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“Chocolate” sem cacau? O desafio silencioso que ameaça a cadeia produtiva

O ´chocofake` chega ao mercado. Sinal de alerta para a lavoura cacaueira

Por Cleber Isaac Ferraz

Um fenômeno silencioso vem acontecendo na cadeia do cacau no Brasil. Enquanto o volume de produtos vendidos como chocolate cresce nas gôndolas, o volume de cacau efetivamente processado permanece praticamente estável.

Dados do setor ajudam a ilustrar esse descompasso. Entre 2006 e 2024, o volume de chocolate e derivados consumidos no Brasil passou de cerca de 350 mil toneladas para aproximadamente 820 mil toneladas. No mesmo período, a moagem de cacau permaneceu praticamente estável entre 220 e 240 mil toneladas, chegando a cerca de 235 mil toneladas.

Em outras palavras: o consumo de chocolate mais que dobrou, mas o uso de cacau praticamente não cresceu.

Essa diferença começa a chamar atenção em todo o mundo. Em paralelo à volatilidade do mercado do cacau e ao aumento da demanda global, a indústria alimentícia vem investindo em alternativas que reproduzem o sabor do chocolate sem utilizar cacau.

Um dos exemplos mais discutidos atualmente é o ChoViva, desenvolvido pela empresa alemã Planet A Foods. O ingrediente é produzido a partir da fermentação e torra de sementes de girassol, buscando reproduzir aroma, sabor e textura semelhantes ao chocolate tradicional.

A tecnologia já começou a ganhar escala comercial. A própria Nestlé anunciou recentemente o lançamento de produtos utilizando ChoViva, como parte de uma estratégia para testar alternativas ao chocolate tradicional diante da volatilidade do mercado do cacau. Ao mesmo tempo, a Planet A Foods firmou parceria com a Barry Callebaut, líder mundial em ingredientes de chocolate, para expandir esse tipo de solução no mercado.

Esse movimento mostra que o debate sobre o chamado “chocofake” — produtos que parecem chocolate, mas utilizam menos ou nenhum cacau — já deixou de ser apenas uma preocupação de produtores. Ele passou a fazer parte da estratégia de inovação da indústria global de alimentos.

Mas essa não seria a primeira vez que a indústria alimentícia substitui um ingrediente natural por alternativas consideradas mais eficientes ou baratas.

No século XX, a margarina foi promovida como substituta da manteiga, vista na época como uma solução moderna, industrial e até mais saudável. Décadas depois, a própria ciência passou a reconhecer que muitos desses produtos continham gorduras trans, associadas a diversos problemas cardiovasculares, levando a uma reavaliação global desse paradigma alimentar.

A história mostra que nem sempre as substituições industriais se revelam melhores no longo prazo.

No caso do chocolate, o debate envolve também questões sociais, ambientais e de saúde do consumidor.

O cultivo do cacau sustenta milhões de agricultores no mundo e é base econômica de diversas regiões tropicais. No sul da Bahia, por exemplo, o cacau historicamente estruturou comunidades rurais e ajudou a preservar áreas de floresta através do sistema agroflorestal conhecido como cabruca, considerado um modelo que combina produção agrícola e conservação ambiental.

Reduzir o uso de cacau no chocolate significa também reduzir o valor gerado para essas regiões produtoras.

Do ponto de vista ambiental, sistemas agroflorestais de cacau ajudam a manter cobertura vegetal, preservar biodiversidade e contribuir para o equilíbrio climático. Valorizar o cacau significa também valorizar esses sistemas produtivos.

Há ainda a dimensão do consumidor. O cacau é naturalmente rico em flavonoides e antioxidantes, compostos associados a benefícios à saúde quando presentes em produtos com maior teor de cacau. Quando ele é substituído por gorduras vegetais e aromatizantes, parte desse valor nutricional simplesmente desaparece.

Essa discussão não deve ser tratada como um conflito simples com as moageiras, que cumprem papel essencial no setor. O desafio maior está na forma como os produtos são formulados, rotulados e apresentados ao consumidor.

Dois caminhos parecem evidentes.

O primeiro é regulatório: discutir parâmetros mais claros sobre o que pode ou não ser chamado de chocolate, incluindo percentuais mínimos de cacau.

O segundo é de mercado: informar o consumidor sobre o valor do cacau — um alimento associado à qualidade, à sustentabilidade e à geração de renda nas regiões produtoras.

Falo disso também a partir da minha própria trajetória. Acompanho o setor do cacau há mais de 20 anos, tanto pela história da minha família como produtora quanto pela atuação profissional estruturando iniciativas de mercado e financiamento para a cadeia, incluindo operações de crédito privado para produtores no período pós-vassoura-de-bruxa.

O Brasil possui regiões produtoras únicas e sistemas agroflorestais reconhecidos internacionalmente. Valorizar o cacau significa fortalecer toda a cadeia.

Porque, no fim das contas, a pergunta que o consumidor precisa começar a fazer é simples:
quanto cacau realmente existe no chocolate que ele está comprando?

(Fotos: IA)

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