
Heleno Nazário
Uma ideia iniciada em 2018 pelos professores Daniel Piotto e Ricardo Gabriel de Almeida Mesquita vem gerando resultados expressivos para a ciência, a tecnologia e o setor florestal. O que começou como uma proposta para avaliar o potencial da madeira de Erythrina poeppigiana na produção de laminados evoluiu para um amplo programa de pesquisa que hoje reúne diferentes produtos, tecnologias e aplicações para a espécie.
Coordenado pelos professores Ricardo Gabriel de Almeida Mesquita e Daniel Piotto, com a participação da professora Mara Lúcia Agostini Valle, todos do Centro de Formação em Ciências Agroflorestais (CFCAF) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), o projeto busca alternativas tecnológicas para o aproveitamento da madeira de Erythrina poeppigiana.
A espécie foi introduzida no sul da Bahia para o sombreamento dos cacauais e tornou-se amplamente distribuída na região. Apesar de seu rápido crescimento e abundância, a madeira apresenta baixa densidade e poucos usos comerciais consolidados.
Conforme o professor Daniel Piotto, a Erythrina poeppigiana é uma espécie nativa da América Central e do norte da América do Sul que foi introduzida no sul da Bahia a partir das décadas de 1960 e 1970. A espécie foi pensada para compor os sistemas agroflorestais de cacau, conhecidos como ‘derruba total’, implementados em especial durante o programa PROCACAU, que converteu mais de 100 mil hectares de cabrucas em cacauais com eritrina.

“Seu uso foi incentivado por apresentar crescimento rápido e boa capacidade de fixação biológica de nitrogênio, características que favoreciam o estabelecimento dos cacaueiros. Durante muitos anos, a espécie foi amplamente disseminada entre produtores rurais e passou a fazer parte da paisagem agrícola da região. Entretanto, com a falta de poda e desbaste das árvores e com a modernização da cacauicultura, o desenvolvimento de clones mais produtivos e as mudanças nas recomendações de manejo, verificou-se que o excesso de sombreamento proporcionado pela eritrina poderia reduzir a produtividade das lavouras”, detalha Piotto.
Em algumas áreas, a espécie também passou a apresentar comportamento invasor, aumentando a necessidade de estratégias para seu manejo e aproveitamento sustentável. Piotto explica que a eritrina é considerada uma espécie exótica invasora com elevada capacidade de propagação, tanto por sementes quanto por estacas, além de rápido crescimento:
“Em áreas onde não há manejo adequado, ela pode se estabelecer espontaneamente e dificultar o estabelecimento de essências nativas da região, principalmente em áreas mais úmidas e próximas a cursos d’água. Por esse motivo, a legislação ambiental da Bahia passou a permitir a retirada da espécie em determinadas situações, principalmente para o manejo da sombra e renovação dos sistemas agroflorestais da região. Nesse contexto, nossas pesquisas buscaram transformar esse material, que muitas vezes seria descartado, em produtos de maior valor agregado, contribuindo para conciliar o manejo da sombra dos cacauais com o aproveitamento da madeira”.
Da baixa densidade à utilidade econômica

O professor Ricardo Gabriel de Almeida Mesquita afirma que o principal objetivo do programa de pesquisa é transformar uma madeira que hoje é pouco aproveitada em matéria-prima para produtos de maior valor agregado. Isso porque a eritrina oferece vantagens para o solo ao natural, mas sua madeira tem pouca importância para uso comercial.
A professora Mara Lúcia Agostini Valle detalha que a baixa densidade da eritrina limita seu emprego em aplicações tradicionais da madeira maciça, ainda mais naquelas que exigem elevada resistência mecânica. Diante desse cenário, os pesquisadores passaram a investigar formas de transformar uma madeira tradicionalmente considerada de baixo valor comercial em matéria-prima para produtos de maior valor agregado.

