Daniel Thame
O ano era 2013 e o mês era agosto. A Prefeitura de Itabuna decide colocar uma estátua de Jorge Amado na entrada do bairro de Ferradas, onde o mundialmente conhecido escritor nasceu em 10 de agosto de 1912, no então distrito do recém-emancipado município.
Era uma das raras homenagens que a cidade prestava ao um de seus filhos mais ilustres, aclamado e celebrado com nome em aeroporto, praças, pavilhão de universidades pela vizinha -e rival- Ilhéus, onde Jorge passou parte da infância e adolescência e iniciou sua carreira de escritor.
Mas, naquele dezembro de 2013, a relação de Itabuna com Jorge Amado ganharia as manchetes nacionais com repercussão até no exterior, a partir de uma postagem no Blog do Thame, não propriamente pela homenagem.
No melhor (ou no pior) estilo Tocaia Grande ou Terras do Sem Fim, a estátua de dois metros de altura, feita em resina bronzinada, obra do escultor Lavrud Durval, colocada num pedestal de três metros, foi alvejada com pelo menos seis tiros. Com a repercussão negativa, a Prefeitura alegou que foram pedradas, não tiros. Mas uma perícia feita pela polícia e depoimentos de moradores vizinhos comprovaram que foram tiros mesmo.

Como se tiros ou pedradas fizessem alguma diferença no vandalismo. Recuperada, a estátua foi recolhida na então sede da reitoria da Universidade Federal do Sul na Bahia, às margens da BA 415, próxima a Ferradas. Abandonada é um termo mais apropriado do que recolhida, porque o monumento foi parar embaixo de uma das escadas do pavilhão principal e ali permaneceu por mais de uma década.
Falamos de uma década, mas já viramos o século e Itabuna continua com sua indiferença (ou seria desprezo?) ) por Jorge Amado, já nome de rodovia que liga a cidade com Ilhéus, ponte estaiada e tudo o que a cidade litorânea pode fazer (e faz) para tecer loas a seu filho adotivo.
Itabuna ?Um bairro distante na periferia, com moradores dignos de seus personagens sempre deixados à margem pelos poderosos, uma escola da rede pública, uma escola particular e… mais nada.
A relação de Itabuna com Jorge Amado parece mais um roteiro de Gabriel Garcia Marquez, uma Macondo às avessas, que devora o seu herói.

Mas, há uma esperança: a relocação da restaurada estátua de Jorge Amado na praça principal de Ferradas pela Prefeitura de Itabuna, por obra, esforço e luta principalmente do secretário de Governo Rosivaldo Pinheiro, a promessa da implantação e um memorial e de um parque temático-literário, podem ser o caminho da reconciliação que seria uma reparação histórica e, perdão, da correção de uma monumental burrice, tantas são as oportunidades que Ferradas e Jorge Amado, juntos, podem proporcionar e termos culturais, comerciais, turísticos e literários.

Por hora, é saudar a volta da estátua pra casa e bradar:
-Salve Jorge!
No sentido literal e no sentido figurado.






