
No Sul da Bahia, já deixou de ser novidade a presença marcante de mulheres na liderança dos novos negócios que se consolidam enquanto reconstroem a cultura e a economia do cacau. À frente da Agrícola Cantagalo, Cláudia Sá é uma empreendedora de referência entre quem já plantava cacau e sobreviveu à devastação da vassoura-de-bruxa, e para quem já chegou nesta vida nova da cacauicultura, apostando muito em inovação. A mais recente mobilização nacional de produtores tem o seu apoio, mas a voz serena da empresária soa como um contraponto elegante e propositivo ao discurso mobilizador dos líderes do movimento.

A Revista Mercantil conferiu o sucesso dela como empresária rural, dias após o início das manifestações deste janeiro e alguns dias antes da conquista da medalha de ouro no CoEx (Cocoa off Excellence) 2025, entre 10 finalistas de vários países. Voltou de Amsterdam com a medalha e uma decisão, diante da queda nos preços: em vez de investir em cacau a pleno sol em Barra, no Oeste baiano, vai aproveitar áreas abertas perto de casa de olho no menor custo de implantação e na alta produtividade já comprovada nos cacauais sem a sombra das matas.
Em vez de bradar contra a concorrência do cacau importado da África, denunciar riscos fitossanitários ou pedir intervenção estatal para garantir bons preços, encurta o caminho até o centro do problema. Numa referência direta ao saudosismo dos tempos áureos, quando a amêndoa valia ouro, não faz arrodeio: “não tem espaço mais pra isso”. Ela defende a máxima profissionalização da atividade em todas as etapas do negócio, e não apenas na produção, certa de que produzir muito gastando muito mantém a conta desequilibrada contra quem produz e aprisiona o empresariado do agronegócio do cacau como escravo da volatilidade dos preços.

MUITO ESPAÇO PARA CRESCER
Vê-se pelos olhos que o ex-banqueiro e cacauicultor Ângelo Calmon de Sá dotou a filha de outros talentos bem apreciados no mundo dos negócios, como a capacidade de enxergar adiante. A médica veterinária aprendeu muito sobre cacau com o pai, iniciado nesta atividade ainda nos anos 1960. Parte da longa caminhada contra a vassoura-de-bruxa se deu nos cacauais da Cantagalo, onde foram testadas mais de 800 variedades, até encontrar as plantas mais resistentes. Dessa pesquisa surgiram duas muito utilizadas nas plantações brasileiras, PS 1319 e FA 13. Em 2024, com a cotação internacional nas alturas, ela bancou a decisão de investir 60% da receita do grupo em tecnologia e inovação – incluindo renovação das áreas, assistência técnica, adensamento e mecanização.

A crise da hora, com as moageiras pagando R$ 170 por arroba de amêndoa só reforça o caminho da inovação como melhor alternativa. Mesmo em franca recuperação, a cacauicultura brasileira ainda produz metade do que saia dos velhos cacauais, antes da vassoura-de-bruxa. Hoje só a Costa do Marfim exporta mais de 2,2 milhões de toneladas a cada ano. A desproporção aplicada à lógica de um mercado internacional controlado por apenas 10 grandes empresas aniquila, na prática, os argumentos sobre as condições sociais e ambientais em que Gana e Costa do Marfim produzem 70% do cacau do mundo. Ou seja: há muito espaço para crescer.

Localmente, é difícil supor a superação das 3 gigantes mundiais instaladas em Ilhéus, pela pequena e média agroindústria emergente de chocolates finos com certificação de origem. Cargill, Olam e Bary Callebut têm capacidade ociosa esperando o que as fazendas brasileiras ainda não conseguem produzir. O poder delas no mercado internacional é incontornável, por isso nunca foram um problema para o cacauicultor Ângelo Sá e se mantêm como ótimos clientes da filha dele.
Da mesma forma, na condução de seu grupo empresarial, Cláudia não se alinha a capitalistas avessos a riscos, nem a liberais ávidos por socorro estatal, quando as leis de mercado cobram prejuízos dos menos capazes. Por coerência ou por absoluto pragmatismo, o foco da Agrícola Cantagalo está mesmo no aumento de produtividade, da qualidade e em busca de novos mercados como resposta à volatilidade dos preços. Opção lúcida, considerando o contexto geopolítico. Melhor cuidar cada vez melhor dos cacaueiros, do que esperar medidas protecionistas do governo brasileiro contra produtos africanos – ainda mais quando o Mercosul finalmente caminha para fechar o acordo com a União Europeia.
NOVA REALIDADE
“É difícil, é trabalhoso, é pra médio e longo prazo, mas a gente tem que entender que o preço não vai sustentar a baixa produtividade”, argumenta. A região cacaueira oscila entre 18 e 22 arrobas por hectare, perto na média nacional de 23 arrobas por hectare. “Se a gente ama e é apaixonado pelo cacau, a gente precisa entender que não tem como continuar com essa produtividade,” referindo-se ao tradicional sistema cabruca. “Quem produz nessa faixa vai sobreviver na alta, com o cacau a U$ 7 mil, mas isso não é permanente”, pondera Cláudia. A cotação atual, a menos de U$ 3.500 por tonelada explica a mobilização dos produtores. Nas contas da Cantagalo, por este preço não se paga o custo de produção.

