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Da novela para a vida: o empresário que fez o cacau da Bahia renascer

Da novela para a vida: o empresário que fez o cacau da Bahia renascer

 

 

A ´descoberta` do chocolate nas terras do cacau do Sul da Bahia

 Mario Bittencourt, de Ilhéus (BA), no UOL    @mariobtagro

Mario Bittencourt

“Aqui eu planto a minha alma, como se fosse uma semente de cacau”.

A frase acima, do fazendeiro José Inocêncio, foi dita pouco antes dele fincar seu facão à beira de um pé de Jequitibá, em meio à Mata Atlântica. Logo após, ele escaparia da morte e construiria seu império numa fazenda de cacau do sul da Bahia.

Era a primeira cena da telenovela Renascer (1993), da Rede Globo, e que contava a estória dos barões do cacau na região, seus conflitos familiares e disputa pela posse da terra, a partir do personagem José Inocêncio, interpretado na fase inicial pelo ator Leonardo Vieira e depois, já como coronel, por Antônio Fagundes.

Nos bastidores da novela, atuava como produtor, na locação de fazendas e figurino, conta o hoje publicitário e empresário Marco Lessa, um guanambiense de 49 anos que se mudou para Ilhéus por conta do pai, que atuava no setor bancário.

Antes de a novela ir ao ar, Lessa percorreu o sul da Bahia para conhecer as fazendas de cacau que mais se encaixavam no roteiro, o que o fez ver de perto a realidade das fazendas, à época em plena crise por conta da praga da vassoura-de-bruxa, introduzida de forma criminosa na região em 1989, conforme uma investigação da Polícia Federal que não apontou culpados.

De grande sucesso, a novela que tinha também entre seus atores principais Marcos Palmeira, Adriana Esteves, Taumaturgo Ferreira e Luciana Braga fez com que a zona cacaueira do sul da Bahia povoasse o imaginário popular nacional, como já vinha sendo feito na literatura pelo escritor itabunense Jorge Amado (1912-2001).

Mas para a região do sul da Bahia o nome “renascer” viria a fazer mais sentido muitos anos depois, quando foram iniciados movimentos na região para valorização da amêndoa do cacau e produção do próprio chocolate. À frente desse movimento, iniciado há 11 anos, estava o empresário Marco Lessa.

Vendo o potencial da região, Lessa passou a mobilizar o setor público e privado para a realização de um festival do cacau e do chocolate, bancado nas duas primeiras edições por ele mesmo. O investimento foi de cerca de R$ 150 mil em cada edição, e teve como atração principal o fundador da marca Cacau Show, Alexandre Costa.

“Na primeira edição, tivemos 13 stands, os ocupados eram 6 que tinham sido doados, e os restantes estavam vazios”, lembra o empresário, aos risos, durante um jantar no lendário restaurante Bataclan, antigo reduto dos coronéis do cacau e hoje um dos pontos turísticos mais visitados de Ilhéus.

Avanços

Chocolat Bahia: aqui começou a ´descoberta` do chocolate (foto Clodoaldo Ribeiro)

A presença de Alexandre Costa no festival surtiu efeito, muitos cacauicultores ficaram empolgados para produzir seu próprio chocolate, o que à época era feito apenas de forma caseira, com pó de cacau. Marco Lessa, para incentivar os produtores, passou a criar de graça até as marcas de chocolate de cada fazenda.

E criou a marca dele também, a ChOr – Chocolates de Origem, da qual é sócio junto com a esposa Luana Lessa, responsável pela loja no Centro de Ilhéus e pela produção “from bean-to-bar” (da amêndoa à barra) do chocolate.

O movimento em torno da produção selecionada das amêndoas de cacau e do chocolate começou a tomar corpo a partir da realização do festival do cacau e do chocolate, que passou a ter incentivo do setor público. Aliado a isso, produtores buscavam também testar variedades de pés de cacau mais resistentes à vassoura-de-bruxa.

Hoje o evento é o maior do setor na América Latina, e além de Ilhéus, onde ocorre sempre no mês de julho, é realizado também no Pará e na capital paulista.

Além da venda de chocolates e outros derivados do cacau selecionado, o festival promove experiências sensoriais, exposições históricas e artísticas, cursos de capacitação, debates sobre temas do setor e palestras ministradas por especialistas internacionais.

Em setembro deste ano, de 19 a 22, ocorrerá a edição do Pará – em São Paulo ocorreu em abril. E em 2020 o festival estará presente também no Chocolate Experience, em Campos do Jordão (SP), em Portugal e na Argentina.

Por conta do seu trabalho, Marco Lessa foi eleito uma das 100 personalidades mais influentes do agronegócio no Brasil nos anos de 2016 e 2018, pela revista IstoÉ Dinheiro Rural. Além de sócio da ChOr, ele é dono do Grupo M21 de Comunicação.

O festival ganhou nome e status internacional: hoje se chama Chocolat Bahia. Na edição deste ano (a 11ª), em Ilhéus, o festival atraiu público de cerca de 60 mil pessoas, nos quatro dias de evento, e movimentou aproximadamente R$ 15 milhões em negócios, com 170 expositores e mais de 70 marcas de chocolate.

O evento, há anos, tem a presença de personalidades nacionais e mundiais do chocolate e cacau, como a francesa Chloé Doutre-Roussel, autora do livro “The Chocolat Connaisseur” (Berklei Publisching), e da embaixadora do cacau da Venezuela, Maria Fernanda Di Giacobre, fundadora das marcas Cacao de Origem e Kakao Bombones Venezoelanos. Ambas participam com palestras e realização de cursos.

