O futuro do Cacau não está na África
Uma reflexão sobre competitividade, criação de valor e o posicionamento estratégico do cacau brasileiro no mercado global
Por Paulo Peixinho
Produtor de cacau — Sul da Bahia | Brasil

Nos últimos meses, acostumamo-nos a olhar para a África Ocidental como referência permanente para o mercado de cacau.
Enquanto isso, na América do Sul, países como Equador, Peru e Colômbia ampliam continuamente sua produção.
A recente crise de 2023–2025 comprovou essa dependência. Problemas climáticos, doenças e a queda da produtividade na África fizeram os preços atingirem níveis históricos. Depois, com a recuperação da oferta e a mudança das expectativas, os preços voltaram a cair.
Mas há uma pergunta que precisamos fazer: até quando o futuro do cacau brasileiro será definido apenas pelo que acontece na África? A resposta deveria ser simples: não mais.
Os produtores brasileiros precisam mudar o foco. Empresas que dedicam mais tempo a observar seus concorrentes do que a compreender seus clientes acabam perdendo competitividade. Quem garante a sobrevivência de uma empresa não é o concorrente. É o cliente.
Mais do que vender amêndoas, precisamos construir uma nova cultura. Precisamos elevar a cultura do cacau ao mesmo nível de sofisticação da cultura do vinho.
O vinho deixou de ser apenas uma bebida. Tornou-se uma experiência que envolve origem, terroir, castas, métodos de produção, harmonização, turismo e histórias. O cacau pode seguir o mesmo caminho.
Precisamos falar menos sobre arrobas e mais sobre origem, identidade, qualidade, diversidade genética, perfis sensoriais, fermentação, sistemas agroflorestais e as pessoas que produzem o cacau.
O Brasil possui atributos que poucos países conseguem reunir: diversidade genética, diferentes biomas, sistemas agroflorestais, rastreabilidade e uma história ligada à conservação da Mata Atlântica.
Valor é construído por conhecimento, informação, relacionamento e credibilidade.
Também precisamos evitar desperdiçar energia em conflitos internos. Divergências existirão, mas não podem substituir o esforço de ampliar mercados e fortalecer a imagem do cacau brasileiro.
O mundo mudou. A inteligência artificial, a automação e novos modelos de negócios estão transformando todos os setores, inclusive a agricultura.
O sucesso do cacauicultor dependerá de conhecer profundamente sua propriedade, maximizar o uso da terra, elevar a produtividade, produzir cacau de qualidade, utilizar inteligência artificial no dia a dia e compreender as necessidades do cliente.
Quando deixarmos de olhar apenas para os concorrentes e passarmos a olhar para quem realmente compra o nosso produto, estaremos construindo o nosso próprio futuro.
Porque o futuro do cacau não será decidido na África. Será decidido pela capacidade de cada origem de criar valor para o cliente. E o Brasil reúne todas as condições para liderar essa nova fase da cacauicultura mundial






