
Paulo Peixinho
Produtor de cacau — Sul da Bahia | Brasil

A reconstrução da cadeia cacau–chocolate–floresta não será resultado apenas de preços elevados. Ela dependerá da capacidade de compreender como o sistema funciona, interpretar dados e tomar decisões baseadas no conhecimento.
A Bahia e o cacau são quase sinônimos.
Ao longo dos últimos 125 anos, a economia cacaueira, a história do Estado e a literatura evoluíram juntas, moldando a identidade de uma região e de seu povo.
Ao longo dos ciclos de prosperidade e declínio, os produtores de cacau permaneceram comprometidos com seu trabalho diário, enfrentando desafios e aproveitando oportunidades.
A chegada da devastadora Vassoura-de-Bruxa representou, para muitos, o fim da cacauicultura. Durante anos, a economia do cacau tornou-se sinônimo de crise, endividamento e derrota.
Mesmo assim, muitos produtores permaneceram em suas propriedades. Como costumam dizer os resistentes, continuaram acreditando no cacau. Muitos empreendedores persistiram, investiram, inovaram e mantiveram viva uma atividade que parecia destinada a desaparecer.
Como tantas vezes acontece nos mercados de commodities, um novo ciclo de preços elevados trouxe renovado otimismo. Novos investidores chegaram, novas técnicas foram adotadas e novas práticas passaram a fazer parte das operações do dia a dia.
Naturalmente, a queda dos preços após a forte valorização gerou insatisfação. No entanto, talvez o aspecto mais importante desse período seja outro: a região cacaueira do Sul da Bahia saiu de um estado de acomodação.
O cacau voltou a despertar atenção. Retornou ao centro dos debates econômicos, empresariais e políticos. Mais uma vez atraiu investidores, pesquisadores e a sociedade em geral.
Este é um momento decisivo para olhar para o futuro e reconstruir a cadeia de valor cacau–chocolate–floresta.
Entretanto, essa reconstrução exige algo fundamental: conhecimento.
Conhecimento sobre produção, mercados, indústria, comércio internacional, sustentabilidade, logística, qualidade, agregação de valor e gestão de riscos.
Nos últimos meses, especialmente neste ano eleitoral, circularam muitas mensagens contendo equívocos técnicos sobre o funcionamento da cadeia produtiva.
A quem interessa a desinformação?
Seria apenas falta de conhecimento?
Talvez 2026 seja lembrado na história da economia do cacau como um verdadeiro exame para todos os atores da cadeia: produtores, cooperativas, indústria, exportadores, pesquisadores e formuladores de políticas públicas.
Os preços podem voltar a subir. Um novo evento de El Niño poderá alterar as condições de produção. A indústria poderá conviver com chocolates produzidos a partir do cacau tradicional e com novas alternativas desenvolvidas pela tecnologia.
Tudo isso é possível.
Mas continua sendo apenas uma hipótese.
Os mercados reais não se movem por desejos, crenças ou discursos. Antes e depois de qualquer ciclo de alta ou de baixa, continuam exigindo dados, análise técnica, capacidade de adaptação e racionalidade econômica.
É precisamente por isso que o futuro do cacau será construído com conhecimento.
No final de 2026, a Bahia sediará o Salon du Chocolat Bahia 2026, um dos mais importantes eventos internacionais dedicados ao chocolate e ao cacau. Mais do que uma feira comercial ou uma vitrine de negócios, será uma oportunidade histórica para apresentar ao mundo a força do cacau de origem brasileira, a riqueza da Mata Atlântica e a capacidade de inovação construída ao longo de mais de um século de tradição cacaueira.
O evento reunirá produtores, pesquisadores, líderes industriais, chocolatiers, investidores e consumidores de diversas partes do mundo. Será um fórum único para discutir tendências, sustentabilidade, tecnologia, qualidade, criação de valor e os desafios que moldarão o futuro do setor cacaueiro.
Para a Bahia, trata-se de uma oportunidade singular de reafirmar seu papel histórico e estratégico no cenário global do cacau. Para os produtores, é a oportunidade de demonstrar que o futuro da cacauicultura depende não apenas de preços elevados, mas também da capacidade de produzir mais, produzir melhor e produzir de forma sustentável por meio do conhecimento, da inovação e da boa gestão.
Que os produtores participem não apenas para celebrar preços favoráveis, mas também para celebrar novas formas de produzir, processar, comercializar e agregar valor ao cacau. Que o Salon du Chocolat Bahia 2026 seja lembrado como um marco de um novo capítulo da cacauicultura brasileira: mais moderna, mais competitiva, mais conectada ao mundo e construída sobre uma sólida base de conhecimento.
Porque o futuro da cacauicultura não depende apenas do mercado.
Depende da capacidade de aprender, de inovar e de construir conhecimento coletivo.
E, acima de tudo, depende da disposição de transformar conhecimento em ação.






