
Por Antônio Carlos Magnavita Maia
Médico e cacauicultor
Duante décadas, aprendemos que o preço do cacau era determinado por três fatores fundamentais: a cotação nas bolsas internacionais, a taxa de câmbio e o diferencial.
Essa explicação continua correta.
Mas já não é suficiente.
Hoje, um quarto fator tornou-se igualmente decisivo: o ambiente regulatório interno.
As regras do mercado, a concorrência, a política comercial, os instrumentos de financiamento, as previsões de safra e as decisões governamentais influenciam diretamente a formação dos preços e o equilíbrio das relações entre produtores, indústria e comércio.
Os mercados internacionais começam a perceber que as narrativas excessivamente otimistas sobre a recuperação da produção mundial de cacau não refletem plenamente a realidade das lavouras africanas.
Persistem problemas estruturais: cacaueiros envelhecidos, baixa renovação dos plantios, doenças, limitações de investimento e crescente instabilidade climática. Soma-se a isso a possibilidade de eventos contingenciais, como o retorno do El Niño e de outros fenômenos climáticos extremos, capazes de comprometer novamente a oferta mundial.
Os fundos internacionais compreendem essa realidade. Também sabem que o cacau possui uma característica única: seu ciclo biológico impede respostas rápidas da produção. Entre plantar um cacaueiro e colher uma safra economicamente relevante passam-se anos. Por isso, qualquer desequilíbrio entre oferta e demanda tende a produzir fortes movimentos nas bolsas internacionais.
Entretanto, enquanto o mercado global precifica esses riscos, o produtor brasileiro continua enfrentando uma realidade distinta.
Produz um dos cacaus mais sustentáveis do planeta, cultivado nos sistemas agroflorestais da Amazônia e da Mata Atlântica, preservando biodiversidade, recursos hídricos, carbono e florestas. Mesmo assim, convive com um deságio persistente que impede que a valorização internacional seja plenamente refletida no preço recebido pelo produtor brasileiro.
Quando poucos compradores concentram a aquisição da matéria-prima, o diferencial deixa de refletir apenas a oferta e a demanda. Passa também a refletir a estrutura oligopsônica do mercado e o poder de negociação concentrado em poucos agentes.
É exatamente por isso que o ambiente regulatório tornou-se parte essencial da solução.
Medidas recentes, como a redução do prazo do drawback, demonstram que decisões regulatórias podem aproximar o mercado interno da realidade econômica, fortalecendo a demanda pelo cacau nacional e reduzindo distorções na formação dos preços.
Mas isso, por si só, não basta.
O Brasil precisa construir uma verdadeira Política de Estado para a cacauicultura, baseada em transparência, concorrência, inteligência de mercado e agregação de valor.
Isso significa:
• transparência diária da paridade de exportação e dos diferenciais praticados no mercado interno;
• previsões oficiais de safra elaboradas por instituições independentes, com metodologia pública, auditável e transparente;
• criação do Observatório Brasileiro do Cacau, reunindo CEPLAC, Embrapa, universidades, cooperativas e representantes dos produtores;
• fortalecimento das cooperativas, com acesso ao crédito e capital de giro;
• implantação de mini-moageiras regionais e de uma central cooperativa de processamento e industrialização;
• ampliação da concorrência entre compradores;
• estímulo ao processamento, à industrialização e à agregação de valor no Brasil;
• valorização da qualidade, da rastreabilidade, da certificação e dos serviços ambientais prestados pela cacauicultura brasileira.
O produtor brasileiro não pede privilégios.
Não pede proteção artificial.
Pede transparência.
Pede concorrência.
Pede regras equilibradas.
Pede apenas participar, de forma justa, da riqueza que ajuda a criar.
Resta, então, uma pergunta inevitável:
Até quando aceitaremos que um dos cacaus mais sustentáveis do planeta continue convivendo com um deságio persistente, enquanto toda a cadeia econômica construída a partir dessa matéria-prima amplia seu valor e sua rentabilidade?
Até quando permaneceremos presos a uma lógica colonial, exportando matéria-prima e importando produtos de maior valor agregado, quando dispomos de conhecimento, tecnologia, capacidade industrial e de um dos maiores mercados consumidores de chocolate do mundo?
O Governo Brasileiro precisa compreender que esta é uma oportunidade histórica.
Os Ministérios da Agricultura e Pecuária; do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços; e do Meio Ambiente, juntamente com o BNDES, o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste e as demais instituições de fomento, devem liderar uma verdadeira Política de Estado para a cacauicultura, fortalecendo a industrialização, ampliando a concorrência, promovendo um ambiente regulatório equilibrado e eliminando as distorções que penalizam o produtor brasileiro.
A verdadeira Lei Áurea do Cacau Brasileiro será conquistada quando o produtor deixar de ocupar a posição mais vulnerável da cadeia produtiva e passar a ser reconhecido e remunerado como seu principal protagonista.
Porque a riqueza do cacau não nasce nas bolsas internacionais.
Ela nasce no campo.
Nas mãos de quem planta, cultiva, preserva, investe, assume os riscos da atividade e produz a matéria-prima que sustenta toda a cadeia do cacau e do chocolate.
Reconhecer e valorizar o produtor não é um privilégio.
É uma questão de justiça econômica.
É uma decisão de inteligência estratégica.
É um ato de soberania nacional.
Uni-vos, cacauicultores brasileiros!
Chegou o tempo de romper a última herança colonial que ainda pesa sobre a cacauicultura nacional.
Chegou o tempo de transformar o produtor em protagonista, fortalecer a indústria brasileira, agregar valor à nossa produção e construir uma cadeia mais justa, transparente e competitiva.
Somente assim escreveremos, com nossas próprias mãos, a verdadeira Nova Lei Áurea do Cacau Brasileiro.






