O cenário sociopolítico do setor cacau-chocolate da Bahia

Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

O sul da Bahia retorna ao centro de um debate recorrente: o futuro do cacau. Em ano eleitoral, o tema ganha ainda mais visibilidade e ruído. Entre fatos, versões e fake news, o setor cacau-chocolate-floresta transforma-se em palco de disputas narrativas, onde interesses legítimos se misturam a oportunismos.
A aproximação de candidatos e pré-candidatos às demandas da classe produtora não é novidade. Faz parte do jogo democrático. O político negocia votos; sua lógica é elementar: a insatisfação gera espaço. O problema não está nessa aproximação em si, mas na superficialidade com que ela ocorre.
Há décadas, prevê-se que a política perderia sua dimensão utópica para se tornar mais pragmática e imediatista. Isso não é, por si só, um defeito, desde que haja compromisso com a realidade. No entanto, o que se observa com frequência é um desconhecimento preocupante sobre o setor. Fala-se de cacau sem conhecer o cacau.
Confusões sobre preços internacionais, produção, importação, mecanismos como o drawback e critérios de qualidade são recorrentes e não resistem a uma análise técnica elementar. Isso evidencia não apenas falhas dos agentes políticos, mas também uma lacuna de comunicação eficaz por parte dos produtores.
É preciso reconhecer: se, no passado, os produtores terceirizaram integralmente a responsabilidade pela representação e articulação institucional, essa postura já não se sustenta. Quando a informação não chega de forma organizada, objetiva e consistente, abre-se espaço para distorções e narrativas convenientes.
Mais do que aguardar soluções externas, cabe à classe cacaueira construir uma representação autêntica, formada por quem vive o cotidiano da lavoura, conhece seus desafios e compreende, na prática, as oscilações de mercado, os impactos climáticos, as pragas e a instabilidade econômica.
As soluções necessárias devem ser tecnicamente fundamentadas e inclusivas, contemplando não apenas segmentos específicos, como produtores proprietários, agricultura familiar e assentamentos, mas também o meeiro, figura que emergiu com força após a vassoura-de-bruxa, sustentou inúmeras famílias e, ainda hoje, permanece sem a devida representatividade.
É da vivência que nasce a autoridade. E é a partir de um diálogo qualificado entre os atores da cadeia produtiva e o poder público que se torna possível influenciar decisões no Legislativo e no Executivo, em todas as esferas.
O cacau da Bahia não pode ser reduzido a uma bandeira de ocasião. Seu futuro não será decidido em discursos, mas na capacidade de organização, representação e clareza de quem vive, de fato, da lavoura.
Para isso, o produtor de cacau, independentemente dos preços de mercado, das safras ou dos deságios, precisa ter coragem e autorresponsabilidade para enfrentar seus próprios desafios, sem dar procuração a terceiros ou permitir que “estrangeiros” se autoproclamem seus representantes.






