novo despertar.”

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