Brasil fortalece agenda de cooperação para o cacau nas Américas com participação técnica da CEPLAC
Reunião do IICA, na Costa Rica, discute o PROCACAO e novas oportunidades de cooperação. Plano Brasil–Panamá prevê intercâmbio científico, capacitação e tecnologias para fortalecer a cadeia produtiva do cacau

O Brasil defendeu a criação de um mecanismo de cooperação para fortalecer a cadeia do cacau nas Américas, durante a Segunda Reunião Extraordinária do Comitê Executivo do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), realizada nesta quinta-feira (29), em San José, na Costa Rica. A proposta busca conectar capacidades científicas, enfrentar desafios comuns e ampliar as oportunidades de geração de valor e renda nos países produtores.
A posição brasileira foi apresentada pelo secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Cleber Soares, que participou presencialmente do encontro. O diretor da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), Thiago Guedes Viana, acompanhou os trabalhos de forma remota, a partir do Brasil. O órgão colocou sua experiência científica e técnica à disposição da construção da iniciativa.
Incluída na programação como PROCACAO, a iniciativa foi apresentada pelo IICA como uma proposta de Mecanismo Cooperativo Hemisférico para a Cadeia do Cacau. O nome definitivo, o alcance, o modelo de governança, as formas de participação e a sustentabilidade financeira ainda estão em análise.
Em sua manifestação, Cleber Soares ressaltou a importância econômica e social do cacau, a presença da agricultura familiar na produção e as oportunidades de crescimento com resiliência e agregação de valor. Ele colocou a experiência da CEPLAC e as capacidades científicas brasileiras à disposição da construção da iniciativa e defendeu agilidade para que a cooperação gere benefícios aos produtores.
“O Brasil reúne conhecimento científico e experiência produtiva para contribuir com uma agenda de cooperação que gere benefícios concretos para os países das Américas. Nosso objetivo é aproximar pesquisa, inovação e assistência técnica para ampliar a sustentabilidade, melhorar a qualidade do cacau e criar mais oportunidades de renda para os produtores. A CEPLAC tem uma contribuição estratégica nesse esforço”.

Cooperação para enfrentar desafios comuns
A diretora de Cooperação Técnica do IICA, Valeria Piñeiro, apresentou os avanços da análise da proposta. O objetivo é desenvolver uma plataforma regional capaz de conectar instituições e conhecimentos, responder a problemas comuns e complementar as iniciativas existentes, sem duplicar esforços.
O diagnóstico apresentado relacionou as oportunidades de mercado às dificuldades enfrentadas nas regiões produtoras: lavouras envelhecidas, baixa adoção de tecnologia, limitações de assistência técnica e de financiamento, desafios sanitários e deficiências de infraestrutura na pós-colheita, na logística e na comercialização.
A abordagem considera que os ganhos de produtividade precisam estar associados à qualidade, à organização dos produtores e às condições de adoção das tecnologias. Custos, disponibilidade de materiais, acesso a serviços e riscos enfrentados pelas famílias produtoras devem orientar a definição das ações.
Entre os possíveis temas de cooperação estão produtividade, sistemas agroflorestais, adaptação climática, sanidade vegetal, cádmio, qualidade, rastreabilidade, acesso a mercados e intercâmbio de conhecimentos. As prioridades serão discutidas com os países, levando em conta as iniciativas em andamento e as necessidades ainda não atendidas.
CEPLAC conecta ciência, estratégia e execução técnica
Ao apresentar as capacidades científicas disponíveis nas Américas, o IICA destacou a contribuição da CEPLAC em pesquisa e transferência de conhecimentos nas áreas de genética, sanidade, produção e sistemas agroflorestais. A instituição brasileira foi citada ao lado de organizações científicas de outros países, o que evidencia o potencial de articulação entre competências complementares.
Na apresentação, o instituto mencionou expressamente o Plano Inova Cacau 2030 como exemplo de instrumento nacional que conecta produtividade e qualidade à pesquisa, à extensão e às dimensões sociais e ambientais. Para o Brasil, o plano é uma referência estratégica para organizar a atuação do país e identificar oportunidades de colaboração no debate sobre o mecanismo hemisférico.
A participação técnica da CEPLAC poderá envolver diagnóstico de demandas, intercâmbio de metodologias, capacitação de equipes, comparação de protocolos laboratoriais e formulação de iniciativas de pesquisa, validação e demonstração tecnológica. A avaliação de soluções em diferentes ambientes produtivos também pode ampliar o conhecimento sobre manejo, resistência a doenças e adaptação ao clima.
