
Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

Durante décadas, o produtor brasileiro de cacau aprendeu a acompanhar a Bolsa de Nova Iorque.
A lógica parecia simples. Quando a Bolsa subia, os preços pagos ao produtor tendiam a subir. Quando a Bolsa caía, os preços também recuavam. Mais tarde, com a estabilização econômica promovida pelo Plano Real, tornou-se necessário acompanhar também o dólar.
Durante muito tempo, essas duas variáveis foram suficientes para explicar a maior parte dos movimentos do mercado.
Nas últimas décadas surgiu uma terceira variável, menos conhecida, porém cada vez mais importante: o diferencial.
De forma simplificada, o diferencial é o prêmio ou desconto aplicado à cotação da Bolsa. Ele funciona como um mecanismo de ajuste entre a realidade global e a realidade local. Quando existe escassez de matéria-prima, os compradores tendem a pagar prêmios para garantir abastecimento. Quando existe excesso de oferta ou menor interesse comprador, surgem descontos.
Grande parte das discussões recentes da cadeia produtiva gira em torno do diferencial ou deságio quando há desconto.Produtores frequentemente questionam por que existem descontos em determinados momentos. Indústrias argumentam que esses movimentos refletem as condições do mercado físico.
Entre uma posição e outra existe um problema recorrente: a dificuldade de comunicação.
Nem sempre os mecanismos de formação do diferencial são apresentados de forma clara para todos os participantes da cadeia.
Essa falta de compreensão gera desconfiança, conflitos e interpretações divergentes. Quanto maior a transparência, menor tende a ser o nível de conflito.
O crescimento da importância do diferencial sugere que o mercado brasileiro precisará evoluir em seus mecanismos de comercialização.
Ferramentas de gestão de risco, contratos a termo, operações de hedge e instrumentos de proteção cambial podem contribuir para reduzir a exposição dos produtores às oscilações do mercado.
Na cacauicultura brasileira, ainda existe amplo espaço para crescimento. E a indústria processadora poderá utilizar instrumentos que reduzam os riscos do produtores, retorno dos contratos de compras e venda a termo, desde que haja garantia de entrega. (fiança ou hipoteca). O produtor vende, a indústria compra e trava o preço na Bolsa, se o mercado cair o produtor não perde, e a indústria perde na compra física e ganha a diferença na bolsa, já que tem acesso a esses mercados, conhecimento e capacidade financeira cobrir margens negativas.
O diferencial deixou de ser uma variável secundária. Hoje, ele representa uma das peças centrais da formação dos preços do cacau no Brasil. Um mercado subjacente ou um segundo mercado.
O produtor moderno precisa entender a interação entre Bolsa, câmbio e diferencial. A renda da atividade depende cada vez mais desse equilíbrio.
Sentar em uma mesa de negociação com seus compradores e propor redução de riscos, para garantir a sua renda é mais produtivo que lamentar que o mercado de cacau no Brasil está com deságio. Afinal, em momentos de escassez houve prêmio ou ágio.
Afinal, há seis meses que se reclamam e nada mudou. Em tese seria o mesmo que reclamar que os preços caíram na Bolsa.
O consumidor tem esse poder, se o chocolate estiver caro não compra. Por isso as chocolateiras criaram o sabor-chocolate produzido com gorduras substitutas do cacau, como alpiste. E agora, grandes empresas já estão fazendo chocolate sem cacau.
Os produtores necessitam vender cacau e as processadoras vender seus produtos do cacau. Ambos precisam ter margens positivas para sobreviverem.

Figura 1 – Evolução do preço do cacau no Brasil, Bolsa de Nova Iorque e diferencial (2014–2026)






