Da Cabruca à sala de aula: artigo destaca contribuição do IF Baiano para a agroecologia no sul da Bahia
Publicado na edição especial de 20 anos da Revista Brasileira de Agroecologia, estudo evidencia uma trajetória de formação, pesquisa e extensão que ganha continuidade com a Pós-Graduação em Agrofloresta

A formação em Agroecologia no IF Baiano, campus Uruçuca, ganha destaque na edição especial que celebra os 20 anos da Revista Brasileira de Agroecologia. Publicado em 16 de outubro de 2026, o artigo “Agroecossistema cacau-cabruca, tecnologias sociais e redes territoriais: uma leitura teórico-metodológica da Agroecologia no sul da Bahia” analisa como instituições de ensino, organizações sociais e comunidades rurais ajudam a construir alternativas para o desenvolvimento da região cacaueira, aproximando conhecimento científico, agricultura familiar e conservação da Mata Atlântica.
Essa trajetória de articulação entre formação e território ganha um novo desdobramento com a Pós-Graduação em Agrofloresta, construidaem parceria com o Instituto Nova Era (INE) além do Instituto Cabruca, Instituto Floresta Viva, Teia dos Povos, CEPLAC e Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Com início da primeira turma previsto para 2027, a iniciativa representa a culminância de um percurso de cooperação voltado à produção de conhecimentos e à formação de profissionais em diálogo com os territórios.

O artigo é assinado por Durval Libânio Netto Mello e Cinira de Araújo Farias Fernandes, do Núcleo de Agroecologia do IF Baiano em Uruçuca, e pelos pesquisadores Eduardo Gross e Emerson Antonio Rocha, da UESC. Os autores apresentam a cabruca como muito mais do que uma técnica de cultivo: um agroecossistema no qual produção de cacau, floresta, conhecimentos tradicionais e organização social estão profundamente conectados.
Formação que dialoga com o território
Um dos destaques do estudo é a contribuição das experiências de formação, pesquisa participativa e extensão para a produção e a sistematização de conhecimentos sobre a cacauicultura regional. O artigo mostra como projetos de Centros Vocacionais Tecnológicos (CVTs) e Núcleos de Estudo em Agroecologia (NEAs), desenvolvidos em parceria com grupos de pesquisa da UESC e do IF Baiano, campus Uruçuca, ajudaram a aproximar instituições de ensino, organizações sociais e agricultores.
Parte dessa construção está registrada no segundo volume do *Guia de manejo do agroecossistema cacau-cabruca*, organizado por Eduardo Gross e Thiago G. Viana e publicado pelo Instituto Cabruca em 2019. A publicação reúne experiências ligadas à formação, à pesquisa e à assessoria técnica em assentamentos e territórios da agricultura familiar do sul da Bahia.

Nesse processo, a cabruca deixa de ser apenas um assunto estudado em sala de aula. Torna-se uma referência concreta para compreender as relações entre solos, árvores, água, biodiversidade, produção agrícola e condições de vida das famílias. A perspectiva apresentada pelos autores valoriza o diálogo entre conhecimentos científicos e saberes construídos por gerações de agricultores, povos indígenas e comunidades tradicionais.
Da pesquisa ao manejo do cacau e à produção de chocolate
O conjunto de experiências sistematizadas nas publicações e nos projetos analisados abrange temas diretamente relacionados à realidade regional: manejo orgânico do cacau, atributos dos solos, diversidade e funções das árvores de sombra, implantação de sistemas agroflorestais, adubação verde e produção de mudas. Também inclui plantas alimentícias não convencionais, captação de água da chuva e aproveitamento de produtos florestais não madeireiros.

Essa abordagem se estende à qualidade e à pós-colheita do cacau, à indicação geográfica e à fabricação de chocolate em pequena escala. A formação dialoga, assim, com diferentes etapas da cadeia produtiva, aproximando o manejo da lavoura dos debates sobre agregação de valor e reconhecimento da origem.
Para o universo do cacau e do chocolate, essa conexão é especialmente relevante. O artigo defende que a valorização da cabruca não deve se limitar a um atributo comercial: precisa manter vínculos com a conservação da Mata Atlântica, a agricultura familiar e o desenvolvimento territorial sustentável. Nessa leitura, reconhecer a origem do produto implica também reconhecer os conhecimentos, o trabalho e os territórios que o tornam possível.
Cabruca: patrimônio vivo e espaço de aprendizagem

Baseado em revisão bibliográfica, análise documental e sistematização de experiências, o estudo caracteriza o cacau-cabruca como um sistema tradicional de cultivo de cacaueiros sob a sombra de árvores nativas. Os autores destacam sua contribuição para a conservação da biodiversidade, a ciclagem de nutrientes, a regulação microclimática e a conectividade entre remanescentes florestais.
Ao mesmo tempo, o trabalho evita tratar a paisagem apenas por seus atributos ambientais. Agricultores familiares, assentados da reforma agrária, comunidades quilombolas e povos indígenas aparecem como sujeitos da construção histórica e da transformação desses sistemas. Experiências nos assentamentos Terra Vista, em Arataca, e Dois Riachões, em Ibirapitanga, ilustram a articulação entre acesso à terra, redesenho agroflorestal, certificação participativa e chocolate de origem.

Esse olhar ajuda a compreender a importância de uma formação situada no território: estudar a cabruca significa também discutir quem produz, quais conhecimentos são reconhecidos e como os benefícios da cadeia do cacau são distribuídos.
Uma rede que conecta ciência, agricultores e organizações sociais
O artigo situa o IF Baiano e a UESC em um arranjo mais amplo, que inclui o Instituto Cabruca e a Teia dos Povos. Embora tenham trajetórias e funções distintas, essas organizações convergem na valorização da produção agroecológica e dos territórios.
O Instituto Cabruca contribui com manejo, formação e assistência técnica; a Rede Povos da Mata articula certificação participativa e comercialização; e a Teia dos Povos coloca terra, autonomia e soberania alimentar no centro do debate. Segundo os autores, essa convergência desloca o cacau-cabruca de um tema apenas produtivo ou ambiental para um eixo de organização socioterritorial.
Pós-Graduação em Agrofloresta: ciência e saberes do território na formação de uma nova turma

Essa trajetória de ensino, pesquisa e extensão ganha um novo capítulo com a Pós-Graduação em Agrofloresta, cuja primeira turma está prevista para iniciar em 2027. Construída em parceria com o Instituto Nova Era (INE), e em parceria também com o Instituto Cabruca, a Teia dos Povos, CEPLAC e a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), a iniciativa aproxima a formação acadêmica das experiências de quem desenvolve e pratica a agrofloresta nos territórios. A participação do INE e a presença de especialistas de notório saber, como Ernst Götsch, idealizador da Agricultura Sintrópica e Joelson Ferreira de Oliveira, da Teia dos Povos, entre outros ampliam as possibilidades de intercâmbio entre conhecimento científico, experimentação prática e saberes tradicionais. Mais do que uma nova oferta de formação, a pós-graduação representa a culminância de um percurso coletivo, no qual instituições de ensino, agricultores e organizações territoriais se encontram para compartilhar conhecimentos e construir caminhos para a produção de alimentos, a conservação das paisagens e a autonomia das comunidades.
link para o artigo: https://periodicos.unb.br/index.php/rbagroecologia/article/view/62595






