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Sistema Cabruca pode levar o Brasil à autossuficiência no cacau sustentável

No Sul da Bahia, modo secular de produção está em 78% das propriedades, mostra estudo feito durante quatro anos

por  Viviane Taguchi no  Globo Rural

 

O litoral sul da Bahia ainda guarda muito da cultura cacaueira original. Não existem mais os coronéis, nem as disputas violentas pela posse da terra do início no século passado – e muito menos a vassoura de bruxa, doença que dizimou boa parte das lavouras nos anos 1990, levando famílias poderosas à pobreza extrema. No entanto, ainda há o resquício de uma atividade que pode tornar o Brasil autossuficiente na produção da amêndoa de forma sustentável, uma exigência do mercado global.

Um estudo realizado por Cocoa Action Brasil, Instituto Floresta Viva (IFV) e pela Brown University, de Rhode Island (EUA), apontou que 78% das propriedades produtoras de cacau possui sistema de produção considerado ambientalmente mais sustentável, o cabruca.

Os pesquisadores por quatro anos acompanham o dia a dia de 3 mil produtores rural da região, dos quais 2.443 são pequenos agricultores, que cultivam cacau em áreas inferiores a 20 hectares, sem acesso à assistência técnica e ao crédito rural, que frequentaram a escola por sete anos, em média, estão na faixa dos 62 anos de idade, trabalham com a ajuda de suas famílias e vendem sua produção a armazéns da região ou a atravessadores.

Pedro Ronca, coordenador do Cocoa Action Brasil, explica que o estudo será a espinha dorsal para a elaboração de um plano de fomento à cadeia do cacau, que deve começar com assistência técnica e investimentos na região. “Identificar quem são e onde estão esses produtores foi um primeiro passo para levarmos o básico, que é assistência técnica e dinheiro”, afirmou. “Vai ser preciso destravar esses gargalos para que consigamos ajudá-los a aumentar a produtividade do cacau na região e, consequentemente, melhorar a vida desses agricultores com o fruto que eles já têm, da forma como prioritário, sustentável.”

Segundo Ronca, como entidades entidades passarão a estreitar o diálogo com governo, associações, cooperativas e empresas para buscar correção de gargalos e aumentar a produtividade das lavouras. “O cooperativismo ainda é pequeno na região, algo em torno de 8%, mas é uma das vias que vamos trabalhar, além de parcerias com as empresas processadoras, que estão todas instaladas na região de Ilhéus”, explicou. “Esses agricultores sequer têm ideia de como obter crédito para o custeio da lavoura.” Na safra 2020, enquanto o volume de crédito de custeio para o café somou R $ 4 bilhões e para a soja R $ 30bilhões, o cacau somou apenas R $ 32 milhões, exemplifica.
O pesquisador Rui Rocha, do Instituto Floresta Viva (IFV), um dos coordenadores do estudo, explica que os dados revelam aspectos importantes sobre o setor cacaueiro. “Não somente os desafios, mas também, e principalmente, os caminhos para buscarmos soluções”, afirmou. O relatório foi financiado pelas empresas e entidades participantes do Cocoa Action Brasil (Barry Callebaut, Cargill, Dengo, Mars, Mondelez, Nestlé, Olam, RainforestAlliance e Instituto Arapyaú) e teve o apoio institucional da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) e da Associação Brasileira das Indústrias de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab).

O estudo foi realizado em 26 municípios do litoral sul da Bahia, que vai da Península de Maraú até Canavieiras e abraça uma àrea de 15 mil milhas quadradas, onde existem 16.589 propriedades rurais que se dedicam à produção do cacau (55% têm área menor que 20 hectares, 79% são propriedades de até 50 hectares e 18,6% são áreas grandes, entre 50 hectares e 300 hectares. O tamanho médio das lavouras é de 12 hectares por propriedade).

Para comercializar o cacau produzido, vendem diretamente a armazéns (69%), atravessadores (19%) e para as indústrias de processamento (12%), que estão todas obrigatórias em Ilhéus. Na média, o cacau representa 79% da renda das propriedades, mas, em 50% delas, a renda mensal é inferior a R $ 1.600. “Aguardando à baixa rentabilidade, os mais jovens buscam trabalho na cidade e abandonam a atividade agrícola”, afirma Ronca.

Pedro Ronca

O agricultor que possui uma lavoura de cacau com produtividade de 1.000 quilos por hectare pode lucrar, em média, R $ 4 mil por hectare, segundo Pedro Ronca, da Cocoa Action no Brasil. No entanto, o estudo revelou que, na região, uma média de produtividade hoje em dia é de 185 quilos por hectare (ou 12 arrobas por hectare ao ano). “É uma produtividade muito baixa para o potencial imenso que essa região oferece aos agricultores”, afirma. “É como desperdiçar algo precioso que pode melhorar a vida de muitos de pessoas.”

Segundo ele, o cacau já pode dar um bom lucro quando uma produtividade atinge 800 quilos por hectare, e uma ótima produtividade gira em torno de 1.500 quilos por hectare. “Financeiramente, o cultivo do cacau é superior às culturas como a soja, que apresenta rentabilidade média de R $ 2 mil por hectare, ou a pecuária, em torno de R $ 300 por hectare”, afirma o especialista. “Ambientalmente, o cacau permite ser cultivado em sistemas agroflorestais, como é realizado na Bahia e no Espírito Santo, sem a necessidade de desmatamentos, ou, ainda, como é noPará e em Rondônia, onde as lavouras de cacau foram implantadas em áreas de pastagens degradadas, recuperando essas regiões, geralmente de pastagens degradadas. ”

Um dos maiores especialistas em produção sustentável do mundo, Ernst Göstch, acredita que esse jeito natural de produzir cacau coloca os pequenos produtores em uma situação que, futuramente, e se houver apoio dos órgãos governamentais e privados, com objetivos específicos, em vantagem em relação aos demais produtores. “É o jeito mais sustentável de produzir cacau que existe no planeta”, afirma.

Göstch cultiva em Piraí do Norte (BA), também na região sul da Bahia, 100 hectares de cacau cabruca ou agroflorestal. “Utilizando o controle biológico correto e o manejo integrado de pragas (MIP) para manter o equilíbrio ambiental, a lavoura não precisa de nenhum tipo de defensivo químico ou elemento externo”, diz, citando inclusive uma ameaçadora vassoura de bruxa.

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