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Fausto Pinheiro: “cooperativismo surge como saída para crise do cacau”

Fausto Pinheiro: “cooperativismo surge como saída para crise do cacau”

Caliana Mesquita

 A cacauicultura brasileira atravessa um momento decisivo. Entre pressões da indústria, desafios históricos e riscos fitossanitários, o setor busca soluções para garantir sustentabilidade econômica e produtiva. Em entrevista ao  colunista da Blog Cacau & Chocolate, Cleber Isaac, o produtor rural e presidente da Câmara Setorial do Cacau da Bahia, Fausto Lavigne Soares Pinheiro, fez uma análise direta do cenário e apresentou propostas para fortalecer o setor — com críticas, dados e caminhos estruturais.

Com trajetória consolidada, Fausto Pinheiro é empresário e produtor rural, tendo sido o primeiro presidente da Câmara Nacional do Cacau no Brasil. Ao longo dos anos, participou da formulação de políticas públicas estratégicas, como o grupo temático de valorização das amêndoas de cacau, hoje ligado a mais de 170 marcas de chocolates finos e de origem no país. Também esteve envolvido na criação de cooperativas e na negociação do endividamento da lavoura cacaueira junto ao governo federal durante a crise provocada pela vassoura-de-bruxa.

Fausto Pinheiro

Atualmente à frente da Câmara Setorial do Cacau da Bahia, ele aponta que o setor vive uma inflexão. “O governo do Estado da Bahia vem sendo um divisor de águas na defesa dos interesses da cacauicultura baiana”, afirmou, ao destacar a atuação da gestão de Jerônimo Rodrigues.

Segundo Fausto, entre os avanços recentes está a suspensão temporária das importações de cacau, após questionamentos sobre a origem de amêndoas vindas da Costa do Marfim. “Isso nos deu a condição de viabilizar a proibição, ainda que temporária, das importações, até que a gente tenha absoluta certeza de que o Brasil pode atender ao volume necessário”, explicou.

Outro ponto destacado foi o investimento de R$ 2,5 milhões, via CEPLAC, para retomar a previsão de safra — interrompida há sete anos. “Nós estávamos há sete anos sem previsão de safra. Quem fazia isso era a indústria moageira, então a gente tinha perdido esse poder”, disse.

No campo regulatório, Fausto citou a redução do prazo do drawback, de dois anos para seis meses, como um avanço importante. Ainda assim, fez um alerta: “A gente precisa ficar atento ao prazo de 180 dias, porque o calendário político pode prejudicar os interesses da lavoura cacaueira”.

Ele também mencionou o avanço do Projeto de Lei nº 1769/2019, do senador Zequinha Marinho com a participação da deputada Lídice da Mata, que propõe aumentar o teor de cacau nos chocolates. Para ele, essas medidas “não resolvem tudo, mas contribuem no curto prazo”.

Além das ações institucionais, Fausto destacou uma mudança de postura entre os produtores. “O diálogo vem prevalecendo na construção dos interesses da cacauicultura”, afirmou. Segundo ele, o setor está aprendendo a atuar politicamente de forma mais estratégica, ampliando sua presença nos espaços de decisão.

No entanto, os desafios seguem expressivos. Um dos principais alertas é sobre a monilíase do cacaueiro, que já se aproxima das regiões produtoras. “Uma praga como a monília pode comprometer em até 60% a nossa produção”, destacou.

Diante disso, ele defende uma mudança na lógica de investimento público. “Não é renúncia fiscal, é investimento fiscal. O prejuízo que uma praga dessa pode trazer é muito maior”, afirmou, defendendo mais recursos para pesquisa científica e genética.

Fausto também fez críticas ao modelo atual da cadeia produtiva. “O modelo que a gente tem hoje é o de produzir e entregar. Isso não sustenta o setor”, disse. Para ele, é necessário avançar para estruturas mais profissionalizadas, com cooperativismo forte e gestão qualificada.

Nesse contexto, ele defende a criação de um fundo setorial para financiar tanto a pesquisa quanto a organização da comercialização. “A gente precisa se organizar de forma profissional, acessar novos mercados e agregar valor ao nosso produto”, afirmou, citando oportunidades em países como China e Emirados Árabes Unidos.

Ao abordar a relação com a indústria, Fausto reconheceu sua importância, mas criticou práticas que impactam diretamente o produtor. “O deságio provocado por estoques elevados controla o preço interno e prejudica o produtor”, disse.

Ele também foi enfático ao comentar o posicionamento de entidades como AIPC e ABICAB, que alertam para prejuízos econômicos no setor. “O prejuízo já aconteceu. E está no campo”, afirmou.

Segundo ele, a falta de rentabilidade tem impacto direto na produção. “Como é que vamos atingir 275 mil toneladas se a gente não tem condição de investir na lavoura?”, questionou.

Ao final, Fausto Pinheiro reforçou a necessidade de mudança estrutural. “A gente precisa ser dono do nosso próprio nariz. E isso só vai ser possível com organização, cooperativismo e protagonismo do produtor”, concluiu.

A avaliação é clara: sem fortalecer quem está na base da cadeia, o Brasil seguirá limitado em seu potencial produtivo e competitivo no mercado global do cacau.

Caliana Mesquita é  jornalista e editora da  TVCacau

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