 

Valorização

Chocolates do Sul da Bahia (foto Ana Lee)

Ao refletir sobre o desenvolvimento da cadeia do cacau, Marco Lessa avalia que a sua valorização de mercado se darão quando houver por parte da população um aumento no consumo do chocolate, sobretudo o que é feito a partir de amêndoas selecionadas.

“Com a melhoria do consumo por chocolates de qualidade, as fábricas moageiras vão passar a se sentir pressionadas a comprar amêndoas melhores e pagarão preços mais justos que os de hoje”, disse. “Por isso o aumento do consumo é importante”.

Para Lessa, os produtores de cacau do sul da Bahia não podem fazer como os da África, “que fizeram ‘bico’ para as grandes fabricantes e estão ameaçando não vender o cacau na safra do ano que vem por causa dos preços baixos”. Mas ele questiona: “E vai vender pra onde?”.

Marcos Lessa se refere aos países de Gana e Costa do Marfim, de onde saem mais de 60% do cacau consumido no mundo. Em junho, representantes desses países anunciaram que suspenderão a venda de cacau da temporada 2020-2021 se não for estabelecido preço mínimo de R$ 9.000 por tonelada de cacau.

Além do consumo, Lessa acha “extremamente necessário” a volta da porcentagem mínima da quantidade de cacau no chocolate fabricado no Brasil. Pelas regras atuais, só pode ser considerado chocolate o produto com ao menos 25% de cacau.

Antes da vassoura-de-bruxa era de 35%, e a redução ocorreu justamente por pressão das grandes fabricantes de chocolate, diante da escassez da amêndoa na Bahia. Um projeto de lei chegou a ser proposto, em 2015, pela ex-senadora baiana Lídice da Mata (PSB), mas acabou arquivado três anos depois, ao fim do mandato dela.

“Tinha que voltar ao que era antes a porcentagem, mas as grandes marcas de chocolate fazem pressão contra. As pessoas precisam saber que o chocolate com mais cacau é muito mais saudável”, declarou.

Segundo Lessa, chocolate com 40% a 60% cacau vai ainda leite, açúcar e cacau; e de 60 a 100% apenas açúcar e cacau. “Aumentar o nível de cacau deixa o chocolate muito menos calórico, o que serve para estabilizar a pressão arterial”, comentou.

Outro ponto importante no processo de desenvolvimento da cadeia, na avaliação de Lessa, é a conscientização dos cerca de 45 mil produtores de cacau, “de que eles podem se restabelecer dentro de um novo conceito, que é o chocolate de origem”. Dessa maneira, ele diz “iremos retomar, em bases sólidas e sustentáveis, o caminho do desenvolvimento”.

Do brigadeiro à produção de chocolates especiais

Luana Lessa (foto Ana Lee)

Na ChOr, o trabalho a que se refere Marco Lessa já vem sendo desenvolvido pela esposa. Eles começaram juntos o movimento pela valorização do cacau e chocolate no sul da Bahia – ele na articulação para realização do festival e ela com uma loja de brigadeiros que depois viria a ser a da marca do chocolate.

No embalo do “bean-to-bar”, Luana Lessa, 39 anos, comanda uma das marcas de chocolate mais conhecidas de Ilhéus. Há seis anos ela tem uma loja no centro da cidade, para onde vão aos montes os turistas que chegam por meio dos navios cruzeiros, durante o verão.

Os chocolates da Chor são produzidos com amêndoas selecionadas de produtores da região que possuem o selo do Centro de Inovação do Cacau (CIC), um laboratório de análise e classificação das amêndoas de cacau, com base nas características de aroma, cor e propriedades físico-químicas.

O laboratório funciona na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) como uma ponte entre quem produz e quem compra com qualidade. Com as amêndoas selecionadas, Luana Lessa fabrica 17 produtos, entre chocolates, bombons variados, trufas e doces.

A brincadeira começou com uma brigaderia há mais de dez anos, quando se fabricava apenas o chocolate caseiro. De uma tonelada de chocolate por ano, logo no início, em 2013, hoje a Chor produz 6 toneladas no mesmo período de tempo.

E vende para todo o país. “Meu produto é de valor agregado, e as pessoas querem saber como ele é produzido, por isso muitas vêm aqui só para saber isso, ver de perto”, disse Luana.

Na loja da Chor, uma das quatro marcas de chocolate que possuem local próprio de venda, das 70 que existem no sul da Bahia, há espaço ainda para homenagens.

O cenário da Baía de Todos os Santos, em Salvador, e um resumo da sua história vem na embalagem do chocolate 88% cacau; o que tem 70% homenageia Porto Seguro e descobrimento do Brasil; e o chocolate Terra de Santa Cruz (44%) é sobre São Jorge dos Ilhéus, nome da cidade na época da colonização.

“Esse ano lançamos o 77% cacau, que é um chocolate fino do fino, pois tem um cuidado mais especial com as amêndoas”, afirmou Luana, que atrai clientes de várias idades com as vendas de bombons de avelã, paçoca, caramelo de castanha-do-Pará, caipirinha de limão, chocolate 70% com nibs, maracujá com 70%, geleia de cacau, leite ninho com patê de avelã.

E personaliza sabores também, caso uma pessoa queira, como fez a sueca Basia Pier Chocilska, , 43, que mora há seis anos em Ilhéus. Ela trabalha com hipnoterapia, técnica de hipnose clínica usada, por exemplo, no tratamento de transtornos emocionais, físicos e psicológicos. “Meu consumo é de chocolate de hortelã”, disse. E é só dela.

Basia Pier Chocilska (foto Ana Lee)

 

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