
Givaldo Ferreira Couto

Ao longo de cinco décadas, entre 1974 e 2024, a produção de cacau apresentou diferentes taxas de crescimento nos oito territórios produtores que se estendem do Recôncavo Baiano a Medeiros Neto, no extremo sul da Bahia.
Depois de introduzido em Canavieiras há 280 anos, o cacau foi semeado em outros espaços rurais do sul da Bahia, que ao longo da história foram emancipados, como Ilhéus e Uruçuca que tornaram-se grandes produtores da commodity. A fronteira agrícola da cultura do cacau avançou ao longo do litoral no bioma Mata Atlântica, ocupando, hoje, uma área de aproximadamente 430.000 hectares com 69.000 estabelecimentos rurais pertencentes a milhares de posseiros e proprietários.
Paralelamente a cultura da soja, introduzida no oeste da Bahia na década de 1970 e com forte expansão agrícola a partir da segunda metade dos anos 1980, ocupa uma área aproximada de 1,5 milhão de hectares, apresentando valor de produção superior a 14 bilhões de reais em 2024. Contudo, essa riqueza encontra-se concentrada em menos de mil estabelecimentos rurais, de acordo com o último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Portanto, a cacauicultura revela-se de elevada importância social, por gerar maior número de empregos e promover a distribuição de renda em, aproximadamente, setenta mil propriedades rurais. Apesar da sojicultura se destacar com o maior valor econômico da produção, na Bahia, a cacauicultura sobressai por sua importância socioeconômica e pela ampla participação de produtores rurais da agricultura familiar na sua cadeia produtiva.
Historicamente, a produção de cacau cresceu em alguns municípios que atualmente integram os Territórios de Identidade da Bahia, enquanto em outros a produção foi reduzida em decorrência de fatores como o semiabandono de propriedades, redução da produtividade dos cacaueiros consorciados com árvores da mata atlântica, concorrentes em luminosidade e nutrientes, e com baixa densidade de plantas por hectare. Esse conjunto de fatores contribui para que a região apresente rendimento médio de aproximadamente 16 arrobas por hectare, evidenciando a menor produtividade da cacauicultura brasileira.
Além disso, os demais setores da economia: comércio, serviços e indústria, especialmente nos municípios de Ilhéus e Itabuna, serviram de alternativas econômicas à população, contribuindo para a redução dos investimentos no setor primário. Paralelamente, a migração da população rural para os centros urbanos elevou o índice de urbanização do Litoral Sul para 82%, percentual superior à média da Bahia (76%) e bem superior ao índice de urbanização registrado no Baixo Sul (47%).
Nos últimos cinquenta anos, com base nos dados da produção agrícola publicados na plataforma IPEAData, observa-se crescimento da produção de cacau em alguns dos atuais Territórios de Identidade da Bahia, com destaque para o Baixo Sul e o Vale do Jiquiriçá, conforme a Tabela 1. No Baixo Sul houve um incremento de 34.889 toneladas de cacau em relação a 1974, enquanto o Litoral Sul apresentou redução de 57.647 toneladas no mesmo período.
Tabela 1 – Produção de cacau nos Territórios de Identidade da Bahia em 1974, 2004 e 2024
| Territórios de Identidade | Produção (t) 1974 | Produção (t)
2004 |
Produção (t)
2024 |
|
| 01 | Baixo Sul | 13.005 | 26.243 | 47.844 |
| 02 | Litoral Sul | 99.528 | 42.414 | 41.881 |
| 03 | Vale do Jiquiriçá | 724 | 4.739 | 10.634 |
| 04 | Médio Rio de Contas | 18.080 | 40.673 | 23.975 |
| 05 | Médio Sudoeste da Bahia | 4.905 | 3.838 | 1.375 |
| 06 | Costa do Descobrimento | 10.642 | 9.005 | 6.859 |
| 07 | Extremo Sul | 4.742 | 7.862 | 3.068 |
| 08 | Recôncavo | 44 | 569 | 940 |
Fonte: Elaboração própria com base em dados do IPEAData.
Diferente da região tradicional, onde a cacauicultura se consolidou entre os séculos XVIII e XIX, a expansão da cultura em muitos municípios dos Territórios de Identidade do Baixo Sul e Vale do Jiquiriçá ocorreu, principalmente, a partir da década de 1970.
Período em que a infraestrutura da BR 101 e estradas vicinais facilitaram a circulação de material botânico, sementes hibridas, mudas de cacau, insumos agrícolas e escoamento da produção, enquanto no passado remoto a logística dependia do transporte fluvial, marítimo e, também, da utilização de tropas de animais de carga.
Outro fator importante para a expansão da cacauicultura foi a instalação de escritórios da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), quando os produtores passaram a ter acesso à assistência técnica, aos serviços de extensão rural, e à elaboração de projetos para obtenção de crédito rural. Essas ações favoreceram a adoção de tecnologias e de práticas mais eficientes na cadeia produtiva do cacau, estimulando a expansão dos plantios e o aumento da produção da commodity.
Em 1974, os 26 municípios que hoje integram o Litoral Sul da Bahia produziram aproximadamente 100 mil toneladas de cacau, volume equivalente a cerca de 65% da produção estadual, conforme a Tabela 1. No ano seguinte, 1975, a Bahia alcançou a produção de 271.788 toneladas de amêndoas de cacau que em 2024 foi reduzido para 137.028 toneladas, representando uma queda de 134.760 toneladas ao longo de cinquenta anos.
Enquanto isso, o Estado do Pará ampliou sua produção de 1.772 toneladas, em 1974, para 137.455 toneladas em 2024, registrando um crescimento de 135.683 toneladas. Esses dados evidenciam que, enquanto a Bahia perdeu a hegemonia de maior produtor mundial de cacau, o Pará consolidou-se como o principal produtor brasileiro.
No auge da cacauicultura o Brasil manteve-se na liderança da produção mundial da commodity até 1975, segundo o banco de dados FAOSTAT, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Nesse contexto, o Litoral Sul da Bahia destacava-se como uma das mais importantes regiões produtoras de cacau do mundo. Em 1975, os 26 municípios que atualmente compõem essa região produziram 173.942 toneladas de cacau, volume equivalente a 75% das 231.136 toneladas produzidas na Costa do Marfim naquele mesmo ano.
Valença, junho de 2026
REFERÊNCIAS
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). FAOSTAT. Roma, 2024. Disponível em: https://www.fao.org/faostat/. Acesso em: 20 jun. 2026.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). IPEAData. Brasília, DF. Disponível em: https://www.ipeadata.gov.br/. Acesso em: 15 jun. 2026.






