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Marcelo Gedéon-100 anos de uma história que o cacau da Bahia não pode esquecer

Paulo Peixinho
Produtor de cacau — Sul da Bahia | Brasil

 

21 de agosto de 1926 — 21 de agosto de 2026

´Paulo Peixinho

Hoje, 21 de agosto de 2026, Marcelo Gedéon completaria 100 anos. Um século de uma vida que se confunde, em boa medida, com um dos períodos mais importantes da história econômica e política do cacau baiano.

Falar de Marcelo Gedéon é falar de quem acreditava que o cacau não era apenas uma cultura agrícola. Era uma força econômica, social e política. Era emprego, renda, desenvolvimento regional e, sobretudo, parte da identidade da Bahia. Marcelo esteve entre aqueles que compreenderam essa dimensão.

Sua atuação à frente do Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau (CCPC) colocou seu nome entre as lideranças que procuraram defender os interesses da cacauicultura baiana em um período no qual o setor tinha enorme importância para a economia do estado da Bahia. Mas sua história não ficou restrita às fazendas ou às instituições ligadas ao cacau.

 

Uma viagem que entrou para a história

Em 1962, após a eleição de Lomanto Júnior para o Governo da Bahia, Marcelo Gedéon acompanhou o governador eleito em uma viagem aos Estados Unidos.

A missão tinha objetivos ambiciosos: buscar investimentos para viabilizar o projeto do Centro Industrial de Aratu e, ao mesmo tempo, tratar dos interesses e das perspectivas da economia do cacau.

Marcelo teria participado das conversas com empresários e técnicos norte-americanos, inclusive como intérprete.  Mais do que isso, segundo relato pessoal, teria conseguido abrir portas em um momento particularmente difícil, marcado pelo contexto da Guerra Fria e por uma greve nos portos dos Estados Unidos, que dificultava inclusive a chegada de embarcações nos Estados Unidos.

A história de seu poder de convencimento merece, um dia, uma biografia própria.

Um registro para a história


Com o presidente John Kennedy, registro histórico da missão aos Estados Unidos, em 1962

As fotografias que acompanham esta homenagem ajudam a preservar a memória daquele momento.

Não são apenas imagens antigas. São documentos de uma época em que a Bahia buscava projetar seu futuro, em que o cacau tinha enorme peso na economia estadual e também suas crises periódicas, que forjou um Marcelo Gedéon que transitou entre a produção, a política, os negócios e as relações internacionais. E, por fazer falta nos dias de hoje, que  ele precisa ser lembrado como exemplo.

Registro da mesma passagem histórica,
reunindo autoridades e representantes que participaram daquele encontro nos EUA

Marcelo Gedéon estava, portanto, em uma interseção rara: cacau, política, economia e desenvolvimento.

Um século depois

Hoje, quando o cacau da Bahia enfrenta novamente desafios enormes, lembrar Marcelo Gedéon ganha outro significado. Homenageá-lo reconhecer que, assim como a região plantou cacau, ele plantou a paixão por essa lavoura. Foi um visionário.

Foi aos Estados Unidos para estudar  na Columbia University e conheceu o funcionamento da Bolsa de Cacau de Nova York. Tornou-se corretor no pregão bolsa e construiu uma rede de relações, um networking incomum para um itabunense e cidadão do mundo. Por isso, seu centenário não deveria ser apenas uma data familiar. Deveria ser também uma oportunidade para a cacauicultura baiana olhar para sua própria história.

Memória é patrimônio

As novas gerações precisam conhecer aqueles que vieram antes. Porque nenhuma cadeia produtiva começa hoje. Antes dos atuais produtores, pesquisadores, empresários, instituições e lideranças, houve homens e mulheres que construíram caminhos, enfrentaram crises e defenderam ideias.

Marcelo Gedéon foi um desses homens. Hoje, no centésimo aniversário de seu nascimento, fica a homenagem.  Não apenas ao homem.

Mas àquilo que ele representa: uma geração de produtores e lideranças que acreditou que o cacau poderia ser instrumento de desenvolvimento e que os interesses de quem produz deveriam ser defendidos.

Que seu nome não fique apenas nos documentos antigos, nos jornais e nos arquivos. Que permaneça na memória daqueles que continuam plantando cacau na Bahia. Que permaneça também nas fotografias, nos relatos e nas histórias contadas de geração em geração. Porque preservar a memória de quem ajudou a construir a cacauicultura é também preservar a própria história da Bahia.

Devo a Marcelo a semente ou a paixão pelo cacau, pelo humanismo e pelo desejo de ver o desenvolvimento econômico da Bahia. E outros  tantos ensinamentos de vida. Ainda criança, ir a Fazenda dele, em Arataca nos sábados acompanhado de meu pai, seu amigo, era uma aula de vida: comportamento, elegância, alegria e encantamento. O homem que estava plantando 1.000.000 ( hum milhão) de pés de cacau.

Em 1967, Marcelo teria idealizado e realizado o Primeiro Congresso Internacional do Cacau, em Itabuna. A Praça Camacan se transformou em uma feira com produtos regionais, como cacau caseiro de Jitaúna, cocada de cacau e geleia de cacau. Pasmem teria mandado confeccionar uma réplica de plástico de um fruto de cacau com mel de cacau para distribuí-la a autoridades nacionais e estrangeiras e a representantes de países produtores de cacau da África, da América Latina e do Caribe.

Os relatos acima são poucos na breve longa vida, no entanto tem um lema dele informado por sua irmã Lola Gedeon: “Nada é impossível, vá até não poder mais”  este serve para todos.

 

Marcelo Gedéon, 100 anos.

 

Um século depois de seu nascimento, sua história continua fazendo parte da história do cacau da Bahia.

 

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