
Anna Lívia Rosa Ribeiro
Faltam poucos dias para a Ponte Lomanto Júnior completar sessenta anos.
A cidade já se prepara para a data. Há equipes trabalhando nos detalhes da comemoração, jornalistas procurando fotografias antigas, moradores relembrando histórias de outros tempos. Nas conversas pelas ruas, a ponte volta a ser assunto.
Talvez seja por isso que decido atravessá-la naquela manhã.
Antes que as faixas, os discursos e as homenagens ocupem o lugar do silêncio, quero vê-la como sempre foi: apenas uma ponte sobre o rio Cachoeira.
Saio cedo.
O caminho até a ponte passa por algumas ruas que parecem guardar o ritmo de uma cidade que ainda está acordando. Portas se abrem devagar, comerciantes organizam suas bancas, pessoas caminham sem pressa.
Ao passar pelo Ponto de Leitura André Rosa, diminuo o passo.
Algumas crianças estão sentadas ouvindo uma história. Um senhor folheia um livro próximo à porta de entrada. Duas pessoas conversam em voz baixa, como se estivessem em uma biblioteca, mas também em uma praça.
Gosto desses lugares que aproximam pessoas.
Vejo a placa.
PONTO DE LEITURA ANDRÉ ROSA.

Me parece um nome familiar.
Sigo meu caminho.
É uma linda manhã de inverno.
Do alto da travessia da Ponte Lomanto Júnior, observo a água seguindo seu caminho. O rio parece não saber que existem aniversários, datas importantes ou lembranças guardadas pelos homens. Eles apenas passam.
Encosto a mão no guarda-corpo.
O concreto está frio.
Penso que aquele pedaço de concreto deve conhecer mais histórias da cidade do que muitos livros.
É quando ouço passos atrás de mim.
– Bonito esse cenário, não é?

Viro-me.
Um homem caminha devagar. Veste uma camisa florida, calça escura, sandálias de couro e traz uma boina que realça seus olhos esverdeados.
Tem um sorriso tranquilo.
Um sorriso familiar, embora eu não consiga dizer de onde.
– É um visual incrível – respondo.
Ele para ao meu lado e também olha para o rio.
Durante alguns segundos, ficamos em silêncio.
– Sempre gostei das pontes – diz.
– Elas não perguntam quem passa. Apenas deixam passar.
Sorrio.
É uma frase simples, mas parece carregada de muitos significados.
Começamos a caminhar.
Não pergunto seu nome.

Há alguma coisa naquele homem que torna a pergunta desnecessária.
Um pescador prepara a rede próximo à margem. Um casal atravessa apressado. Um ônibus passa fazendo a ponte vibrar levemente sob nossos pés.
A cidade segue vivendo.
– Sabe o que mais gosto daqui? – pergunta ele.
Balanço a cabeça.
– Do lugar onde estamos.
Olho em volta.
– Do meio da ponte?
Ele sorri.
– É o único lugar onde conseguimos enxergar as duas margens ao mesmo tempo.
Paro por um instante.
Durante tantos anos atravesso aquela ponte olhando apenas para o caminho à frente. Nunca penso no valor daquele ponto exato: o lugar onde nenhum lado desaparece completamente.
Continuamos andando.
O vento sopra mais forte no centro da travessia.
Ele passa a mão pelo guarda-corpo como quem cumprimenta um velho conhecido.
– As cidades mudam depressa.
– Mudam.
– Prédios aparecem. Ruas desaparecem. Pessoas chegam. Pessoas partem.
Olho para ele.
– Mas algumas coisas permanecem.
Ele faz um gesto afirmativo.
– Permanecem porque conseguiram unir alguma coisa.
Ficamos em silêncio.
Não é um silêncio vazio.
É daqueles que parecem completar uma conversa.
Depois de alguns passos, ele diz:
– Engraçado como o tempo funciona.
– Como?
– Às vezes ele leva alguém embora, mas deixa o caminho que essa pessoa ajudou a construir.
A frase fica comigo.
Olho novamente para o rio.
– O senhor tem uma história com essa ponte?
Ele sorri.
– Toda pessoa que ama uma cidade tem uma história com as suas pontes.
Não responde exatamente à pergunta.
Talvez nem precise.
Continuamos até o ponto mais alto da travessia.
Ele para.
Fica olhando para os dois lados.
– Volte aqui em outubro.

Estranho.
– Outubro?
Ele confirma com a cabeça.
– Algumas datas também merecem ser lembradas.
Antes que eu pergunte qualquer coisa, ele completa:
– A cidade não é feita apenas das coisas que ficam de pé.
O vento passa entre nós.
Por alguns segundos, desvio o olhar para o rio.
Quando volto a encará-lo, ele já não está.
Procuro para um lado.
Depois para o outro.
A ponte segue cheia de sons: motores, passos, conversas distantes.
Mas aquele homem desaparece.
Sinto uma ausência difícil de explicar.
Continuo a travessia até o outro lado.
Passo o resto da manhã resolvendo pequenas coisas. A conversa permanece comigo, embora eu tente não pensar nela.
No final da tarde, sento para comer uma kafta na Avenida Dois de Julho.

Enquanto espero, um jornal sobre a mesa chama minha atenção.
A manchete anuncia as comemorações pelos sessenta anos da Ponte Lomanto Júnior, marcadas para o dia 15 de agosto.
Leio rapidamente a programação.
Depois meus olhos encontram uma pequena nota mais abaixo.
“Em outubro de 2026, André Rosa completaria sessenta anos. Amigos e familiares preparam uma homenagem em sua memória.”
Ao lado do texto há uma fotografia.
Fico olhando por alguns segundos.
Reconheço o sorriso antes mesmo do rosto.
O mesmo sorriso tranquilo.
O mesmo olhar.
As mesmas mãos que parecem conhecer o velho guarda-corpo da ponte.
Fecho o jornal devagar.
Então me lembro da placa que vi pela manhã.
PONTO DE LEITURA ANDRÉ ROSA.
O nome na parede.
As crianças ouvindo histórias.
Os livros abertos.
As pessoas reunidas.
Percebo que, antes mesmo de saber quem ele era, eu já havia passado por um lugar onde sua presença continuava acontecendo.
A kafta chega, mas permanece intocada.
Consigo ver a ponte ao longe.
Uma linha atravessando o rio.
Uma ligação entre duas margens.
Saio sem pressa.
Em vez de voltar para casa, faço o caminho de volta até a ponte.
A tarde já mudou a cor do céu.
Há mais movimento, mais carros, mais pessoas.
Ainda assim, caminho até o meio da travessia.
Encosto a mão no mesmo lugar.
Olho para um lado.
Depois para o outro.
Penso em agosto.
Penso em outubro.
Penso nos lugares que guardam pessoas mesmo quando elas já não podem voltar a eles.
Não espero encontrar ninguém.
Alguns encontros acontecem uma única vez.
Talvez porque certas pessoas não aparecem para permanecer.
Aparecem apenas para nos lembrar de alguma coisa que já estava dentro de nós.
Continuo andando.
E, quando chego ao outro lado, não olho para trás.
—
Anna Lívia Rosa Ribeiro é Mãe, Avó, Ilheuense, Pedagoga, Professora, Especialista em Educação Infantil, Mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente, Gestora em Turismo, Sócia-diretora na Agência de Viagens ViaDestino, Escritora.






