
Antonio Maia
A cacauicultura brasileira vive um momento decisivo. Depois de décadas em que o produtor permaneceu na base da cadeia produtiva, assistindo à maior parte do valor do cacau ser capturada pela indústria e pelo comércio internacional, começa a emergir no país um debate estratégico: qual modelo de cadeia produtiva o Brasil deseja construir para o seu cacau?
Nas últimas semanas, alguns sinais indicam que o governo tem demonstrado certa sensibilidade às demandas dos produtores. Entre essas medidas estão a suspensão da importação de cacau da Costa do Marfim por seis meses, a mudança nas regras do drawback — reduzindo o prazo de dois anos para seis meses — e o debate no Congresso Nacional sobre regras mais rigorosas para a composição do chocolate. A proposta defendida pelo deputado Daniel Almeida busca elevar o teor mínimo de cacau, combatendo o chamado “chocolate fake” e garantindo que um produto só possa ser chamado de chocolate quando realmente contiver cacau em proporção adequada.
Essas iniciativas são relevantes e sinalizam uma mudança no ambiente institucional. No entanto, é preciso reconhecer que ainda se tratam de medidas pontuais, que ajudam a corrigir distorções momentâneas, mas não enfrentam o problema estrutural da cadeia do cacau: a baixa participação do produtor na geração e na divisão de valor.
A questão central que se coloca para o país é simples, mas profundamente estratégica: o Brasil continuará organizando sua cadeia produtiva para atender prioritariamente os interesses da indústria compradora de cacau ou passará a construir um sistema mais equilibrado, capaz de garantir dignidade econômica aos produtores?
Não se trata de excluir multinacionais ou criar conflitos desnecessários. O que se busca é uma cadeia mais saudável, na qual produtores, indústria e mercado possam coexistir em condições mais equilibradas.
Para isso, torna-se fundamental estimular a organização dos produtores, fortalecer cooperativas e incentivar a criação de pequenas e médias moageiras nas regiões produtoras. Parcerias público-privadas podem desempenhar papel importante nesse processo, ao mesmo tempo em que se estimula o surgimento de mais fábricas de chocolate nacionais, ampliando a agregação de valor dentro do próprio país.
O Brasil reúne condições raras no cenário mundial: capacidade tecnológica, um grande mercado consumidor e sistemas produtivos ambientalmente sustentáveis, como o cacau cultivado sob sombra na Bahia. Se essas características forem articuladas com organização produtiva e estratégia industrial, o país poderá construir uma cadeia do cacau mais ambientalmente equilibrada, robusta e socialmente justa.
No fundo, a escolha que se apresenta não é entre produtores ou indústria. A verdadeira escolha é entre manter um modelo concentrador de valor ou construir um sistema econômico mais saudável, capaz de garantir a sobrevivência digna de quem está na base da produção.
O produtor brasileiro não pode continuar sendo apenas o elo mais frágil da cadeia. Não podemos permanecer como pequenos peixes presos na rede de um pescador que sequer vive aqui, mas além-mar. Chegou a hora de o Brasil decidir qual futuro deseja para sua cacauicultura.