Em 1.800 hectares com cabruca e sistemas agroflorestais, as 14 fazendas do grupo produzem 40 arrobas por hectare, mas a meta para os próximos anos é chegar perto de 80. Enquanto persegue seguidos ganhos de produtividade, a Cantagalo se consolida no ranking das 10 melhores amêndoas de cacau brasileiras, sobrevive e convive com a volatilidade dos preços.
O tradicional cacau sul-baiano é bem apreciado pelo mercado bean to bar (da amêndoa de cacau para a barra de chocolate). É a indústria local de chocolates finos, responsável, em grande medida, pela recuperação progressiva da economia da região. Estes clientes compram por preços até 3 vezes superiores ao valor pago pelas moageiras pelo bulk, afetado pela concorrência africana e voltado para a grande indústria de chocolate.

Hoje, 10% das amêndoas saídas das fazendas do grupo tocado por Cláudia Sá vão direto para este mercado mais exigente quanto à qualidade. Os outros 90% e, num futuro, a produção do Oeste vier a agregar, se não forem absorvidos pelo bean to bar, terão compra garantida pelas 3 gigantes. No auge da cacauicultura brasileira, elas chegaram a processar 400 mil (900 )toneladas de amêndoas por ano. Hoje operam com capacidade ociosa e estão prontas para absorver safras cada vez maiores.
APROVEITAR 100% DO CACAU
Para além do mercado tradicionalmente voltado à produção de chocolate, os resultados do investimento permanente em inovação animam a líder da Cantagalo a redobrar a aposta em pesquisa científica, de olho no aproveitamento completo da fruta. No pior momento, quando a cotação da amêndoa chegou a U$ 2.300 por tonelada, Cláudia experimentou um acréscimo de 30%na receita por conta da venda de polpa e mel. Naquela altura, sem estruturar as fazendas para ganhos em escala, estas novidades chegaram a representar 30% do faturamento do grupo. Além de cacau, há mais de 30 anos a Cantagalo se dedica à extração de polpa de outras frutas bem adaptadas na cabruca, como açaí, graviola e cupuaçu.

Cláudia Sá fala com entusiasmo sobre a parceria da Cantagalo com a Unicamp, para aprofundar pesquisas sobre a sibira, ou placenta do cacau. Ela conta da surpresa dos cientistas da Universidade com a concentração de pectina numa parte normalmente descartada quando as amêndoas são separadas.A pesquisa oferece segurança para investir no desenvolvimento de uma solução para o problema da escala de produção de sibira: a pectina tem mercado certo na indústria de alimentos como espessante natural nutritivo e saudável.
O mercado de commodities agrícolas é volátil por natureza, mas o cacau, além de tudo, é incomparável em termos de liquidez. Nenhum produto agrícola se converte em dinheiro tão rapidamente. A “fórmula Cantagalo” que Cláudia Sá herdou e vem aperfeiçoando, é compartilhada sem segredo: alcançar custos que mantenham os negócios rentáveis quando o mercado joga os preços para baixo e permitam acumular ganhos quando a cotação sobe.

Além da liquidez certa, investir em cacau é apostar num mercado que cresce mais ou cresce menos, mas só cresce. Os preços oscilam de acordo com os ventos e tempestades de mercado sobre os papéis digitais das bolsas de Londres e Nova Yorque, mas o crescimento do mercado global de cacau e chocolate é certo. As projeções para os próximos 5 anos indicam uma taxa de crescimento anual composta de 3,4%, com os negócios internacionais acima de U$ 34 bilhões em 2030. O mercado de chocolate deve crescer a 4,2% ao ano, com movimentação estimada em U$ 174 bilhões, em 2030.
Com brilho nos olhos e sem medo de concorrentes, pragas e da volatilidade dos preços, Cláudia Sá acredita na busca por alimentos saudáveis e com características que melhoram a saúde. A concentração de cacau e seus derivados nas barras de chocolates serão, a médio e longo prazo, uma exigência dos consumidores bem informados. Isso elevara o consumo da matéria prima cacau e manteiga de cacau e consequentemente ajudará na sustentabilidade da cadeia : “O potencial do produtor de cacau é gigante, basta que seja explorado todo o fruto e o consumidor tenha conhecimento dos benefícios de ingerir essa fruta, que a milênios já era conhecida como alimento dos Deuses.
Ernesto Marques, na Revista Mercantil
(Fotos Redes Sociais Agrícola Cantagalo)






