
Por Paulo Peixinho
Senhor Presidente Luiz Inácio Lula da Silva,

Parabenizo-o pela reeleição e, antecipadamente, pelos seus 81 anos, que completará amanhã, 27 de outubro.
Hoje, em seu discurso em um hotel de São Paulo, o senhor afirmou que aprendeu, nesta eleição, que governará para o povo. Destacou ser o único presidente metalúrgico, sem formação universitária, a conquistar quatro mandatos. Prometeu fazer o melhor governo de sua trajetória, trabalhar vinte horas por dia e devolver ao país a tranquilidade e a segurança necessárias à sua reconstrução.
Espero, sinceramente, que cumpra essas promessas.
Peço-lhe licença, como integrante desse povo e já idoso, para compartilhar uma história e fazer um apelo.
Sou nordestino, nascido no Sul da Bahia, filho de migrantes do sertão baiano e sergipano que, assim como sua família, deixaram suas origens em busca da dignidade proporcionada pelo trabalho e das condições necessárias à sobrevivência.
Permita-me traçar um paralelo entre nossas trajetórias.
Em 1989, quando o senhor perdeu a eleição presidencial, eu perdi minhas plantações de cacau para a vassoura-de-bruxa.
Naquele momento, começou uma tragédia econômica, social e ambiental que transformaria profundamente o Sul da Bahia.
O governo Collor, além de representar um desastre para a economia nacional, abandonou a CEPLAC, instituição técnica fundamental para o enfrentamento da crise da cacauicultura.
O governo Itamar Franco foi o único que adotou medidas práticas, em 1994. Entretanto, os recursos somente começaram a chegar em 1996, quando a cacauicultura já se encontrava na UTI.
E, se sobreviveu, foi principalmente graças à extraordinária capacidade de resistência do cacau cultivado sob a Mata Atlântica — exemplo histórico da economia verde à qual o senhor se referiu hoje.
As recomendações agronômicas posteriormente reconhecidas como equivocadas pelo próprio governo federal contribuíram para o endividamento dos produtores, agravado pela falta de acesso a novos créditos, pelos juros exorbitantes e pelas condições cambiais desfavoráveis durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
Os governos Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro não promoveram soluções estruturais capazes de recuperar a economia cacaueira.
Em seu terceiro mandato, as medidas adotadas também se mostraram insuficientes, mesmo depois de um acontecimento inédito: cacauicultores saíram às ruas para protestar e exigir providências.
Presidente, o Estado brasileiro tem uma dívida histórica com a cacauicultura baiana.
Durante décadas, nossa atividade contribuiu decisivamente para o Brasil, gerando divisas, empregos, arrecadação e desenvolvimento regional. Os produtores também suportaram os efeitos de políticas como a retenção de 10% sobre as receitas de exportação do cacau.
Não desejamos subsídios nem esmolas.
Desejamos justiça.
E, se Deus o escolheu para governar seu povo, espero que a generosidade que o senhor recebeu da vida também se traduza em atenção às milhares de famílias que dependem da cacauicultura.
Precisamos de uma política pública sustentável, capaz de integrar responsabilidade ambiental, justiça social e viabilidade econômica.
Seu ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, reconheceu que a cacauicultura, tanto na Bahia quanto na Amazônia, possui características de sustentabilidade ambiental e social. Entretanto, para sobreviver, precisa também ser economicamente sustentável.
A agricultura já enfrenta riscos inerentes à própria atividade: mudanças climáticas, doenças, pragas, custos financeiros, juros elevados, assimetria de poder nas relações comerciais e concorrência internacional.
Não podemos continuar acrescentando a esses desafios a ausência de políticas públicas adequadas.
A cadeia produtiva do cacau, do chocolate e da floresta não deve transformar seus integrantes em adversários permanentes.
O governo brasileiro pode exercer um papel fundamental na coordenação dessa cadeia, construindo soluções que preservem a renda do produtor sem comprometer a competitividade e as legítimas vantagens da indústria.
Desde 1989, uma verdadeira catástrofe econômica e social atingiu o Sul da Bahia.
Foram 37 anos de dificuldades, endividamento, perda de patrimônio, redução da atividade econômica e sofrimento de milhares de famílias.
Espero que, neste quarto mandato, o senhor, juntamente com o governador Jerônimo Rodrigues, os senadores Rui Costa e Jaques Wagner e suas equipes técnicas, construa uma agenda efetiva de recuperação e desenvolvimento da cacauicultura brasileira.
Assim como o senhor deseja que o Brasil deixe a periferia e ocupe posição central na economia mundial, queremos que nosso país volte a exercer protagonismo na economia global do cacau.
O Brasil reúne condições singulares: produz cacau, possui indústria processadora, fabrica chocolate e dispõe de um expressivo mercado consumidor.
Temos, portanto, a oportunidade de reconstruir uma cadeia produtiva integrada, competitiva, socialmente justa e ambientalmente sustentável.
São aproximadamente 100 mil famílias que dependem dessa economia, desde agricultores familiares até médios produtores. Os grandes estabelecimentos produtores, que marcaram o passado da região, perderam sua antiga importância.
Presidente Lula, o senhor tem a oportunidade histórica de recolocar o Brasil entre os protagonistas do mercado mundial do cacau.
Não se trata apenas de recuperar uma atividade agrícola.
Trata-se de reconstruir uma economia regional, preservar a Mata Atlântica, assegurar a dignidade do trabalho e devolver perspectivas de futuro às novas gerações.
A cacauicultura brasileira não pede privilégios. Pede condições para produzir, competir e sobreviver.
Que o Senhor do Bonfim ilumine seus passos e suas decisões, para que o Brasil finalmente reconheça e ajude a reconstruir essa região que, há 37 anos, enfrenta uma crise prolongada e se sente esquecida pelo poder público.
Parabéns, Presidente.
Paulo Peixinho
Cacauicultor — Sul da Bahia