“A disposição dos países de unir esforços pelo cacau e a apresentação do IICA mostram que temos uma base científica importante nas Américas e que podemos avançar ao conectar essas capacidades. Em sintonia com o Plano Inova Cacau 2030, a CEPLAC pode contribuir com sua experiência em genética, sanidade, sistemas agroflorestais e qualidade. Queremos transformar essa cooperação em soluções acessíveis aos produtores, com mais rentabilidade, produtividade e conservação ambiental, somando conhecimentos para enfrentar os desafios das mudanças climáticas”, afirmou Thiago Guedes.
Qualidade e valor na origem ampliam oportunidades
Os dados apresentados pelo IICA dimensionam a relevância da região. Segundo o panorama exposto na reunião, as Américas produziram aproximadamente 1,15 milhão de toneladas de cacau na safra 2024/2025, com Equador, Brasil, Peru, Colômbia e República Dominicana entre os principais produtores regionais.
A apresentação também apontou que cerca de 90% das exportações mundiais de cacau fino ou de aroma têm origem na América Latina. Essa posição reforça as oportunidades de investir em qualidade, diferenciação e valorização da origem, o que aproxima a produção agrícola do processamento e do desenvolvimento de produtos.
O IICA ressaltou que a competitividade depende de fatores que vão além da lavoura. Fermentação, secagem, armazenamento, regularidade da qualidade, informação comercial e organização da oferta são componentes essenciais para melhorar a inserção dos produtores nos mercados.
A articulação entre organizações de produtores, instituições científicas e empresas pode ampliar a geração de valor nos territórios, com processamento, serviços técnicos e empreendimentos associados à cadeia. O objetivo é criar condições para que as oportunidades comerciais se traduzam em melhores resultados para as famílias produtoras.
Plano Brasil–Panamá organiza uma frente bilateral
Em paralelo à construção do mecanismo hemisférico, o plano de trabalho elaborado para a cooperação entre o MAPA e o Ministério de Desenvolvimento Agropecuário do Panamá (MIDA) estrutura uma proposta bilateral para fortalecer a cadeia produtiva do cacau.
O documento está vinculado ao Memorando de Entendimento firmado entre os ministérios em 28 de agosto de 2025 e organiza prioridades, representantes, produtos esperados e mecanismos de acompanhamento. A vigência inicial prevista é de 24 meses, contados da aprovação do plano ou, conforme acordado, da reunião inaugural do Grupo de Trabalho Conjunto.
Entre as áreas contempladas estão sistemas sustentáveis de produção, sistemas agroflorestais, manejo de sombreamento, conservação dos solos, irrigação e uso eficiente da água. Também estão previstos intercâmbios em manejo integrado de pragas e doenças, boas práticas agrícolas, colheita, fermentação, secagem, armazenamento, processamento, qualidade, inocuidade e rastreabilidade.
As atividades poderão incluir cursos, oficinas, seminários, visitas e missões técnicas, troca de informações, publicações e identificação de oportunidades de pesquisa conjunta. Os cronogramas, as responsabilidades e os produtos serão detalhados pelas instâncias de coordenação e pelas equipes técnicas dos dois países.
A composição proposta prevê a participação da direção da CEPLAC na coordenação institucional brasileira e no Grupo de Trabalho Conjunto. A Coordenação-Geral de Pesquisa e Inovação foi indicada como ponto focal técnico do Brasil, com participação das coordenações regionais, de pesquisadores e de especialistas.
O plano prevê ainda a possibilidade de usar um plano de ação técnico detalhado, elaborado no âmbito da CEPLAC, como referência inicial para a capacitação e o intercâmbio de conhecimentos. A aplicação dependerá de análise, validação e adequação conjunta às demandas identificadas e aos recursos disponíveis.
Próximos passos e benefícios para os produtores
O IICA dará continuidade à análise das capacidades existentes e às consultas aos países para definir o alcance, a governança e o financiamento do mecanismo. O processo considera experiências de cooperação científica em cacau e referências como o PROMECAFÉ e o SICACAO, buscando complementar iniciativas em andamento.
Para o Brasil e os demais países das Américas, a cooperação poderá ampliar o acesso a tecnologias, fortalecer a sanidade das lavouras, melhorar a qualidade e reduzir perdas. Com a contribuição da CEPLAC, a expectativa é aproximar ciência e produção, com foco na resiliência dos sistemas produtivos, na agregação de valor e na renda dos produtores.