“Por isso, nossas pesquisas buscaram agregar valor à espécie por meio da sua transformação em materiais engenheirados. Além disso, apesar de ter algumas utilizações, nenhuma delas possui valor agregado. Dependendo da aplicação, a madeira pode ser convertida em lâminas, partículas, fibras ou nanocelulose. Esses materiais tornam-se matéria-prima para diferentes produtos desenvolvidos em laboratório, ampliando as possibilidades de utilização da espécie”, afirma a cientista.
A professora Mara destaca que ao longo do projeto, a equipe desenvolveu e validou, em escala laboratorial, diferentes materiais produzidos a partir da madeira da eritrina, incluindo compensados, painéis de partículas, painéis cimento-madeira, compósitos fibrocimentícios, madeira laminada colada, adesivos sustentáveis e materiais nanoestruturados derivados da celulose. Conforme o professor Ricardo Almeida Mesquita, esses materiais apresentam potencial de aplicação principalmente nos setores moveleiro, da construção civil e de biomateriais.
Esses estudos deram origem a artigos científicos, dissertações, tese de doutorado e outras publicações, demonstrando o potencial tecnológico da espécie.
Novos materiais, novo valor

O professor Ricardo Gabriel de Almeida Mesquita diz que, embora os resultados demonstrem a viabilidade técnica da utilização da espécie, ainda são necessários estudos voltados ao escalonamento industrial e à transferência de tecnologia, etapas essenciais para a chegada desses produtos ao mercado.
Por ainda estarem em fase de desenvolvimento tecnológico, ainda não existe uma estimativa econômica consolidada, explica Ricardo. Entretanto, o projeto demonstra que uma madeira com poucas aplicações comerciais pode ser transformada em matéria-prima para produtos de maior valor agregado e conteúdo tecnológico. Uma das próximas etapas da pesquisa é justamente avaliar a viabilidade econômica e o potencial de transferência dessas tecnologias para o setor produtivo.
Para viabilizar os experimentos e ensaios tecnológicos, foi estabelecida uma parceria entre a UFSB, CEPLAC e a Universidade Federal de Lavras (UFLA), envolvendo os professores Lourival Marin Mendes e José Benedito Guimarães Júnior. Grande parte dos materiais desenvolvidos foi produzida e caracterizada nos laboratórios da UFLA, consolidando uma importante rede de cooperação científica entre as duas instituições.
O professor Ricardo Gabriel de Almeida Mesquita conta que a parceria entre a UFSB e a UFLA surgiu de forma natural a partir da sua trajetória acadêmica. “Realizei minha formação na Universidade Federal de Lavras (UFLA), na área de tecnologia da madeira e painéis à base de madeira, sob orientação do professor Lourival Marin Mendes. Após assumir o cargo de docente na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), mantive a colaboração científica com pesquisadores da UFLA, o que possibilitou a construção desse projeto conjunto.”, explica.

