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Crônica de uma morte anunciada. E os sinais de reação do setor

Por Cleber Isaac Filho, produtor rural, escritor e consultor

Em 2024, no auge da euforia com o cacau alcançando patamares próximos a R$ 1.000 por arroba, fiz um alerta que hoje se mostra ainda mais atual: embora aquele fosse um preço justo sob a ótica econômica, ele não refletia um mercado equilibrado. Não havia, portanto, razão para euforia prolongada.

O alerta partia de um dado estrutural que o setor reluta em enfrentar: o cacau não opera em ambiente de livre mercado. Cerca de 70% da produção mundial está concentrada em países onde os preços sofrem forte influência estatal, criando distorções relevantes na formação dos valores internacionais e impactando diretamente países produtores como o Brasil.

O debate demorou a ganhar corpo e escrevi vários artigos alertando sobre o caos que está se vislumbrando.

Mas, ao longo de 2025, a realidade se impôs. A partir do segundo semestre, temas como deságio, preços abaixo das referências internacionais e assimetrias na cadeia global do cacau passaram a ocupar o centro das preocupações dos produtores. O que antes era tratado como teoria virou problema concreto na renda e na sobrevivência de milhares de famílias.

Nesse processo, é fundamental registrar o papel do site  Cacau&Chocolate, que se consolidou como um espaço permanente de reflexão crítica sobre o mercado do cacau. Em um momento em que o setor precisava de profundidade, dados e contexto, o blog abriu espaço para análises consistentes, contribuindo para qualificar o debate público.

Sinais positivos de mobilização institucional

Nos últimos meses, surgiram também sinais importantes de articulação institucional. O Governo do Estado da Bahia demonstrou disposição para ouvir o setor, receber comitivas representativas e abrir canais de diálogo em um cenário de forte tensão econômica para a lavoura cacaueira.

Da mesma forma, a Câmara Setorial do Cacau, sob a liderança de Fausto Pinheiro, tem exercido papel relevante ao organizar o debate, dar voz aos produtores e buscar encaminhamentos técnicos e institucionais para enfrentar a crise. Em um ambiente complexo, essa atuação ajuda a reduzir ruídos e a construir soluções mais consistentes.

A mobilização extrapolou a Bahia. Estados produtores como Pará, Espírito Santo, Rondônia e Amazonas passaram a se posicionar de forma mais coordenada, por meio de federações agrícolas, sindicatos e lideranças regionais. Ficou evidente que a crise do cacau não é localizada, mas nacional e estrutural.

O papel do Movimento SOS Cacau

Nesse contexto, merece destaque o Movimento SOS Cacau, que apoiou manifestações pacíficas e apresentou uma pauta objetiva e compreensível para a sociedade.

– Fim do deságio, com a valorização do preço do cacau em linha com as referências internacionais,

–  Exigência de um percentual mínimo de 35% de cacau na formulação do chocolate, proposta liderada pela senadora Lídice da Mata.

O movimento tem priorizado o diálogo institucional, a comunicação clara e a mobilização consciente, evitando radicalizações e preservando a legitimidade da pauta junto à sociedade e aos formuladores de políticas públicas.

O desafio que permanece

A comoção finalmente aconteceu. Mas é preciso registrar, com responsabilidade: comoção, por si só, não resolve crises estruturais. A experiência recente do setor mostra que, passado o pico da pressão, o ritmo das respostas tende a diminuir.

O desafio agora é transformar mobilização social e boa vontade política em ações estruturantes, capazes de garantir previsibilidade, concorrência justa e sustentabilidade econômica para quem produz cacau no Brasil.

Enquanto o produtor, como classe, não se mantiver organizado, informado e protagonista das decisões estratégicas, o risco de repetição dos ciclos artificiais de alta e queda continuará existindo.

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