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A Nova Leitura do Mercado do Cacau

Commodity é alimento

Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

 

 

´Paulo Peixinho

Ter excelência no campo, produzindo com técnica, mecanização e alta produtividade, já não garante resultados positivos.

Na cacauicultura, nem todos têm acesso às condições básicas para produzir. E, ainda assim, mesmo que tivessem, não garantiriam resultados produzindo apenas cacau convencional.

Na cadeia produtiva do cacau, o intermediário entre a produção e as processadoras não tem opção de exportação. Seu real negócio é ser operador logístico, atuando onde as filiais das compradoras não conseguem atuar.

E, no final, o preço que o mercado está disposto a pagar já não é determinado apenas pela bolsa e pelo câmbio.

As processadoras prestam serviços para as chocolateiras. E estas demandam produtos, não a amêndoa entregue pelos produtores.

Após o choque de 2023-2025, os preços subiram e o mercado mudou:

  • As chocolateiras passaram a substituir parte da manteiga de cacau por outras gorduras vegetais, e o maior interesse passou a ser o pó de cacau.
  • Tem sobrado manteiga no mercado de cacau. O preço da manteiga chegou a US$ 40.000 por tonelada e caiu para US$ 5.000, sem interesse comprador, já que o óleo de alpiste está sendo aceito pelos consumidores de produtos com sabor chocolate.
  • O pó de cacau tem sido procurado, assim como resíduos e cascas, para colorir os achocolatados.
  • As indústrias já compram pó de cacau produzido em laboratórios. E, quando os preços do cacau sobem, aumenta o uso desses novos produtos.

A indústria chocolateira, além da preocupação com os preços, está se prevenindo para garantir o fornecimento constante de sua cadeia de suprimentos.

Os produtores de cacau necessitam buscar novas opções: produzir cacau fino e de aroma para fábricas bean-to-bar, produzir nibs para reduzir o custo logístico, alcançar padrões de qualidade para exportação e desenvolver outras inovações que normalmente surgem quando a crise se instala.

Por 40 anos, a indústria trabalhou com um preço médio do cacau em torno de US$ 2.500 por tonelada. O cenário atual aponta que o novo normal na bolsa deverá ser  US$ 4.000 e US$ 6.000 por tonelada. E, diante dessa nova realidade, estão sendo criados substitutos para o cacau.

Existe mercado para chocolate, porém talvez seja um novo tipo de mercado.

Como o cacau é um alimento, diferentemente da borracha de seringa, que encerrou seu ciclo na Amazônia e migrou para a Ásia e para substitutos derivados do petróleo, podemos criar novos tipos de alimentos à base de cacau para agregar valor.

Essa crise de demanda é passageira. Mas, para quem deseja sair da pressão diária da bolsa, o momento é de criar novas formas de alimentos naturais, funcionais e nutritivos.

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