Já no início das pesquisas voltadas ao aproveitamento da madeira da eritrina, Ricardo e a equipe perceberam que a experiência da equipe da UFLA em engenharia de biomateriais, aliada às demandas e ao potencial da espécie no sul da Bahia, criava uma excelente oportunidade para unir competências. A produção científica conjunta já indica a fertilidade dessa aliança, afirma Ricardo:
“Assim foi consolidada uma parceria entre as duas universidades, envolvendo professores, pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação no desenvolvimento de soluções para agregar valor à madeira da eritrina. Ao longo desses anos, essa colaboração já resultou em diversos artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, dissertações de mestrado, uma tese de doutorado, um capítulo de livro e na formação de recursos humanos qualificados, consolidando uma importante rede de pesquisa entre a UFSB e a UFLA”.
As pesquisas contaram com recursos do WRI Brasil e do Instituto Arapyaú, por meio do Parque Científico e Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSul Bahia), fortalecendo a cooperação entre UFSB e UFLA e possibilitando a formação de recursos humanos em diferentes níveis, desde a iniciação científica até a pós-graduação.
Um desses estudos em nível de pós-graduação foi desenvolvido pela arquiteta, urbanista, engenheira civil e servidora da UFSB e doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UESC), Lívia Berti Sanjuan Farias. A pesquisa de Lívia avaliou a utilização da madeira de eritrina na produção de compensados e MDPs, incluindo o desempenho de diferentes sistemas adesivos e uma análise dos impactos ambientais do processo produtivo. Os resultados demonstraram que a espécie possui potencial para aplicação em produtos engenheirados de madeira, contribuindo para ampliar as possibilidades de aproveitamento sustentável dessa matéria-prima e gerar conhecimento para futuras aplicações comerciais.
Lívia explica que o processo de transformação estudado por ela começa com a obtenção da madeira vinda dos sistemas agroflorestais: “Dependendo do produto que será desenvolvido, essa madeira é transformada em lâminas, partículas, fibras ou celulose. Em seguida, esses materiais são processados com adesivos ou matrizes cimentícias para produzir diferentes materiais engenheirados, que passam por ensaios físicos, mecânicos, térmicos e ambientais para avaliar seu desempenho e sua viabilidade técnica”, relata a pesquisadora.
Principais publicações e produtos científicos gerados
Apesar dos atrasos ocasionados pela pandemia da COVID-19, o projeto foi consolidado ao longo dos últimos anos e ampliou suas linhas de pesquisa voltadas ao aproveitamento tecnológico da madeira de Erythrina poeppigiana.
Os resultados alcançados demonstram como a pesquisa científica pode transformar um recurso florestal pouco valorizado em uma oportunidade de inovação, formação de recursos humanos e desenvolvimento sustentável. A trajetória do projeto reforça o papel da UFSB e de suas parcerias institucionais na geração de conhecimento aplicado às demandas da região cacaueira e da bioeconomia brasileira.
PRODUTO/LINHA DE PESQUISA |
O QUE FOI EFETIVAMENTE DESENVOLVIDO E AVALIADO |
ARTIGO |
| Compensado utilizando diferentes sistemas adesivos | Avaliou a viabilidade técnica e ambiental da produção de compensados de Erythrina poeppigiana utilizando adesivos fenol-formaldeído, ureia-formaldeído e poliuretano bicomponente à base de óleo de mamona, incluindo caracterização física, mecânica e análise do consumo de energia incorporada e emissões de CO₂. | Sustainable use of Erythrina poeppigiana in formaldehyde-free plywood: environmental and energy analysis |
| Painéis cimento-madeira | Desenvolveu painéis cimento-madeira reforçados com partículas de E. poeppigiana submetidas a tratamento em água quente e cura por carbonatação acelerada, avaliando propriedades físicas e mecânicas. | Effect of accelerated carbonation on the properties of wood-cement panels from the species Erythrina poeppigiana |
| Compensado com adesivo modificado por nanolignina | Avaliou a incorporação de nanolignina em formulações de adesivo tanino-formaldeído destinadas à produção de compensados de E. poeppigiana, verificando os efeitos sobre as propriedades do adesivo e do painel, incluindo resistência ao cisalhamento e emissões de formaldeído. | Partial replacement of tannin with nanolignin in adhesive formulations for bonding plywood produced with Erythrina poeppigiana wood |
| Compósitos fibrocimentícios extrudados | Desenvolveu compósitos fibrocimentícios extrudados reforçados com partículas de E. poeppigiana mineralizadas com sulfato de alumínio e submetidas à carbonatação acelerada, avaliando desempenho físico, mecânico, térmico e microestrutural. | Effect of mineralization of Erythrina poeppigiana particles and accelerated carbonation on the properties of fiber cement |
| Compensado com nanocristais de celulose (CNC) | Avaliou a incorporação de nanocristais de celulose em adesivo fenol-formaldeído utilizado na produção de compensados de E. poeppigiana, investigando os efeitos sobre o comportamento do adesivo e as propriedades físicas e mecânicas dos painéis. | The effect of cellulose nanocrystals on the properties of Erythrina poeppigiana plywood |
| Painéis de partículas (Aglomerados e MDP) | Avaliou a viabilidade técnica e ambiental da produção de painéis de partículas de E. poeppigiana, considerando diferentes densidades e configurações estruturais, com análise conjunta do desempenho físico-mecânico, demanda energética e pegada de carbono. | Technical and environmental performance of particleboards from Erythrina poeppigiana in agroforestry systems |






