
Elisa Oliveira
“A estética é parte da nossa política” bell hooks
Educar é criar possibilidades para transformação é resultante de uma prática pedagógica embasada na ideia de que todos podemos sair melhores de uma vivência pedagógica, quer seja na sala de aula ou em qualquer outro espaço formativo. Este processo se dá pelo olhar e pela escuta atenta do que de fato interessa ou do que precisam os pares.

Entre lentes e olhares curiosos, nasceu o projeto de educação étnico-racial que une filosofia africana, identidade negra e saberes emancipatórios. A iniciativa promove espaços de diálogo sobre identidade, representatividade e pertencimento, promovendo momentos de estudo, rodas de conversa e produção artística.

O projeto em 2025 tem como tema o “Elegância negra é resistência: joias de crioula e dandismo negro” que remete a movimentos estéticos com expressões de resistência, identidade e afirmação estética e política do povo negro. Nossos objetivos foram investigar o dandismo negro e as joias de crioula como manifestações de resistência e afirmação identitária; estimular o protagonismo juvenil na produção de conhecimento e arte; desenvolver a autoestima e o senso de pertencimento por meio da estética negra; ampliação de repertório cultural.

O dandismo negro é uma prática estética e política em que pessoas negras — especialmente homens, historicamente — utilizam a sofisticação do vestir (ternos, alfaiataria, elegância exagerada) para afirmar sua dignidade num contexto racista e subverter estereótipos que associam a negritude à subalternidade, assim como, construir uma imagem de poder e respeito em sociedades que negavam isso aos negros.

As joias de crioula eram adornos de ouro usados por mulheres negras (escravizadas, libertas e crioulas) no Brasil colonial e imperial. Embora utilizadas em contexto de escravidão, elas carregavam significados de grande relevância, eram símbolos de status, identidade e herança cultural africana e funcionava como patrimônio econômico, já que o ouro servia como espécie de “poupança” que foram usadas para comprar a liberdade de outros negros.

Ambas as práticas usam códigos estéticos atribuídos ao colonizador (luxo, sofisticação, ouro), para desafiar hierarquias raciais, romper expectativas de submissão e criar estratégias de resistência. Ambos os movimentos são gestos estéticos que viram gestos políticos.

O projeto foi construído de forma coletiva, pelas professoras Elisa Oliveira que assina o projeto e o ensaio fotográfico, as professoras Seilma Santana e Zulmara Teles que fazem a produção de estilo, as coordenadoras Leila Schat e Ytatiana Costa responsáveis pela parte executiva e os estudantes da 3ª série do Integral, dos Cursos Técnicos, do Fluxo e da EJA. Desde o início, buscamos criar um ambiente de escuta e colaborativo, mantendo o protagonismo estudantil.
Foram realizadas três sessões fotográficas. Na equipe de trabalho participaram as estudantes Kamily Santana, Giselly Guedes e Rebeca Chagas assumindo as maquiagens, o making of também foi feito por Giselly Guedes, a aluna Iolly Santana fez a iluminação, Maria Vitória Braga e Louise Nunes formaram a equipe de apoio.

As imagens captadas refletem mais que a pluralidade de tons de pele, de cabelos, de expressões. Refletem sonhos e conhecimentos construídos a partir de saberes emancipatórios organizados pelo movimento negro brasileiro: saberes identitários, saberes estéticos-corpóreos e saberes políticos. O projeto reafirma a importância da educação étnico-racial como prática cotidiana e viva, que ultrapassa os limites do currículo formal e se concretiza nas relações humanas e nas experiências compartilhadas.

A culminância do projeto é uma exposição fotográfica, montada no pátio central do colégio, durante todo o mês de novembro. A comunidade escolar é convidada a visitar, se emocionar e se reconhecer nas imagens — cada fotografia é um convite ao diálogo, à empatia e à valorização da história de realeza, resistência, conhecimento e beleza do povo negro. Assim, abrir novos caminhos de reflexão e de compromisso com uma educação mais humana, antirracista e transformadora. Mais do que um produto estético, o ensaio e a exposição fotográfica são instrumentos de emancipação e consciência racial, que fundamentam meu trabalho como educadora alicerçado nos princípios defendidos por educadores como Nilma Lino Gomes, Bell Hooks e Paulo Freire: a educação como prática de liberdade.

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Elisa Oliveira é filósofa, escritora com 27 livros publicados, membro da Academia de Letras de Ilhéus, professora da Rede Estadual de Educação da Bahia e mestranda do Programa de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-raciais da UFSB.






