
Ficou para trás o tempo em que o universo masculino, tão bem retratado por Jorge Amado, com seus coronéis de antologia, dominavam o cenário da Região Cacaueira do Sul da Bahia. As mulheres, com seu espírito empreendedor e a sensibilidade feminina, estão cada vez presentes, fortalecendo um novo modelo que passa pela produção sustentável do cacau, investimentos em qualidade e, principalmente, a vira de chave que se tornou a produção e chocolates de origem, a partir da criação do Chocolat Festival, em Ilhéus, na virada do século. Elas entenderam a força da união, trilhando um caminho sem volta, uma tendência que se consolida a cada nova iniciativa, e um legado para as novas gerações de mulheres, que já entram de mãos dadas na vida profissional e que constroem uma nova história na chamada Civilização Grapiúna, em que as Mulheres do Cacau e do Chocolate são protagonistas.

No Sul da Bahia, as mulheres vem ocupando espaço e se destacando na produção de cacau de qualidade e chocolates de origem, que a cada ano conquista novos mercados no Brasil e no Exterior. Elas dão um exemplo de união que impulsiona para o sucesso e consolida marcas que primam pela inovação e originalidade.

O primeiro passo para o fortalecimento da cadeia do cacau na região foi a criação do coletivo Mulheres da Terra, em junho de 2023. Desde então, as marcas La Lis Chocolateria, Benevides Chocolates, Cacau Do Céu, Modaka Cacau de Origem, Luzz Cacau, Mestiço, Cruzeiro Do Sul, Belo Chocolates e Jú Arleo Chocolates, que desde então atuam juntas em ações promocionais para divulgar suas marcas. Além disso, a partir da criação do grupo, elas querem acessar iniciativas voltadas especificamente para mulheres empresárias, promovidas por diferentes instituições.

A ideia surgiu nas ações do projeto Origem Bahia, fruto de parceria entre a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) e o Sebrae-BA, do qual as empresas fazem parte. Gratuito, o projeto tem como público-alvo pequenas e médias empresas que atuam ou querem ingressar em mercados internacionais. “A criação do grupo teve como objetivo motivar o empreendedorismo feminino e construir um conceito mais amplo de cooperativismo e união de forças”, explica a gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Fieb, Patrícia Orrico.

Ela destaca que uma das primeiras ações realizadas pelo CIN para apoiar a iniciativa foi a criação da identidade visual do Mulheres da Terra, além da inclusão das empresas em atividades de promoção comercial, como vem ocorrendo nas edições do Chocolate Festival em Ilhéus.
A empresária Leilane Benevides, da Benevides Chocolateria, destaca outro benefício da união. “A nossa produção não é em grande escala, e isso implica em custos mais elevados em relação a insumos, por exemplo. Agora, se nos unimos para fazer compras coletivas, conseguimos reduzir esses custos”, explica.

NOVOS NEGÓCIOS
Juntas, elas também estão atentas a outras oportunidades de negócio na região, como o turismo rural. A gestora da Benevides, Leilane Benevides, implantou às margens da Rodovia Ilhéus-Itabuna, a Colina Benevides Experiência, que oferece um passeio por áreas de Cacau Cabruca, almoço com cardápio regional e degustação de chocolates.

Esse modelo é adotado pela Modaka Cacau de Origem, cujo modelo de produção é tree to bar (da árvore à barra), já que na Fazenda São José, situada no município de Barro Preto, está a plantação de cacau e a fabricação de chocolates finos. Patrícia Vianna, que assumiu o legado da família, enumera desafios para empreender, especialmente no interior da Bahia, como gargalos de logística e distribuição. “Enfrentamos entraves para encontrar mão de obra capacitada e consultoria para beneficiamento do cacau, que implicam diretamente na produção de derivados de qualidade”, detalha.

