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Os olhos azuis de Curaçao

Cleber Isaac Filho

 

Aos 78 anos, ele já tinha visto quase tudo que o futebol poderia mostrar.

Já havia comandado seleções gigantes. Já havia enfrentado o Brasil em uma Copa do Mundo. Já havia sentado nos bancos mais nobres do futebol europeu. Já havia sido treinador da seleção holandesa e da seleção russa. Seu nome já estava escrito na história muito antes daquela noite.

Mas nada daquilo o preparou para Curaçao.

A pequena ilha caribenha chegava à sua primeira Copa do Mundo.

Um país de pouco mais de 150 mil habitantes.

Praias de água azul-turquesa.

Povo mestiço.

Raízes africanas profundas.

Religiosidade popular.

Música.

Alegria.

Um lugar que, em muitos aspectos, lembra a Bahia.

Talvez por isso a identificação seja tão fácil. Quem conhece Curaçao reconhece algo familiar. O sorriso do povo. A força da ancestralidade africana. O mar que parece pintura. A capacidade de transformar dificuldades em celebração.

E então veio a estreia.

Logo contra a Alemanha.

Um gigante.

Um tetracampeão mundial.

Ninguém acreditava.

Mas o futebol não pede licença para os roteiros dos poderosos.

E, por alguns minutos eternos, o placar mostrou:

Alemanha 1 x 1 Curaçao.

Naquele instante, o mundo parou.

A torcida de Curaçao explodiu.

Não era um título.

Não era uma classificação.

Era apenas um empate.

Mas para eles valia como uma Copa do Mundo inteira.

E ali, sentado no banco, o velho treinador chorou.

Chorou antes do jogo.

Chorou durante o jogo.

Chorou como uma criança.

Talvez porque naquele momento não estivesse vendo apenas uma partida.

Talvez estivesse vendo sua própria vida passar diante dos olhos.

As vitórias.

As derrotas.

Os amigos que ficaram pelo caminho.

Os jogadores que treinou.

As Copas disputadas.

A filha doente que quase o fez desistir da viagem.

O peso dos anos.

A fragilidade do tempo.

E a certeza de que algumas emoções simplesmente não podem ser compradas.

O que passava pela cabeça dele?

Talvez algo simples:

“Valeu a pena.”

Valeu cada treino.

Cada crítica.

Cada derrota.

Cada noite sem dormir.

Porque, naquele instante, um pequeno país sonhava diante do mundo.

E ele era parte daquele sonho.

As lágrimas desciam pelo rosto.

Os olhos azuis do velho treinador ficaram da mesma cor do mar de Curaçao.

Azuis como o Caribe.

Azuis como a esperança.

Azuis como a infância que o futebol devolve por alguns segundos.

É por isso que o futebol continua sendo o maior espetáculo da Terra.

Não pelos contratos bilionários.

Não pelas correntes de ouro.

Não pelos patrocinadores.

Não pelas redes sociais.

Mas porque ainda consegue arrancar lágrimas verdadeiras de um homem de 78 anos.

Enquanto alguns vestem a camisa amarela apenas como uniforme, aquele velho treinador mostrou ao mundo o que significa vestir uma camisa como quem carrega uma nação inteira no peito.

Curaçao talvez não ganhe a Copa.

Talvez nem passe de fase.

Mas naquela noite já conquistou algo muito maior:

O respeito de quem ainda acredita que futebol é emoção.

E não negócio.

Que essa cena sirva de lembrança para todos os que transformaram a paixão popular em mera mercadoria.

Porque, no fim das contas, o futebol pertence aos que choram.

Não aos que faturam.

Observação: Peço desculpas se fui emocional demais. Ao ver aquele treinador de 78 anos chorando, foi impossível não lembrar do meu pai, que tem idade parecida e ainda se emociona com a vida, e da minha mãe, que segue em recuperação. Talvez por isso essa história tenha me tocado tanto. Às vezes o futebol deixa de ser apenas um jogo e passa a falar de família, amor e esperança.

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