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24 de Setembro

A João Alves de Lima (1925–1986)

Por Paulo Peixinho

 

Paulo Peixinho

Maio e setembro sempre foram meses especiais na infância, e talvez tenham ficado na memória.

Maio — mês de ganhar presentes de aniversário e início da safra temporã do cacau.

Setembro — quando o temporão não tinha preço ou produção, a esperança de ganhar presentes seria em setembro.

Mas o ano de 1986 e o mês de setembro trazem memórias fortes.

O ano foi de uma boa safra de cacau, a maior do Brasil. Porém, para quem se antecipou em 1985 e fez travas de preços, o governo editou um plano que tabelou os contratos futuros.

O segundo ano da Nova República, um ano repleto de novidades na vida pessoal e profissional.

Nova empresa, novos sonhos. Aos 25 anos, diretor de uma empresa de exportação que ganhou prêmio.

Depois de um 1985 difícil para o cacau, intervenção do Comind, dinheiro perdido. Ainda bem que o café subiu.

O ano de 1986 transcorria bem. Sorte por ter realizado a carteira de ações brasileira. Ano eleitoral. Inflação de demanda, cotas para comprar leite Ninho, óleo de soja, fila para comprar carro.

Viagem a Londres. Casamento de Andrew e Sarah. Brands Hatch — Mansell e Piquet. Camden Town. Starlight Express, de Andrew Lloyd Webber. Plantation House. Bolsa de Londres. Drexel Burnham Lambert. Paulo Torres. Pub. Piccadilly Circus. Foyles. Holco. Barclays. Embaixada Brasileira. Panelli César. Orlantildes Péricles. Dancis’s Day — UK.

Genebra. Marlene e Landim. Reunião do IV Acordo Internacional do Cacau.

Interlaken. Copa do Mundo de Futebol.

Berna. Carne de avestruz.

Zurique. Festival de Jazz de Montreux. Lago Léman.

Bomba em Paris. Praça da Madeleine. Torre Eiffel. Rio Sena. Notre-Dame.

Lisboa. Escudo. Penthouse.

Era o início de um retorno à City. O destino. Como sempre, o mistério.

Ano de formatura.

Retorno ao Brasil.

Moeda estável.

Tudo materializado por um tempo.

Trabalhando e estudando.

Na escola de administração, homenagem a um self-made man.

20 de setembro. Um telefonema parou a manhã de um sábado.

Uma viagem reflexiva de carro.

A chegada a uma UTI, nunca antes imaginada.

Monitores bipando. Uma lágrima. O segredo não revelado. A dúvida.

Um longo domingo. Uma segunda-feira mais longa. Um jatinho no aguardo. Muitos médicos.

São Paulo. 9 de Julho. Um diálogo com médicos, outra UTI. Uma reflexão profunda.

6h15 de uma quarta-feira. O telefone toca no hotel.

O anúncio. A confirmação.

Um necrotério.

Um taxista no primeiro dia de trabalho. O Viaduto Maria Pia.

Uma delegacia. Uma solução.

Congonhas. Sala VIP da Transportes Aéreos Marília. O comandante Rolim. O engano.

Comandante Raul. Um problema no avião. A primeira solução.

O retorno. Aeródromo lotado à espera.

Uma noite de sono.

Um enterro. Discursos políticos. O candidato ao Senado, amigo, permaneceu calado.

Na saída do cemitério, o primeiro contato com a cultura. O vendedor de bilhetes de loteria.

A tristeza da falta.

O início de uma jornada invertida. Antes, o sonho da City. Agora, a nova realidade, a nova cidade.

Quatro décadas depois.

Uma história com muitas histórias. Tantos medos e desafios, tantas crenças.

Embora tenha partido tão cedo, para quem queria viver cem anos, a corrente da vida foi encurtada em 39 anos.

Embora tenha partido, você vive em mim. Sou metade você.

Embora tenha partido, sem você fui tentando entender a sua história, contada de improviso naquele 18 de setembro.

Criei histórias como se você aqui estivesse. Dei nome de empresa.

Mandei fazer foto, busto. Até nome de uma bela praça você tem.

Você é imortal para mim, pois é meu pai. Vive na memória.

És imortal porque seu legado material está aí.

És imortal porque, antes de tudo, seu legado de empreender, de alegria de viver e de otimismo não se apaga!

Porque hoje senti você, mãos para trás, sereno.

Até brinquei mentalmente com você.

Pode ser a fantasia do menino que, mesmo de cabelos brancos e olhos cansados, insiste em crer que você nunca morreu.

Amo-te. E amarei pela eternidade.

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