A força a mulher no cooperativismo tem como exemplo Carine Assunção, da Cooperativa de Serviços Sustentáveis da Bahia- COOPESSBA, que produz os Chocolates Natucoa. A marca é 100% vegana, com produtos livres de glúten e lactose, sendo uma opção deliciosa e segura para diversas restrições alimentares. A Linha Original da Natucoa oferece barras com 56%, 65% e 70% de cacau com nibs, jaca, cupuaçu,icuri e mix de nuts e caramelo flor de sal. A Linha Clássica inclui barras com 56%, 70% e 80%, pasta de cacau, geléia de mel de cacau e pasta de cacau. Para a garotada, a Linha Infantil Toinzinho tem barras com 56% cacau com abacaxi, banana e 35% cacau, em embalagens originais.
A Natucoa já comercializa seus produtos em vários estado brasileiros, através de pontos de venda e e-commerce e já possui uma base em Portugal, abrindo as portas para o promissor mercado europeu.
Unidas pelo Chocolate

Em Camacã, no Sul da Bahia, um grupo de mulheres descobriu no chocolate produzido através da agricultura familiar, uma alternativa para a geração de emprego e renda. A Só Cacau, comuma loja de fábrica em Panelinha, às margens da Rodovia BR 101, é mais um exemplo de que a união e o empreendedorismo podem mudar a realidade das pessoas e movimentar a economia. O grupo é liderado por Maria Helena Guimarães, que é professora pós-graduada em Gestão de Cacau e Chocolate. “Com a produção de chocolate, as mulheres passaram a ter uma renda complementar, já que a maioria estava desempregada ou dependia de programas sociais como o Bolsa Família”, afirma a empreendedora. Um dos destaques da Só Cacau, que atualmente conta com dez produtoras de chocolate e outros derivados de cacau, é o Creme de Cacau Cacauela, versão sulbaiana de um famoso creme de avelã
RECONHECIMENTO

A premiação de chocolates produzido por mulheres grapiúnas nos Estados e Europa se tornou uma constante nos últimos anos. “Esse reconhecimento mostra que o Sul da Bahia é um polo de chocolate de qualidades, não é apenas uma marca ou outra”, destaca Leilane Benevides, da Benevides Chocolates, que já recebeu medalhas de prata e bronze no Internacional Chocolate Awards, com produtos inovadores como 43% cacau ao leite com rapadura e flor de sal; chocolate branco 35% cacau Canjica Baiana; chocolate 85% cacau e chocolate 60% cacau Dark Milk, 60% cacau ao leite Cappuccino e na barra de 70% cacau.

Destaque também para Marcela Tavares, da Cacau do Céu Chocolates, que conquistou cinco prêmios no Internacional Chocolate Awards em 2025, consolidando-se como a marca mais premiada da região nesta edição do concurso. O resultado reafirma a trajetória da empresa, fundada no Sul da Bahia, e seu compromisso com o controle de toda a cadeia produtiva — do cultivo do cacau à fabricação do chocolate — dentro do conceito bean to bar.

Outra mulher que desponta no universo feminino do chocolate é Júlia Vieira Souza, chocolate maker da Tombador Cacau, que conquistou a Medalha de Prata no Chocolate Awards, uma jovem que prima pela inovação, combinando o cacau com os sabores de frutos do Sul e Baixo Sul da Bahia.
CACAU

Na produção de cacau, Cláudia Sá, da Agrícola Cantagalo, vem acumulando premiações internacionais como a recente Medalha de Ouro conquista na 10ª edição do Cacao of Excellence (CoEx), principal premiação internacional dedicada à qualidade das amêndoas. Cláudia vem adotando práticas sustentáveis, que resultam num produto de excelência e que apontam novos caminhos para uma lavoura que precisa se tornar menos suscetível às crises cíclicas. Cláudia Sá defende a máxima profissionalização da atividade em todas as etapas do negócio, não apenas na produção, além de investimentos em tecnologia e inovação.
Hoje, 10% das amêndoas saídas das fazendas do grupo tocado por Cláudia Sá vão direto para o mercado de chocolates de origem, com alto valor agregado.
No Dia Internacional da Mulher, as mulheres grapiunas são um exemplo de empreendedorismo, espírito inovador e do amor que transforma cacau e chocolate em produtos especiais, que estão conquistando o mundo.
(Fotos Divulgação)






