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Depois do vestibular

A cadeia global do cacau precisa se tornar antifrágil

Paulo Peixinho  |  Produtor de cacau

 

Recentemente escrevi que 2026 seria o ano do vestibular da cadeia global do cacau e do chocolate.

Depois do choque extraordinário dos preços entre 2023 e 2025, chegou a hora da prova.

O mercado passou por uma experiência que expôs suas fragilidades. Produção concentrada geograficamente, estoques reduzidos, doenças, clima, baixa produtividade, dificuldades de financiamento, preços explosivos e, na outra ponta, uma indústria obrigada a aumentar preços, reduzir gramaturas, reformular produtos e enfrentar a reação do consumidor.

O choque foi enorme. Mas será que foi realmente imprevisível?

Na linguagem de Nassim Nicholas Taleb, talvez estejamos muito mais próximos de um cisne branco do que de um cisne negro.

Os sinais estavam ali.

A cadeia global sabia da concentração da produção. Sabia da idade dos cacaueiros africanos. Sabia dos problemas fitossanitários. Sabia da vulnerabilidade climática. Sabia da pobreza de grande parte dos produtores. Sabia que estoques baixos diminuíam a margem de segurança do sistema.

O que não se sabia era exatamente quando e com que intensidade essas fragilidades apareceriam simultaneamente no preço.

E apareceram.

O cacau ultrapassou níveis que poucos modelos imaginavam e obrigou todos os participantes da cadeia a aprender rapidamente.

Mas sobreviver à crise não significa ter aprendido com ela.

É aqui que entra outro conceito de Taleb: a antifragilidade.

Há uma diferença importante entre ser robusto, resiliente e antifrágil.

O frágil quebra com o choque.

O resiliente recebe o choque, resiste e procura voltar ao estado anterior.

O antifrágil vai além: usa o choque para ficar melhor.

Esse talvez seja o verdadeiro vestibular do cacau.

Se depois da maior crise de preços das últimas décadas a cadeia simplesmente tentar reconstruir o sistema que existia antes dela, terá desperdiçado a crise.

Precisamos construir uma cadeia que aprenda com a volatilidade.

Para o produtor, antifragilidade significa reduzir a dependência exclusiva da cotação internacional: produtividade, qualidade, diversificação, controle de custos, reservas financeiras, diferentes canais de comercialização e capacidade de agregar valor.

Para a indústria, significa compreender que uma matéria-prima permanentemente barata, produzida por agricultores economicamente frágeis, não constitui segurança de abastecimento. Ao contrário: a fragilidade do produtor acaba se transformando na fragilidade da própria indústria.

Para os países produtores, significa não depender apenas do crescimento da produção. É necessário desenvolver processamento, qualidade, conhecimento, tecnologia, mercado interno e novas formas de captura de valor.

E para toda a cadeia significa abandonar uma ideia confortável: a de que estabilidade é sinônimo de segurança.

Taleb nos ensina justamente a desconfiar dessa aparência.

Longos períodos de tranquilidade podem esconder fragilidades que somente aparecem quando chega o choque.

O cacau viveu seu choque.

Agora vem a pergunta mais importante:

o que ficou mais forte depois dele?

Se a resposta for “nada”, não aprendemos.

Se produtores, cooperativas, traders, indústrias, governos e consumidores simplesmente esperarem que os preços retornem ao antigo equilíbrio para que tudo volte a funcionar como antes, estaremos reconstruindo as mesmas vulnerabilidades.

O verdadeiro legado de 2023–2025 não deveria ser um preço de US$ 10 mil, US$ 12 mil ou US$ 3 mil por tonelada.

Deveria ser uma nova arquitetura para a cadeia.

Uma cadeia capaz de sobreviver quando o preço cai.

Capaz de produzir quando o clima muda.

Capaz de remunerar o produtor sem destruir a demanda.

Capaz de enfrentar doenças sem colocar em risco o abastecimento mundial.

E, principalmente, capaz de aprender com os próprios choques.

Em 2026, portanto, o vestibular não pergunta qual será o próximo preço do cacau.

A pergunta é muito mais difícil:

quando chegar o próximo choque, estaremos novamente tentando sobreviver ou teremos aprendido a crescer com ele?

O futuro do cacau talvez pertença menos aos que conseguirem prever o próximo cisne e mais aos que construírem sistemas capazes de conviver com cisnes de qualquer cor.

A cadeia global do cacau não precisa apenas ser mais

resistente. Precisa se tornar antifrágil.

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